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sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Gueixa
"Merda, Pumpkin! Se você não queria ser gueixa, veio estudar nessa porra de escola por quê? Responde, Pumpkin!"
Ela não sabia o que dizer. Manteve sua cabeça baixa e seus olhos no chão, como se esperasse que este se abrisse e lhe tragasse por inteiro. Ela pensava que seria mais fácil morrer, e invejava a sorte das meninas de saúde mais frágil e vontade menos resoluta. Como queria ser como elas: deixar a vida por doença ou suicídio. Mas sabia que a Morte só viria para levá-la quando já estivesse gasta pelos anos.
"Merda, Pumpkin, responde!"
Ela em silêncio. Sempre em silêncio. Há momentos em que resposta nenhuma é a melhor resposta. Logo viria o abraço e o perdão. E ela seguiria adiante, sem olhar para trás.
segunda-feira, 3 de maio de 2010
De mentira
É que você mente.
Todo mundo mente, e isso é a única verdade que ninguém gosta de olhar na cara, porque é uma verdade feia para caralho. Mas você mente, mente sim - e eu também minto! Mas não para você.
Você mente tanto que já se perdeu dentro da tua mentira, e é assim mesmo, no singular. A tua mentira, porque ela é a mãe de todas as outras mini e midi e micro mentiras que você conta, espalha, semeia às dúzias por aí, como se fosse bonito, como se fosse a única coisa a fazer, como se não houvesse alternativa. Mas há alternativa, meu amor: diga a verdade! Diga a porra da verdade!
Olhe em meus olhos só mais uma vez, linda, e admita para você mesma: você mente. A tua verdade está escondida por sob camadas tão grossas de mentira que agora está muito difícil encontrá-la, não é mesmo? Onde você foi parar, depois de todo esse tempo? A minha menina curiosa, sensível e sapeca, aquela menina que tinha o Sol nos olhos, o sorriso capaz de iluminar a minha vida por mil anos - ela está soterrada debaixo de tanta falsidade...
Mas eu amo você assim mesmo. Amo você porque sei que está perdida de você mesma, que numa dessas curvas da estrada você se desencontrou da sua verdade - e por sentir-se sozinha, agarrou-se à essa mentira triste em que se transformou.
A verdade é que você criou esse monstro destruidor de corações por ter sofrido, uma só vez.
E por causa disso me faz sofrer, desde então.
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Madrepérola
Sexo não era exatamente sua especialidade. Nem gostava muito de sexo. Gostava de como se sentia quando praticava sexo. Sim, era uma prática - como ioga ou corrida. Uma prática na qual pode-se melhorar o desempenho, e que exige disciplina - mas no final, qualquer um pode tornar-se bom nisso.
Se havia uma coisa inigualável no sexo não era o prazer que ele proporcionava. Ela sentia muito mais prazer degustando sorvete de doce de leite argentino ou ouvindo um LP de Miles Davis num dia chuvoso - e essas duas coisas podia muito bem fazer sozinha. Aliás, suas melhores experiências sexuais foram solitárias, mesmo quando havia outra pessoa com ela. A sensação de esvaziamento, de abandono absoluto, estava para ela diretamente relacionada ao orgasmo. Solidão.
Particularmente, ela gostava de gozar da companhia de outras pessoas, de partilhar suas peculiaridades com outros seres humanos. Mas nunca sabia se suas pequenas pérolas, suas idéias originais e secretas eram perfeitamente assimiladas por seus eleitos, uma vez que ela jamais entregaria seus tesouros a qualquer um... Só imaginava que a verdadeira comunicação era algo inatingível - e não seria ela que desvendaria mais esse mistério.
Amava as pessoas apaixonadamente. Completamente. E seu amor é intransitivo, inflexível. Bastava-lhe amar - ser amada não era prerrogativa sua. Era opção do outro.
Somente uma coisa lhe agradava no sexo. Poder dar-se ao outro, sem perder-se de si. Esse poder sempre fora fascinante aos seus olhos, e gostava especialmente quando o outro não fazia esforço algum. O poder sobre o gozo do outro, sobre aquele instante de prazer ínfimo e infinito em que cabia todo o universo.
E mantinha os olhos abertos, bem abertos, para não perder de vista o momento exato em que o outro explodia entre suas pernas, derramando-se dentro dela como um rio, escorrendo caudaloso por seu corpo, ou descendo garganta abaixo, ou espalhando sobre seu ventre, seus seios, sua pele a semente gorada de seu desejo másculo. Curvado sob seu desejo, o parceiro parecia-lhe menor, e ela mesma se convertia em uma deusa de mármore e cobre, potente, gigante e invencível.
Era Diana, a deusa caçadora, cavalgando seu garanhão veloz e destemido pelas estepes. Era Vênus, vaidosa encarnação do amor. Era Atena, sábia e astuciosa. E era também somente uma mulher.
Com uma deusa entre as pernas.
quarta-feira, 31 de março de 2010
Miller
E ele disse a ela, os olhos em uma fotografia antiga, colorida em sépia e tons de cinza: "Eu amo você com onze anos. Amo você agora. E irei amá-la quando tiver cem anos."
Talvez o amor seja isso - uma foto amarelada dizendo de alguém que você não conheceu, e sempre, sempre amou. Talvez o amor seja como um viajante do tempo, o DeLorean DMC-12 indo e voltando, e a gente lá dentro, sem poder sair. Talvez a gente sempre saiba quem vai amar, mesmo que nunca tenha visto nem jamais volte a encontrar esse amor.
Eu sempre soube que ia amar você. Eu disse isso a alguém bem próximo antes mesmo de a nossa história começar. Eu pus meus olhos em você e soube - e é uma pena mesmo, esse saber sem solução, essa promessa sem jeito. Eu vi a sua natureza verdadeira como se você fosse transparente, e o teu coração de carne estivesse visível para mim como os fios negros da tua barba espessa. Tinha tudo para dar certo, tem ainda, sempre terá - mas há questões outras, e aquilo que foi ainda é, mas é também outra coisa agora, outra coisa daqui para frente. E deu certo - de verdade. Está funcionando de outro jeito. Tenho um momento ou outro, como antes, mas não tenho a ansiedade da espera, aquela incerteza excruciante, a dor que mora no ventrículo esquerdo, essa lança transpassando o peito e o pensamento. Esse "what if", no more. Daqui para frente é não, e nesse não mora o eterno sim recitado no altar da cama, seu perfume como incenso, holocausto, presente - e em cada lugar onde eu te vi pela primeira vez.
O que ele disse a ela eu te digo: "Amo você aos três anos, e amo você aos oito. Amo você agora. E irei amá-lo quando tiver cem anos."
E nos meus sonhos perdidos... Bem, isso já é outra história.
Anaïs
Foi alguma coisa que ela disse: "E chorei pela minha dor, por não estar acostumada a ausência dela". Aquilo calou a sua alma. Queria sentir aquilo, cada uma de suas células, as entranhas de cada órgão esperando, ansiando pelo momento em que a dor finalmente se mudaria.
Então, passou a se expor a tudo que já lhe provocara dor. Não. Ela não pisou em pregos, ou prendeu dedos em portas deliberadamente. Era a dor essencial, íntima, espiritual a que ela vinha se expondo, de maneira quase exibicionista. Procurou colegas de escola dos tempos de infância, seus primeiros amores, o namorado com quem teve seu primeiro momento de intimidade. A professora que uma vez caçoara de sua escrita rebuscada, o inspetor que a flagrara em seu único instante de rebeldia e a humilhara diante de toda a classe. Engraçado como nada disso fez a dor voltar.
Ela ficou se perguntando, por muito tempo, diante do espelho, onde diabos aquela dor foi se esconder. Porque sentia falta dela! E de seus olhos, as lágrimas escorreram espessas, sentidas. Sabia agora exatamente com a outra se sentira. E sabia também da verdade: o adeus à dor era impossível.
Ela espreita constante, e é decidida. A dor estará a espera - e nunca se sabe no que se vai topar...
terça-feira, 16 de março de 2010
Metafísica
Sim, a vida terminaria. Não há vida após a morte. Pelo menos não enquanto fenômeno fisiológico que ela se acostumara a estudar insistentemente desde a mais tenra idade. Não mesmo. Ela sabia, ele sabia.
Mas desde aquele amor, ela passara a sentir o indelével perfume da eternidade. Havia nos pequenos detalhes daquele encontro um desejo incandescente de permanência, a vontade de ficar mais algum tempo, o toque intencional da pele se perpetuando na vida, tecendo o seu fio ao dela numa trama única - constituindo algo novo, inusitado.
Quis gritar para o mundo. Anunciar a descoberta intuitiva de algo maior que a fisiologia! Mas, presa como estava aquela estrutura especulativa e minuciosa de pensamento, não pode fazê-lo. Não passa da noite para o dia uma acadêmica a falar assim de intuição, como se a metafísica fosse elevada a condição de ciência exata num piscar de olhos.
Desistiu antes de tentar. Mais fácil aceitar que a existência ruma para o vazio que apostar suas poucas fichas de sanidade num amor que talvez tivesse propriedades transcendentes...
terça-feira, 9 de março de 2010
You - in the back of my head
(...)
É sobretudo dessas nossas conversas que eu sinto falta, dessas conversam que nunca tivemos, e que agora acontecem dentro da minha cabeça – sou eu ouvindo você em mim. São os diálogos de um louco – sou eu conversando com a parte de mim que é você, com esses fragmentos de DNA contidos em cada núcleo celular que constitui meu corpo, com os ecos de você que ficaram para mim na partilha – e há por vezes mais sanidade em toda essa loucura que na razão cartesiana sobre a qual construí a minha vida.
(Lights will guide You home / And ignate your bones / And I will try to fix you...)
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Quase nada
É, ela já tinha passado por aquilo antes. Foi uma loucura, um delírio, uma certeza clara de que toda a felicidade do mundo cabia dentro de seu carro, no banco do carona - e se chamava Antônio Carlos.
Agora tinha outro nome - mas era Antônio Carlos all over again.
No rádio, ela escuta a canção-tema daquele seu romance de então. É como reviver o amor em formato mp3. Todas as palavras tão bem colocadas ali, as estrofes soando como aqueles beijos roubados no corredor da escola, a aflição pelo momento de sair dali, entregar-se àqueles beijos, todos com gosto de travessura, todos deliciosos como o primeiro. Por todo tempo que aquela insanidade de cinco semanas se estendeu. Nunca antes um homem tinha beijado um primeiro beijo tantas vezes. E ela era viciada em primeiros beijos... E para quê? Para nada, para redundar na verdade inexorável da sua vidinha suburbana: às vezes era melhor ficar de longe, só olhando as flores.
Dessa vez a história é diferente, e ainda assim é a mesma. Como pode, esse padrão, esses envolvimentos tão intensos, tanta entrega, para tão pouco? Provavelmente há saída terapêutica para essa encruzilhada, mas por enquanto as sessões de análise não apontam a solução - flechas de neon seriam tão benvindas...
Os beijos, as mãos, o toque. Seus olhos lânguidos, a língua aflita procurando o mamilo por dentro do decote, seus suspiros e a certeza de que jamais fora tão feliz, jamais homem algum a fizera provar do paraíso com tanta maestria, nunca o gozo fora tão pleno de sentido e significado. Ele só não é perfeito porque é Antônio Carlos.
Over and over. Again.
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