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sábado, 4 de fevereiro de 2012

Ela dorme em meus braços - e eu sonho. O sonho é a luz dos olhos dela, seu sorriso sem dentes e a alegria contagiante que dela emana.

Ela não sabe dormir sem acalantos - e disso eu cuido. Todos nós buscamos para sempre a mãe que nos embala, que afasta nossas penas e preocupações. Deixo que durma - cuidarei para que o bicho-papão não se aproxime esta noite...

quarta-feira, 5 de maio de 2010

In the spotlight

É uma sensação escura, sofrida. Faz 12 meses. Amanhã.

E eu ainda estou prisioneira desse sentimento. Ainda me sinto diminuída diante de você, como quando visitei o Cristo Redentor pela primeira vez, aos 5 anos. Eu, micro - você mega.

Eu nunca sei onde pôr minhas mãos na sua presença. Eu nunca sei como conter meus olhos diante de você. Eles saltam, e se acendem, e então a escuridão devastadora me toma de assalto. Fico sozinha no palco, sem aplauso. O fracasso que eu sou é aclamado pela solidão.

No dia em que estive na ribalta, no dia que seus holofotes estavam em mim - neste dia fui completamente eu, completamente sua. E me senti especial, importante e totalmente envolvida por uma experiência capaz de mudar a minha vida. Totalmente. Completamente. Você me fez sentir tão viva, tão linda, tão inteira! Eu achei que o que aconteceu ali tinha sido para você o que foi para mim. Eu ainda acho. Mas não sei o que aconteceu depois.

As luzes se apagaram. Eu voltei a ser aquela pessoa mínima e irrelevante que era antes. E você voltou para o pedestal. E é só.

Sinto que estou encolhendo agora, e logo serei novamente o que sempre fui - uma pedaço de rocha, tanto fria como inanimada. Todo o brilho que emana de mim cessará, porque a luz que refleti e me fez brilhar emanava de você. E tudo voltará ao normal, pelo menos para os outros.

Dentro de mim, nunca serei normal novamente. E te agradeço por isso. Você me fez ver minha importância e minha insignificância - tudo ao mesmo tempo. Dentro de mim, a faísca incendiou minha alma. Eu sou a fênix - renasci mais uma vez, por você.

Ainda deitarei minhas oferendas aos teus pés, meu adorado ídolo de mármore frio e intocável. Nunca, nunca me diga o valor real do que houve entre nós.

Naquela tarde em que estive no centro do palco do seu coração.



terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Underfed

Recolho as migalhas de amor que caem da tua mesa - diligentemente, sem pressa. Na constância deste ato reside a cadência da minha vida. É delas que se alimenta esse meu lado obscuro, andarilho e vadio, e ele vive mal humorado, irritado e triste - porque está sempre faminto.
Me alimento de migalhas, enquanto você se farta de amor, outros contigo. A família tão perfeita, santificada pelo banquete constante; a lealdade parasitária dos amigos, dos colegas de trabalho, dos vizinhos... Todos eles drenando tua energia vital, enquanto você se esforça para impedir que as tuas migalhas cheguem até mim...
Quantas delas você me sonega, quando passa o papel absorvente sobre a toalha do jantar, quando chega antes de mim com a vassoura e a maldita pá e as lança ao lixo? Eu posso viver muitos anos, posso ter só mais uns mil dias, posso perder o rumo dessa prosa e mudar de assunto - e se isso acontecer, quem vai se importar de recolher essas pobres migalhas? Só eu preciso fazê-lo: você se dá a todos graciosamente, generosamente - dá de si o que tem e o que lhe fará falta! - mas para mim, negará até essas migalhas, enquanto puder.
E, quando te faltarem forças, quando te drenarem até que reste um quase nada qualquer, quando de ti pouco houver de reconhecível, você virá a mim - e eu, mendiga e suja, faminta e fraca, ainda tirarei de minha boca o que não tiver para entregar! A seiva lacrimejante e óbvia da minha adoração de folhetim, essa mentira que alimento de lembranças mofadas - essa vai ser tua salvação, e o meu declínio.
Enquanto estiver ao meu lado, tudo o que há de verdadeiro e puro e impossível será teu. Mas até isso durará um átimo. Eu posso estar faminta, e estar à morte, mas qualquer colherada mal cheia de meu amor é amor demais. E em pouquíssimo tempo, lá se vai o moribundo - mais vivo do que nunca, do que ontem, quando bateu à porta e deitou na minha cama, e nem fez amor comigo, por fraco demasiado - lá vai o renovado, distribuir por aí o que recebeu na casa da miséria.
É assim por não haver outra maneira. Se houvesse, se eu a encontrar... As migalhas se acumularão em outro lugar.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Nota da autora

Aos meus queridos amigos - que se tornaram leitores e passam por aqui - e aos meus leitores - queridos por sê-lo...

Desejo, em primeiro lugar, um excelente 2010 a todos. Desejo poder continuar enchendo esse espaço virtual com minhas palavras. E finalmente, desejo que continuem voltando...

Muitas idéias, pouco tempo... Esse mês - e esse ano - começo publicando Drummond. Explico: ganhei uma coletânea de presente de Eduardo, e está sendo interessante revisitá-lo... É esse amor de que ele fala que entrego aqui, sem reservas, a todos e cada um de vocês - e também a mim mesma.

As Sem-Razões do Amor
(Carlos Drummond de Andrade)

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.

Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.

Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.


sábado, 27 de junho de 2009

Crônicas de meu pai morto - cartas à Ana Cristina (final)

(Carta segunda)

Eu penso que talvez a vida seja um equívoco. E que todos nós passemos todo o nosso tempo aqui tentando fazer as coisas certas é a prova cabal deste equívoco. O senso de propósito, por exemplo, constantemente nos afasta daquilo que desejamos ardentemente. Eu passei a sexta-feira inteira fazendo uma comida que não estava a fim de comer, fazendo sala para minha família por parte de marido e sorrindo, quando eu queria estar com você.

Se eu sei fazer uma coisa bem na vida é mentir. Ninguém percebe... É tão sutil! É mesmo uma forma de arte, e não seria ético de minha parte ocultar de você que me orgulho dessa minha característica particular. Sinto-me vaidosa. E assim sendo, todos podem confirmar que estava em ótima forma ontem, de bom humor e agradável, mas na minha mente... Devo ter esganado o meu sogro e desprezado minha sogra 1.000.000 de vezes, antes do almoço!

Agora, enquanto me sento aqui diante do note para te falar do meu amor e tentar tocar teu coração com palavras de papel digital, todos estão em paz. Só eu, turbulenta e ruidosa por dentro, sei da verdade.

A verdade é que hoje eu acordei sem vontade, para encontrar um mundo cinza. Um mundo onde só há pais no Céu - mesmo aqueles pais que partiram sem acreditar nisso - e no qual suas garotinhas choram desoladas as suas ausências. Não há consolo prá mim nesse mundo, porém quero encontrá-lo prá você.

Eu queria ter me despedido dele, não como o fiz naquele domingo 09/07/2006. Eu achava que o veria vivo novamente, e não como o vi. O sorriso dele nos lábios - e ele mesmo já não estava lá. Nenhum comentário ácido sobre a incompetência no atendimento ao público, nenhuma gota do seu sarcasmo habitual - homem implicante com tudo! - nenhuma doce palavra saindo de seus lábios, nem sua risada, que enchia o mundo de alegria. Não, não há mesmo cor no mundo cinza que ele deixou prá trás.

Mas sua dor o deixara, e eu abençôo os médicos misericordiosos que lhe deram morfina, para dor do corpo. E amaldiçôo o mundo que lhe provocou dor tão profunda, capaz de fazê-lo desistir de viver.

E eu levanto todos os dias sentindo que a única maneira de fazer justiça a ele é melhorar o mundo para o Heitor. Só sei um jeito de fazê-lo: o meu filho deve ser um homem melhor. Um homem de verdade, com caráter, bondade, respeito, alegria, justiça, coragem e tudo o que há de bom.

E é por isso que eu minto: há muita mentira no senso de justiça, porque ele se opõe ao senso de oportunidade em muitos pontos. Eu pinto até minha dor e insatisfação de cor de rosa e azul bebê, se isso tornar possível o homem bom que eu espero dele no futuro.

E não me arrependo de nada, como acho que o meu pai não se arrependia: se errou e se desejou fazer tudo de novo, ser outra pessoa, ou ser seu verdadeiro eu, se quis dar vazão a alguma aspiração, não saberei. Mas ele viveu sua verdade, no amor por nós e minha mãe. E deve ter precisado mentir um pouco. Todo mundo precisa.

Te amo demais. Beijo.

(Carta terceira - e última)

Eu acho que nunca falei sobre isso de verdade. Não sei se resolve. Em minha opinião, não adianta, e o sofrimento que subjaz é tão pungente e tão hediondo que é indescritível. É, eu nunca falei sobre isso.

Muito menos com você. Sei que somos amigas, e que seu ombro já me acolheu inúmeras vezes, mas como se partilha isso com alguém? Eu nunca contei nem para a minha analista, as palavras e imagens que me vêem à mente quando penso naquele dia que nunca poderei esquecer.

Seu corpo, tão forte, que antes me tomava nos braços, me pegava no tolo, me conduzia pela mão. Ali, inerte, frio, indiferente. Como eu queria gritar, fugir, morrer junto! Como doía, como dói, como sempre doerá... E lá se foi 50% do meu DNA, alguém de quem sempre tive todo o amor que minha mãe é incapaz de dar. Ele se orgulhava de mim, ele me via e brilhava, vibrava com as minhas conquistas, partilhava minhas vitórias, e ainda contava prá todo mundo!

Eu só conseguia pensar em me encolher ali, num cantinho do caixão e deixar o coveiro me levar para o buraco com ele. Eu tenho filho, marido, uma casa, uma vida consolidada, e eu só queria morrer com ele, porque nada mais fazia o menor sentido prá mim.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Crônicas de meu pai morto - cartas à Ana Cristina (parte um)

Estou com muita saudade de você, meu amor. E triste, por teu ano estar começando assim tão sombrio, afinal te ver todas as terças feiras ilumina a minha semana...

A vida não é mesmo justa. As coisas não acontecem nunca num bom momento. Certas coisas não têm um bom momento para acontecer. Depois a gente fica se culpando por umas besteiras sem sentido, como se a gente fosse super poderosa e pudesse ter evitado qualquer situação. E como se não bastasse o carrasco da consciência, tem os algozes familiares, e eu queria poder te proteger daquilo de que fui vítima. Mas você é forte, mais forte que eu, e você vai saber lidar com tudo. Bem melhor do que eu.

Uma parte de mim morreu com o meu pai. Ou pelo menos ficou catatônica. Agora, algumas vezes eu sinto essa minha parte querendo pôr a carinha de fora. Ele me amava, e que eu morresse junto com ele provavelmente não era o que ele desejava prá mim.

Outro dia o Heitor teve um ataque de amor, e começou a se declarar para mim, me abraçou e ficou me dizendo que a gente sempre ia ficar juntinho, e que quando nós morrêssemos iríamos para o céu juntos, e subiríamos, subiríamos até finalmente desaparecermos, juntos. Eu, obviamente, chorei muito. Foi um momento muito emocionante... A imagem era tão bonita, e tão perfeita! Mas eu sabia que era errada.

Uma mãe pode desaparecer, mas não seu filho. Ele vive, precisa viver, a gente faz de tudo para que viva. E a gente ama torto, porque ninguém é perfeito, e todo mundo sabe disso (menos eu).

Eu sempre imagino que no fim da vida a gente sabe que vai morrer. Não como no cinema, quando aparece o flashback da existência. Mas como uma sensação de conformidade, de senso de propósito. Deve ser angustiante sentir que se deixou de fazer algo. Deve ser pacificante sentir o dever cumprido. E o que vem a mente: O melhor de cada um.

O meu melhor é o Heitor. Eu penso que estive na mente do meu pai em seus últimos minutos de consciência, quando finalmente se desligou do corpo e foi ver o que nos espera. Talvez ele até tenha levado um pouco de mim, porque eu sei o quanto dele me ficou, e vive em mim, e o quanto o que ele foi me influencia até hoje, e sempre o fará. A verdade é que eu choro de saudade dele hoje como chorei então, e eu sinto falta dele hoje como sentirei amanhã. Eu nunca resolvi isso, nem sei se quero. Eu nem falo do papai na terapia.

O que eu quero dizer é que não sou boa com isso. Não tenho exatamente medo de morrer, tenho medo de encarar o sofrimento dos que ficam, e você ficou, graças a Deus. Mas não posso faltar para você, porque você é minha amiga: presente, querida e amada. E porque teu sofrimento me faz sofrer duplamente, por você e por mim.

Eu te devo um pedido de desculpas. Embora meus braços tenham te faltado, meu coração está se contorcendo por você, e sofrendo com você, preocupado e sentindo sua falta também. Eu te amo muito, prometo que vou até ai amanhã à noite, depois que todo mundo sair daqui do almoço de Sexta-feira, porque eu não agüento mais esperar mesmo.

Por favor, estenda meu abraço à suas irmãs e mãe, mas meu colo, tardio e imperdoável, esse é só seu.

Muitos beijos e todo o meu amor, Patrícia

(Essa é a primeira de três cartas que escrevi à Ana Cristina na ocasião da morte de Ovídio - seu pai. A identificação me fez reviver e colocar essa minha mesma experiência em perspectiva. Foi bom, e eu considero também libertador.)

terça-feira, 23 de junho de 2009

Muitas idéias na cabeça...

... e pouco tempo disponível para colocá-las no papel digital. Estou com esse projeto de Erin e um outro, com mais cara de conto que ela, que já é até velhinho para desenvolver. Acho que vou levar o note prá Recife nas férias - mas sem o modem! Preciso ficar incomunicável, senão não faço o que preciso.

Outra coisa de que preciso é um editor. Eu vou caçar alguém imparcial prá ler my dipshit e criticar duramente - mesmo que eu chore. E vou conseguir o que preciso: dar-lhes a vida que me devolveram, meus filhos de tinta e sangue.

Hoje ainda posto o conto. Sugestões de título serão bem vindas. Até vou colocar o provisório - mas é dipshit...

As regras do rolê

As regras do rolê são bastantes simples: Fode, mas não se apaixona. Se apaixonar, não fode mais, pra não se foder depois. Tudo o que te ...