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sábado, 25 de julho de 2020

As regras do rolê

As regras do rolê são bastantes simples:
Fode, mas não se apaixona.
Se apaixonar, não fode mais, pra não se foder depois.
Tudo o que te incomodar no rolê, fala.
Se não falar, entuba, engasga, e sufoca essa porra até o fim.
Joga limpo, e não entrega as cordinhas do teu boneco na mão do titereiro.
Se deixar esse puto brincar contigo, a merda tá feita, e não me venha chorar no ombro depois.
Parece complicado pra quem vê de fora, mas nem é. E sempre você acaba cagando alguma prerrogativa dessas, mas não vale a pena, e causa um estrago que pode te amarrar, e quem é da bagunça não quer esse negócio de "Sorte de amor tranquilo, com sabor de fruta mordida". Quem é da bagunça quer o fuzuê, aquele monte de boca e pau e buceta e bunda, e carne, carne dura, carne macia, carne cheirosa e quente, cheia de vontade. Carne suculenta dos caldos que só tesão do bom produz.
O perfume da bagunça nos lençóis do meu quarto, eu olho pro lado e só veio ele.
Porra, porque só veio ele? A gente combinou nós 3.
- Ela não quer vir, ele disse. Falou que não quer me dividir com você.
- Porra, Mau... a questão é que eu quero é ela. Você aqui é pra ela não se sentir estranha quando eu mergulhar a língua inteira naquela bucetinha doce dela, não ficar pensando que ela tá virando lésbica, que isso ela não é. Rola eu tô acostumada... ah, buceta também! Mas eu quero a dela, e que se foda se tu trouxe a rola pra cá, caralho. Não quero, não vai rolar.
- Aí, tá vendo como tu é foda? Me despenco pra cá nesse estado, e tu me nega a baguncinha que a gente faz!
Nisso ele bota a caceta pra fora, aquele cabeção lustroso, bonito, rolição... eu sei que a rola dele é linda, e sei que ele é um puto bem gostoso, mas não tô a fim. Viro a cabeça pro lado, ele dá a volta na cama e esfrega a rola na minha cara. Fico puta e empurro ele. Ele perde a linha e as estribeiras. Segura meu braço com força e me aperta tanto que eu sinto o lugar os os dedos dele estão afundando. Solto um gemido de dor, os olhos dele brilham com raiva e sandice. "Fodeu", eu penso, e tento me desvencilhar daquele aperto para sair do quarto antes que ele faça merda... mas ele já tinha enchido a cabeça de pó antes de entrar aqui em casa, e eu percebo talvez com alguns segundos de atraso que perdi. Ele pira com a minha tentativa de fuga, pega o lado direito da minha cabeça com a mãozona espalmada e bate com o lado esquerdo dela no portal, do lado da cama. Roda tudo.
Acordo com ele gemendo e me xingando, enquanto enfia a rola sem dó na minha buceta. Eu não estava a fim, ele estava era me estuprando. Me bateu, me desacordou, me violentou. A cara dele, uma máscara louca, em nada lembrava o cara lindo de um metro e noventa que entrou pela porta todo gentil. A gente pensa que conhece o cara porque ele entrou no nosso esquema da bagunça e conhece as regras do rolê, mas não dá pra confiar em ninguém, e se o cara que me introduziu na bagunça me visse agora ia jogar na minha cara: "isso aí é pra tu deixar de ser trouxa! Tô te falando que não se pode confiar em ninguém faz quantos anos? Babaca só se fode, bem feito!"
Fico aqui olhando pra ele e tentando me transportar pra longe, sair de cena, mas ele dá na minha cara e diz que sabe que eu tô gostando... o escroto deve ter esquecido que quando eu gosto eu molho a cama de tanta lubrificação. Tô seca, mas a pele logo rasga e ele vai achar que eu tô me empolgando, quando o sangue escorrer. Ele me vira de lado, tira da buceta e estoca no meu cu sem fazer a cerimônia do dedinho. Grito, porque cu não é todo dia, pra mim é concessão, e hoje ele só tá merecendo é que eu encha ele de porrada. O problema é que eu ainda tô tonta do nocaute, e pela dificuldade que eu tô tendo de abrir o olho esquerdo, ele provavelmente tá coberto de sangue.
Esse cretino maldito vai me pagar.
Ele não segura a onda do próprio tesão e sinto a porra escorrendo de mim. Ele sai de cima, se rindo todo. Ele vai lamentar ter saído de casa hoje. Enquanto ele vai pro banheiro se lavar, eu me arrasto pra fora da cama como posso. Tô toda ferrada, mas ele vai sair daqui ruim também.
Na gaveta onde os consolos moram, pego uma cinta-caralha e coloco um dildo bem grosso nela. ali também mora uma arma de choque, coisa que tem masoquista que goste, mas esse merda que tá aqui é vaidoso demais pra curtir porrada... vai detestar. Esse pensamento me traz um riso de canto de boca e estampa ele na minha cara. Conforme me mexo, percebo que tô toda roxa e dolorida, e imagino com um estremecimento pelo corpo todo o tanto de barbaridade esse fodido me fez antes de eu acordar... maldita a hora que eu tirei as câmeras escondidas que filmavam a ação aqui em casa... (Ainda bem que eu mandei tirar essas merda. Não ia ter como eu assistir. Melhor não saber.)
Ele volta pro quarto, e eu percebo que ele cheirou mais. Esse puto tá muito viciado, já ia cortar ele da bagunça mesmo... uma pena eu ter que estragar essa carinha de anjo que ele tem. É lindo, mas é podre, e eu prefiro que as manas não tenham vontade de dar pra ele nunca mais. Eu estou escondida atrás da porta do armário, ele não me vê, então chama meu nome e vai na direção da porta do quarto novamente... e leva um choque violento na perna esquerda. Caiu igual um boneco.
- Hoje eu não enxergo mais, hoje eu não sento mais... tomara que quando eu acabar contigo você ainda esteja respirando...

segunda-feira, 10 de março de 2014

Baile de máscaras


Ele levantou devagar. Tateou em volta, buscando a máscara que estava usando antes de pegar no sono, aqui do meu lado, na minha cama.

Pôs uma bem bonita - a máscara do amante apaixonado e embriagado - esta tarde. Acho que porque nós brigamos ontem à noite, e ele imaginou que fosse necessário fazer esse tipo para me reconquistar. Ele coloca muita energia nisso. Mas já devia saber que para mim, nem precisa. Eu já assisti ao espetáculo da troca de máscaras tantas vezes, e tão de perto, que sei de cor o truque, a ilusão que provoca a sua volta. Mas não me pode causar impressão.

Levantei também, e deixei que se exasperasse um pouco enquanto procurava seu adereço, e tomei um banho. Ele entrou no banheiro de máscara trocada - agora era o cafajeste tarado que vinha atrás de mim no chuveiro. Gosto do modo como esse faz sexo, mas não estava disposta. Tínhamos acabado de fazer amor - e sexo depois de fazer amor me parece tão misplaced... Ele saiu irritado, foi para a varanda fumar um cigarro e esperar que eu saísse dali.

Vesti o roupão macio e resolvi preparar um jantar. Ele ia namorar naquela noite, e só quando estivesse no elevador colocaria o disfarce usual nessas ocasiões: bom rapaz. Eu sabia que voltaria depois para provar a comida pelo jeito como farejou o ar quando saiu do banheiro, perfumado e penteado, vestindo uma bela camisa de seda. Pegou a calça e os sapatos que eu tinha engraxado, terminou de vestir-se e veio me beijar o pescoço e apalpar meus peitos e bunda, o cafajeste ainda sorrindo com o canto da boca, um sorriso safado e o ar mais descarado possível. Ele é a perfeita ilusão.

Para cada ocasião, uma máscara. É o perfeito cavalheiro para as velhinhas desamparadas nos mercados e padarias da vida, cafajeste comigo e outras tantas por aí - vai saber - o canalha mor para seus amigos do peito. O bom esposo e pai para a família - o olhar da mulher brilhando enquanto enumera suas qualidades - o charmoso sedutor para cada desprevenida da cidade. O profissional responsável e respeitado, o bom filho, o bom rapaz, o pobre coitado- que faz cara de pidão e consegue tudo que quer, o macho-alfa, o capitão, o filhão, o homem íntegro, irreprovável, o rebelde... Pensa tê-las colecionado, ao longo da vida. Pensa que são fruto de sua experiência. Hoje eu sei que, de fato, ele é possuído por suas máscaras, é seu prisioneiro, o item de sua coleção. De tanto usar máscaras, já nem se lembra qual a sua verdadeira cara. Perdeu-se no labirinto estreito e meandroso de suas performances diárias para a multidão de incautos que o cercam. Penetrou tão profundamente no labirinto... Cada passo adiante mais confuso, menos confiante. Mais veloz a cada passo - ele quase corre! Para quê? Isso ele não sabe, não sabe mais.

A única verdade que ele conhece é o gosto da minha boca, o perfume dos meus cabelos. Minha beleza, sua única certeza - e seu vício, só por hoje. Ele não tem um coração para me dar, não mais. Ficou perdido no labirinto, junto aos seus sonhos e esperanças. Tudo que lhe resta é a busca por sua própria face. Ele volta para mim porque sabe que eu sei quem ele é, de fato. Ele quer ver-se refletido nos meus olhos, drenar de mim a energia vital que impede seu desaparecimento, sugar a própria essência de dentro de mim. Eu o guardei em mim, não para mim. Porque o amei primeiro - incondicionalmente, perdidamente. Porque vi sua verdade e ela era linda... Talvez ainda seja, sob o desfile de mentiras que se acumulam sobre ele. Sua mentira é de fácil aquisição. O tesouro da verdade que ele esconde é de valor inestimável. Prefiro ser a guardiã desse segredo a revelá-lo, out in the open. Prefiro guardá-lo até que ele encontre o caminho para fora do labirinto - e eu possa devolvê-lo ao mundo. Mas até a remota possibilidade de fugir dali parece distante - um borrão ainda mais fora de foco, quando a observo da minha perspectiva.

E pensar que ele se protege tanto assim de mim. Que ele mesmo construiu o labirinto para colocar-se a uma distância segura de mim.

E eu o tenho nas mãos.

(Fim de papo. O delírio acabou. Posso ouví-lo fuçando as gavetas, procurando a próxima máscara...)

sábado, 1 de março de 2014

Dipshit pelo mundo

Enquanto o blog fica aqui pegando poeira, os textos que nasceram nele, nessa experiência literária, viajam pelo mundo. Através das tramas da web, as minhas palavras chegam longe, a outras pessoas, outros países, outras culturas. E chegam traduzidas. Explico: em 2012, o texto que publico a seguir foi traduzido para o inglês pelo projeto Contemporary Brazilian Short Stories e também figura na coletânea CBSS vol.2, lançada no início deste ano, e disponível aqui. E agora, para expandir os horizontes dessa história, o mesmo texto foi traduzido para o espanhol, pelo projeto Cuentos Brasileños de la Actualidade.

Em Incendiária, o bloqueio criativo é visto pelo ponto de vista do personagem. Ela estava espalhada pelo chão do meu quarto, em folhas de papel amassadas, rasgadas, nunca queimadas. Lembro que me ocorreu que ela devia estar furiosa comigo. "Se ela pudesse tomar as rédeas..." eu pensei. E ela ganhou voz.

Para comemorar o fato de mais pessoas poderem conhecer o meu mundinho, no idioma delas:


Incendiária


Quantas vezes minha história já não foi escrita? Quantas vezes, e por que caprichos o autor não me rasgou as páginas, começando novamente do zero, outras possibilidades e desfechos espalhados pelo chão de sua sala em desalinho – só para depois encontrarem seu destino final, perfeitamente misturados a uma multidão de outros dejetos e chorume – sem sequer terem a chance de ser reciclados?
Incinerá-las seria mais decente da parte dele. Enquanto ardessem, no meio das chamas, fulgurariam num clarão digno do festim de São João, o calor alimentado por elas vivificando as pessoas congeladas a sua volta, a pira sacrificial inflamada como cada palavra perdida e desperdiçada ali. A fumaça se elevando aos céus como oblação ao divino, a força motriz de cada verbo – ação e reação – provocando as mais acrobáticas revoluções no filete ascendente de resíduos daquela quase existência. Saber perder não lhe ocorria com a mesma facilidade de antes. Tinha perdido demais até ali. Não tinha mais estômago para seguir perdendo. Abriria mão de tantas coisas quantas fossem necessárias – será que era realmente necessário perder tudo, tantas vezes, e continuar tocando em frente?
Se era verdade que a sabedoria viria, já estava atrasada. Já se havia passado tempo demasiado, décadas em compasso de espera – e ela aprendera muito pouco, de verdade. Sim, sentia-se ignorante de tudo, mesmo daquelas coisas que ela mesma inventara nas horas em que se permitia o exercício da criação. Tão presunçosa, fazendo aquilo que era reservado aos deuses: de dentro de si, do cerne do ser, iluminado e aquecido pela tal fogueira, emanações de átomos e moléculas davam origem a um universo original e novo. Totalmente novo. Daqueles que cabem numa minúscula cúpula vítrea, e desfilam dependurados na coleira de um gato durante os 120 minutos de duração da película. E de cuja existência e preservação podem depender as vidas da Terra.
E mesmo assim ela preferiria que ele tivesse a decência de incendiá-las.

sábado, 4 de maio de 2013

Minúcias (parte 3)

Na semana seguinte ela chegou um pouco depois do horário marcado. Vinha afobada, ainda vestia a roupa de ginástica. Entrou, recebeu o indisfarçável escrutínio da secretaria de Inácio, e alguns instantes depois deixou-se cair sobre o divã de couro branco.

- Nossa, que correria! Desculpe-me o atraso.
- Tudo bem.
- Não, Inácio, não está tudo bem. Eu concordei em estar aqui, eu deveria ter avisado que me atrasaria. Mas me distraí, e quando dei por mim, já era a hora e eu estava a três quarteirões daqui.
- Veio da academia?
- Pilates. Detesto fazer exercícios, mas por algum motivo estranho adoro Pilates.
- Bom para você, exercitar-se.
- É... - Ela foi evasiva. Precisava deixar aquela conversinha de lado e fazer o que tinha ido lá fazer: contar a ele a sua história. Ele pareceu ler seus pensamentos, e deu a deixa:
- Você quer que eu te lembre onde você parou?
- Ah, não, Inácio. Eu sei perfeitamente onde parei. Eu te contei sobre o Fernando. Hoje eu vim aqui te contar sobre o Antônio Carlos... Então ela respirou fundo e começou a falar:

- Eu conheci esse rapaz, o Antônio Carlos, quando trabalhava num escritório de representações comerciais no centro da cidade, gerente administrativa. Ele era um mensageiro, muito gostoso, alto, bonito, tinha consciência do efeito que causava e gostava de exercer esse seu poder sobre as mulheres. Comigo não foi diferente. Na época eu já era casada, tinha uns cinco anos, e ainda não tinha filhos. E ele sempre chegava sorridente, me perguntava como tinha sido o fim de semana, o que eu ia fazer no final do expediente... como a resposta era sempre a mesma - "eu vou prá casa, o meu marido e eu vamos jantar e ver um filme" - ele dizia que duvidava muito que eu fosse uma mulher caseira. Era um flerte casual, e ele não parecia ter uma agenda.

- O que você quer dizer com isso? Agenda?
- Ah! Existem homens que traçam um objetivo, do tipo: eu vou fazer isso, aí eu falo aquilo, e dependendo do que ela disser eu caio dentro! Esses tem agenda. O Toni não tinha agenda: era um oportunista. Ele ia esperar a ocasião favorável acontecer. E eu resolvi que ia fazer acontecer o mais rápido possível - eu estava morrendo de curiosidade!
Então, uma tarde, no horário do almoço, o escritório estava vazio, eu pedi que ele fosse até a minha sala antes de sair para almoçar, porque eu tinha uma correspondência urgente para ele entregar. Ele entendeu perfeitamente - os canalhas sempre entendem - e esperou que todos saíssem para ir até mim. Quando ele entrou na sala já estava claro como água o que ia acontecer. Ele disse alguma gracinha sobre o vestido que eu estava usando, eu perguntei se era problema para ele, ele retrucou que não, não mesmo. E se aproximou como um predador, e me atacou. Ele me beijou com força, e me tirou o fôlego, e a cada beijo era um pedaço do meu corpo que ele despia, e quando eu dei por mim, estava deitada sobre a mesa, e ele entre as minhas pernas. Eu gozei intensamente naquela vez, acho que a mistura de emoções era única: o medo de alguém chegar, o tesão enorme que ele me provocava, a força com que ele me subjulgava. Sei lá, são tantos detalhes que me vem a mente quando penso nele...
Depois daquilo, ele começou a brincar comigo. Me agarrava pelos corredores e me ignorava em público, só respondendo a mim quando o assunto era trabalho. Ele se divertia às minhas custas, e isso me deixava confusa, e eu fiquei perdida. Eu não sabia o que pensar, cheguei a achar que estava apaixonada demais, e que se ele ficasse com outra pessoa eu enlouqueceria. E era isso que ele queria, depois percebi.
Sabe, com o Toni o affair era uma questão de poder. Ele queria subjulgar uma pessoa importante, que estava numa posição hierárquica acima dele. E, se possível, garantir um pezinho de meia. Ele não me pedia nada diretamente, mas deixava escapar que tinha gostado disso ou daquilo, e eu me peguei comprando uma corrente de platina caríssima para ele, corada como uma adolescente. Enquanto o atendente a embrulhava para mim, ele comentou que era um presente de muito bom gosto, e que meu marido ia gostar muito.
Aquilo foi como um balde de água fria sobre mim. Ele viu a aliança no meu dedo, e imaginou que o presente era para ele! Aquilo me deixou transtornada, e eu liguei para o escritório, avisei que não voltaria naquela tarde, dei uma desculpa. Comprei uma lingerie nova, uma garrafa de Veuve Clicquot de boa safra, e fui para casa. Preparei um jantar delicioso, me arrumei e fiquei esperando o Leonardo. A gente teve uma noite incrível, ele adorou o presente - mas gostou mais ainda do champagne e do resto. Depois que ele dormiu, eu levantei, entrei no chuveiro, e chorei. Chorei muito, deixei que a água do chuveiro lavasse todo o sofrimento. E me senti forte o suficiente para ir ao trabalho no dia seguinte acabar com tudo.

- Você o demitiu?
- Demiti-lo? Não. Eu pedi demissão. Para mim sempre haveria novas possibilidades de trabalho, mas para ele... Bem, eu tenho formação superior, experiência profissional, boas referências. E saí de lá para uma posição melhor numa rede de supermercados. Eu não poderia continuar trabalhando naquela sala, não depois de tudo o que aconteceu ali...
- E você aprendeu com ele, Tereza?
- Ah, não... Sabe, poder se exerce de maneiras diferentes, por motivos diferentes. O que para o Toni era uma maneira de se sentir poderoso e dominante, para outros era o desejo de admiração, a necessidade de se provar, de alimentar a auto estima, de ser o grande amante, o forte, o especial... E, para cada necessidade básica do ego de um homem eu levei um tombo. Só dói menos hoje em dia, que já estou escolada. E mesmo assim, ainda me acontece. É inacreditável até para mim que eu ainda possa cair nessa armadilha. Mas é como é.
- Ele não parece ter sido tão importante para você...
- Viu só, Inácio? Você está julgando. Eu tinha te avisado que iria acontecer. Há um distanciamento emocional porque essa fórmula de relacionamento é ruim. Falar desse tipo de experiência é ruim, porque não é uma relação entre iguais. Esse homem, o Antônio Carlos, não me vê como uma sua igual: ele se vê como melhor do que ele, e precisa me subjulgar, de uma forma ou de outra. E não pode haver felicidade ou boas lembranças neste tipo de história. Mas não significa que tenha sido menos importante, ou menos intenso. Eu sempre me pergunto: e se o atendente da joalheria não tivesse feito aquele comentário? E se?
- Desculpe-me Tereza, eu... - Ela cortou o pedido de desculpas, seca:
- Não se desculpe. Perceba: eu me expus ao teu julgamento, como estarei exposta ao dos que lerem o teu livro, mas o fiz voluntariamente. É por minha vontade que estou aqui - e já sabia que isso aconteceria. - Respirou fundo e concluiu:
- "E se" é a pior das perguntas, é uma prisão disfarçada de possibilidade. Na verdade, é uma impossibilidade que te aprisiona no passado onde ela era possível. E eu aprendi a viver no hoje. Não há cadeias onde eu passei.
- Entendo. De qualquer maneira, essa é uma fórmula diferente. Você se esquece deles? Dos Antônio Carlos?
- Às vezes sim - é quando caio na mesma armadilha uma segunda vez que me lembro. Mas do Toni eu nunca esqueci. Foi logo depois dele que eu engravidei pela primeira vez. No final das contas, ele me ajudou a olhar para dentro do meu casamento e a dar o próximo passo: frutificar.

O silêncio caiu entre eles, e para Inácio era um silêncio opressivo. Era claro que ele sabia que a estava julgando, mas ele não imaginava que ela fosse perceber sua manipulação tão rapidamente. Ela era uma mulher muito inteligente, e ele estava cansado daquele diálogo.

Ela olhava para ele enquanto o silêncio gritava em seus ouvidos. Ela estava tranquila, mas sentia raiva quando se lembrava do Toni. Ela tinha sido louca por ele, mas não sabia pensar nele com carinho. Era raiva o que ela sentia, e ela sabia porquê.

- Sabe, Inácio, existem dois tipos de relacionamento: os bons e os ruins. Os bons sempre dão certo, mesmo quando terminam. Os ruins sempre dão errado, mesmo quando duram toda a vida.
- Obrigado, Tereza. Podemos continuar semana que vem?
- Claro, Inácio.

Ela se levantou e estendeu a mão direita para ele. Ele apertou sua mão com firmeza, e ela saiu da sala. Ele pegou o gravador e começou a tomar notas a respeito da sessão. Repetiu literalmente suas últimas palavras: "existem dois tipos de relacionamento: os bons e os ruins. Os bons sempre dão certo, mesmo quando terminam. Os ruins sempre dão errado, mesmo quando duram toda a vida." E desligou o gravador, pegou uma caderneta com o nome dela na capa, e passou a anotar no papel. Precisaria elaborar bem a conversa...


(to be continued)


quinta-feira, 2 de maio de 2013

Minúcias (parte 2)

"Eu só sei dizer que chovia, que naquele dia a noite caiu sobre a cidade às três horas da tarde, e que em questão de minutos estava tudo alagado, e não dava mais para sair do laboratório. Eu fiquei ali, vendo os meus colegas resolverem ir embora, um por um. Fiquei com medo, sei lá por quê. O meu marido, então namorado, estava fora da cidade, trabalhando num projeto novo, e devia estar de volta em duas semanas. Eu liguei para ele, contando a situação, e ele concordou que a melhor opção era ficar onde estava - seca e em segurança. Só me fez prometer que ia trancar tudo, e se despediu.
De repente eu fiquei sozinha. Completamente sozinha. E me deu medo. Da janela, a situação parecia não ter mudado. Tudo cheio. E eu meio que entrei em pânico. Ali, sozinha, presa numa sala minúscula e repleta de fósseis... Então eu peguei as chaves e algum dinheiro, deixei a mochila no laboratório e saí para descobrir se alguém ainda tinha ficado na faculdade, e se dava para tentar ir para casa. E esbarrei nele na papelaria. Literalmente esbarrei. Eu peguei um livro qualquer numa prateleira da loja, e o estava folheando e andando em direção ao caixa quando esbarrei nele. O pedido de desculpas mútuo foi substituído por um sorriso meio sem jeito. E logo ele quis saber se eu ia tentar ir para casa, emendando que tinha um grupo de alunos que ia ficar no refeitório durante a noite. Eu disse que tinha onde ficar e agradeci, e ele perguntou se eu ficaria bem, sozinha. Ele tinha um jeito especial de olhar, era como se ele realmente visse você, ele podia olhar através de mim. E eu fiquei sem palavras."
Ela fez uma pausa comprida. Inspirou profundamente e deixou o perfume da chuva tomar conta dos seus sentidos. Era difícil falar daquilo, mas ela lembrava de todos os pequenos detalhes daquela noite: o cheiro do hálito dele, o gosto do beijo, o tamborilar da chuva na janela do laboratório, o calor do desejo e o peso das suas mãos sobre o corpo dela. Era emocionante poder falar daquele episódio abertamente a alguém genuinamente interessado no que ela tinha para contar. Tentou se concentrar de novo. Ela precisava terminar o que tinha começado.
"Ele só sorriu e me perguntou se eu queria comer alguma coisa. Diante da minha negativa, se ofereceu para me acompanhar até a minha sala. Eu comecei a agradecer e de repente aceitei sua oferta. Eu já tinha recusado tantos convites dele naquela noite que fiquei constrangida em negar mais aquilo. Ou talvez, em algum canto da minha cabeça, eu já estivesse revolvida. Não tenho certeza.
Caminhamos até o prédio onde a minha sala ficava. Conversamos todo o tempo, e como a gente tinha assunto! Ele fez questão de me levar até o terceiro andar. Subimos de escada - o prédio estava sem energia - e ele já ia se despedir quando eu ofereci um café. Sempre tinha café naquele lugar. E ele aceitou na mesma hora.
As coisas ficam confusas nesse ponto, e eu não sei dizer como foi que tudo começou, mas me lembro de todos os detalhes do que aconteceu ali. Acredito que esse não seja o objetivo da sua pesquisa, então vou omitir isso. O importante para mim é que, apesar de ter acontecido há tantos anos, é mais significativo contar isso aqui do que o meu último romance. Há um padrão, entende? Os affairs se repetem, seguem fórmulas. Eles podem vir em cor e tamanho diferente, mas são fórmulas. Eu sempre dou nomes aos meus compostos. Essa é a fórmula Fernando: acontece meio sem querer, cresce rapidamente e exige tomada de decisão. Sempre acaba do mesmo jeito: eu sofro porque não quero abrir mão, mas sei que é preciso, e nunca mais o vejo. Eventualmente fico sabendo dele por algum conhecido. Ele sempre está muito bem e aparentemente nem se lembra que eu existo. Eu nunca me esqueço dele.
Desse jeito só me aconteceu duas vezes. E eu nunca me esqueci de nenhum dos dois, mas também não sou cruel ou cretina a ponto de procurá-los. Eu sei que poderia machucar - ou ser machucada. Em qualquer dos dois casos é sofrimento desnecessário, porque não há solução para a questão.
Terminou três meses depois, ele me dizendo que se eu terminasse o meu namoro estaríamos casados em seis meses - e, se não o fizesse, jamais o veria novamente. Eu morri um pouco por dentro, mas não vi a opção que ele me mostrou. Eu não vi. Para mim não era possível dar as costas ao meu namorado. A minha lealdade estava em outro lugar. E ele se foi."
Ela sentou na chaise em frente à mesa de Inácio. Estava cansada. Contar aquele história tinha drenado suas energias. Ele achou melhor deixar as perguntas para outra oportunidade.
-Vamos parar por hoje.
-Eu agradeço, Dr. Inácio. Acho que relembrar tudo isso sobrecarregou meu sistema... Você tem alguma pergunta? - Ele percebeu um certo receio na voz dela.
-Você teme as perguntas.
-Não, doutor. O julgamento das pessoas me incomoda, só isso.
-Eu não estou aqui para julgá-la, Teresa.
-Ah, não - mas vai fazê-lo. É da natureza humana, julgar. - Ele não retrucou.
-Então eu prometo guardar meu julgamento para mim.
-Talvez não seja uma boa ideia essa sua pesquisa, afinal. Estou me expondo a esse julgamento à enésima potência.
-Você quer desistir? Eu não quero pressioná-la, mas essa tua teoria das fórmulas me interessou muito. Queria entender como você percebe a dinâmica dos affairs, como você se referiu às relações extraconjugais. Mas você está livre para resolver o que quer fazer com isso.
-Nem são muitas as minhas fórmulas. Eu acho que nós repetimos fórmulas em nossos relacionamentos, e que elas são um reflexo de nossas personalidades e experiências. Comigo acontece sempre de três maneiras bem diferentes, mas sempre as mesmas três fórmulas: Fernando, Antônio Carlos e Laerte. Te interessa mesmo saber disso?
-Sim, Teresa.
-Então... quando eu volto?
-Na próxima quinta.
-Se eu mudar de idéia, eu prometo que ligo avisando.
-Combinado - ele disse, estendendo-lhe a mão direita. Ela retribuiu sustentando seu olhar, desafiadora.
Ele a acompanhou até a porta, esperou que ela saísse e pediu que a secretária reservasse a próxima tarde de quinta para Teresa. Ignorou a careta da mulher e fechou-se no consultório. Precisava tomar notas antes que seu primeiro paciente da noite chegasse.
Já na calçada, ela olhou a chuva que agora caía pesada. Sorriu, deixou a proteção da marquise, e a chuva a abraçou. A água estava fria. Em segundos ela estava encharcada, e ainda assim seguiu pela chuva, sem dar importância a isso.

(to be continued...)

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Minúcias (parte1)

(Esse conto eu comecei a escrever em 2011, e eu até sabia como ia terminar. Por algum motivo, a ideia me deixou. Agora deu vontade de concluir a história de Tereza, então vou republicar um capítulo por dia, e recomeçar de onde parei. Espero que ela descubra seus motivos...)



E então já era quinta-feira e ela tocou a campainha da sala faltando três minutos para a hora marcada. Uma mulher de meia idade, cabelos grisalhos presos na altura da nuca num coque displicente, abriu a porta e a recebeu com uma careta de desaprovação. Ela riu de volta, desdenhosa. Enquanto esperava, ficou analisando a secretaria do Dr. Inácio: maquiagem carregada, um vestido surrado que um dia já tinha sido azul marinho, unhas muito longas pintadas em um tom de azul metálico, escarpins cinza chumbo. Ela era detalhista, e não via nisso mal algum. Alguém uma vez lhe dissera que Deus estava nos detalhes - e ela passou a entender como um elogio quando as pessoas mencionavam essa sua característica. Mas sabia que era no mínimo rude quando escrutinava alguém daquela maneira. Só não sabia como evitá-lo.

Logo a porta do consultório se abriu e Inácio apareceu na porta. Ele sorriu para ela e pediu que entrasse. Ela devolveu-lhe o sorriso, levantou-se, meneou a cabeça para a mulher entrou na sala contígua. Era muito diferente da antessala diminuta. Era ampla e muito bem decorada, mobiliada com bom gosto e sem afetação. Cada objeto ali parecia ter sido adquirido em anos de viagens pelo mundo, e o resultado era um mosaico de referências a respeito daquele homem que tanto a intrigava. Ele a havia abordado há duas semanas, no seu café favorito, enquanto ela saboreava um espresso curto olhando a chuva. Ela adorava a chuva, e ele fez um comentário certeiro a respeito de como o perfume da chuva ali era especialmente fresco. Ela explicou que a proximidade da floresta era responsável por tal efeito, e a conversa fluiu entre eles. E então ele lhe disse que era antropólogo e psicólogo, e que estava escrevendo um livro sobre infidelidade - e perguntou se ela não queria participar do projeto com seu depoimento. Aquela pergunta feita assim, à queima-roupa, surpreendeu-lhe de tal forma que ela apenas aquiesceu. Ele então entregou a ela um cartão, com o endereço e o telefone daquele consultório. Pediu que ela ligasse e marcasse um apontamento com sua secretária, e lá estava ela, diante dele, pronta para despejar sua história. Mas antes ela precisava saber... Como?

- O quê?

-Desculpe. Acho que pensei em voz alta, Dr. Inácio. Eu sei porque você me pediu para vir até aqui. Isso eu entendi perfeitamente. Mas gostaria muito de saber como foi que percebeu que eu poderia oferecer-lhe algum relato, que eu faço parte da sua amostra - como?

-Há uma qualidade indelével, uma espécie de marca, nas pessoas capazes de amar, Tereza. Eu posso explicar o que vi em você, mas prefiro que você me conte sua história primeiro. Temo que revelar esse detalhe antes do teu depoimento possa interferir negativamente no teu relato. Seria pedir demais que você me contasse o que quiser primeiro, e guardasse a curiosidade para o final?

-Acho que posso aguentar mais um pouco para saber, se isso for uma promessa.

Ele sorriu e concordou com a cabeça, enquanto se sentava atrás da mesa de jacarandá recém polida e encerada (incrível como ela não conseguia se desligar dos detalhes).

-Quanto tempo nós temos?

-Você não deve se preocupar com isso, Tereza. Eu não recebo duas pessoas para o projeto num mesmo dia, e geralmente atendo aos meus pacientes pela manhã ou à noite. Reservei o período da tarde para esse projeto, então sinta-se à vontade para levar o tempo que for necessário.

-E te incomoda se eu não ficar sentada? É que eu elaboro melhor enquanto me movimento...

-Tudo bem.

-Posso olhar os teus objetos, tocá-los? Eles me atraem a atenção.

-Claro.

Então ela respirou fundo, e andou em direção à janela, e a chuva começou a cair quase simultaneamente. Ela encostou no parapeito e ficou olhando a chuva em silêncio. Inspirou profundamente o perfume no ar, e seus olhos se encheram de melancolia. Ela sabia que aquela experiência era no mínimo inusitada. Só não sabia onde poderia levá-la. E ela começou a falar:

"A primeira vez que traí chovia, como hoje. Não foi algo planejado. Simplesmente aconteceu. É engraçado falar disso agora, tantos anos passados... É uma lembrança tão doce que nem parece real. Eu sei que é real, mas nem parece. Faz tanto tempo...

Nós éramos colegas de faculdade. Mesma grade de horários, cursos diferentes, algumas matérias em comum. Nos encontrávamos pouco, sempre nos horários das aulas, e quase nunca nos falávamos. E eu sempre soube que ele seria um amante incrível. Havia alguma coisa nele que eu não sei descrever, talvez a maneira como parecia atento ao que lhe diziam, ou a forma como segurava o lápis enquanto tomava notas das aulas... Ele usava lápis, um detalhe que eu considero sedutor: a possibilidade de apagar tudo e reescrever por cima, sei lá. Você pode considerar isso uma besteira, mas eu vejo significado nas coisas mais banais. Eu sou assim, detalhista."



(to be continued...)

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Dejà vu

Ele procura um rosto. Diariamente, automaticamente, ele busca. Tornou-se um ato reflexo: entra num ônibus olhando a todos, dentro da cara, procurando. Por vezes é até questionado pelas pessoas, e não foram poucas as vezes em que foi convidado a retirar-se de lugares públicos, como exposições e bibliotecas - tudo por causa dessa mania.

Tudo começou a quatro anos, quando foi trabalhar na redação do folhetim sensacionalista da cidade onde vivia desde a época do curso de jornalismo. A correria diária, o cuidado necessário ao equipamento de trabalho - era fotojornalista - as repetidas noites insones por conta de algum crime ou acidente que precisava constar na pauta de amanhã - ele ficava confinado no quarto escuro, e lá passava dias, semanas, já havia passado uma quinzena sem dar as caras na pensão da Valenciana - e a velha senhora acabava batendo à porta da redação - o que, por sua vez, arrancava gargalhadas dos colegas e o tornava alvo fácil das brincadeiras da equipe do Vidal - que era seu repórter-chefe. Era um tal de "olha que assim a velha não consegue dormir!" e "vai acabar te trocando... Mulher não tá fácil não, Reginaldo, pega leve com a velha, vai lá, dá uma fungada no cangote dela..." Hahaha... Eles nunca desistiam, mas ele nem se importava. No fundo, aquela lenga ajudava, parecia fazer o tempo passar mais depressa, e nun piscar de olhos, completava seu primeiro ano de formado e empregado do jornal.

Um dia como outro, o telefone toca mais uma vez antes do despertador - bem antes, já estava tornando-se algo habitual - e a voz arrastada do Vidal dita um endereço:

- Rua das Flores, 35. Conhece?
- Não. Devia?
- É o puteiro, Reginaldo. Claro que devia. Tu é viado?
- Porra, Vidal, num fode, cara! Vê se eu sou homem de freqüentar puteiro?!
- Ah, é. Me desculpa, sua excelência... A velha Valenciana te esquentou a costelinha essa noite, filhão? Pára de resmungar e toca prá lá. A coisa foi feia, Naldo. Te arranca!
- Tô indo...

Na hora em que desligava a merda do telefone, logo lhe ocorriam duas ou três respostas malcriadas e perfeitas para o infeliz - geralmente algo que pusesse a mãe do Vidal no meio - mas ele sempre achava melhor que não lhe tivessem ocorrido na hora. Do jeito que o chefe era, na certa iria gozá-lo ainda mais, ao invés de se ofender. Além disso, daquela vez havia alguma coisa no tom de voz do Vidal que inspirava apreensão - no mínimo. O que poderia ser? "Mataram alguma puta, isso é certo!" e, pensando nisso - para espantar dali o tal nó na garganta - tocou para a Rua das Flores...

Chegou de cara para o crime - e era mesmo assassinato. Já vinha no táxi montando a câmera, tinha o hábito de descer da condução já clicando, dizia querer um número bem grande de opções - acalentava no íntimo o desejo de montar um livro que documentasse sua trajetória, embora soubesse que se continuasse muito tempo naquele tablóide poderia dar adeus às suas aspirações superiores - e o redator-chefe era um sanguinário filho da puta que adorava primeira página à cabidela, pingando sangue vivo - que coagulado nem vende tanto jornal assim.

Só quando a objetiva pousou sobre o defunto ele entendeu o tom de voz do Vidal ao telefone, vinte minutos antes: o morto era seu Arlindo do cafezinho, o ambulante mais antigo e querido da cidade. Não havia em Taquarais quem não conhecesse o Arlindo. Aquilo embrulhou seu estômago de tal maneira que ele precisou de muita coragem para não vomitar ali, na cena do crime. Correu para a sarjeta e verteu fora a ceia que dona Valenciana tinha lhe preparado na véspera. E dali foi ao encontro do Vidal. Sem ter na câmera uma foto para contar a história - ainda.

- Porra, Naldo, logo você, que não perde um clique! Volta lá e bate a foto, depois a gente conversa...

Ele voltou, as lágrimas ali, rolando e embaçando o visor, e ele tentando ser profissional. Lembrou da primeira vez que viu o seu Arlindo. Ele estava com o carrinho de café na rodoviária naquele dia, quando ele chegou a Taquarais. E lhe deu uma bala junto com o café. "É de brinde, para te adoçar a boca! Seja bem-vindo, meu filho! Essa cidade tem visgo - tome cuidado, hein? Não vá se agarrar aqui..." Sempre sorridente, sempre com uma piada na ponta da língua - e um gracejo para cada menina que chegava para estudar na Estadual... Naquele momento, ele pensou que já fazia algum tempo o sorriso deixara os lábios do Arlindo. E agora era definitivo. Ficou terrivelmente triste, e curioso. E voltou para junto do Vidal, dessa vez com a câmera cheia de fotos batidas de vários ângulos, e a cara de interrogação.

- Tá na cara, né, Naldo! Isso tem a ver com a filha do Lindo, meu filho... Tô vendo pela tua cara que você nem sabe do que eu tô falando, né não, excelência? Ô Naldo, a filha do Lindo virou puta... Era por isso que o pobre diabo andava todo cabisbaixo, não reparou não?
- É, eu reparei sim... - e como ele não fosse um cara passivo ou lacônico, Vidal percebeu que estava abalado, e até mudou o tom da conversa.
- Ele vinha a algum tempo assuntando o paradeiro da caçula pela cidade, mas ninguém ia contar uma coisa dessas ao homem, né? Todo mundo adorava ele, meu filho! Só que pelo jeito ele acabou pegando a safadinha no ato... E sabe lá com quem ela estava deitando... O resultado taí, agora é melhor a polícia investigar direitinho, que nessa cidade esse assassinato não vai ficar impune, ah, isso não vai mesmo! - e então, como um raio, a pergunta ocorreu a ele. Talvez por ter percebido que não tinha nenhum outro fotógrafo ali ainda, só ele e o Francês, da polícia:
- Como foi que tu chegou aqui tão rápido, Vidal? Não tem mais ninguém, só a gente...
- Aí é que está, meu filho. Eu tava comendo a cafetina...

Voltou para casa antes de ir para a redação. Nunca tinha feito isso antes. Os rapazes diziam - e ele se orgulhava - que ele tinha estômago forte, que nunca nunquinha se abalava com nada do que via. E já tinha visto coisas do arco da velha: gente enganchada que nem cachorro no cio, gente morta em acidentes terríveis, sangue por todo lado - "nada abala o Naldo", eles diziam. "Isso nasceu para tirar foto de desgraça!" Mas aquele crime tinha conteúdo emocional, o defunto não era qualquer um que ele nunca tinha visto. Era o Arlindo. E tinha sido coisa limpa, o assassino deu dois tiros: o primeiro, no quarto, pegou só de raspão. O segundo, já na soleira na porta da rua. E Arlindo caíra ali, na porta de um estabelecimento de má fama - logo ele, um homem de excelente reputação.

Mais tarde, já refeito do susto, porém não da tristeza, pôs-se a revelar as fotos. Tentou fazê-lo com grande distanciamento, tarefa dificílima, e percebeu que valorizava mais aquele homem do jamais imaginara. Para manter o profissionalismo fez tudo mecanicamente, a cabeça vazia. Na mesa do Vidal, antes da reunião com o redator-chefe, espalhou as fotos com displiscência, e nem sequer olhou-as uma segunda vez.

- Onde é que você vai, Naldo?
- Ao banheiro, preciso pedir agora?
- Arre, segura tua onda, meu filho! Tá todo mundo aqui na mesma merda que você, todo mundo meio órfão de pai e de amigo, então pode segurar a peruca e ficar aí mesmo.
Engoliu em seco e voltou para junto da mesa, sem dizer palavra.
- Melhor assim... Vamos fazer uma pré-seleção, ok?

A equipe reunida em volta do seu trabalho e ele querendo fugir dali, todos dando palpite sobre os melhores ângulos... E ele se pegou fazendo o oposto do que fizera até então - com a lupa na mão direita, analisava em detalhe cada foto, procurando entre as pessoas clicadas junto ao corpo alguma que pudesse ter qualquer relação com aquilo. E ali, durante o trabalho, começou sua obsessão: na pequena aglomeração à porta no prostíbulo, um rosto familiar. Ele não sabia quem era a menina de cabelos escuros caíndo sobre os olhos, sobre o rosto - longos cabelos negros, como a Iracema de Alencar. Nem virgem, nem Iracema: era a filha de Arlindo. Uma menina quando a conhecera - devia ter então uns 12 anos - agora era aos seus olhos uma mulher. Mulher da vida. Aquilo perturbou Reginaldo profundamente, e deixou nele aquela marca - procurar o rosto, um rosto na multidão.

Passou a pensar em como se sentia aquela moça, sabendo-se culpada da morte do pai. Pois assim fora apurado pela polícia local: o Arlindo descobriu o paradeiro da filha, foi até o puteiro armado com uma .38 não registrada, entrou pela porta gritando pela moça e pegou a pobre no horário de expediente - e em posição de sentido. Aquilo transtornou o velho, ele partiu para cima do cliente, o homem lutou com ele, tomou-lhe a arma e atirou contra o velho. Tudo bem explicadinho, tintim por tintim, pela Madalena - observe bem a ironia do nome da moça. É, era esse o nome da filha do Arlindo: Madalena.

Tudo ficou resolvido, o homem se apresentou na delegacia no mesmo dia, a justiça considerou aquele um crime de legítima defesa, e Madalena sumiu na poeira da estrada. Reginaldo ainda tentou falar com ela no dia do julgamento, mas foi vã a tentativa - ela levantou-se e saiu do tribunal como um relâmpago, mal pronunciada a sentença.

Desde aquele dia, ele a está procurando. Sabe que não vai encontrá-la. Ela jamais voltará a Taquarais. Para o que voltaria? Os irmãos e irmãs nunca a perdoariam. As pessoas da cidade olhariam para ela sempre de soslaio, sempre lembrando, sempre acusando. Fizera bem ela, de seguir o caminho que resolvessem seus passos. Começar nova vida, inventar uma história, um passado bem triste, que ocultasse o real motivo daquela infelicidade sem fim dentro dela, transbordando por seus olhos - para, quem sabe, poder ser feliz de novo. No fundo, talvez soubesse que era isso que o pai queria para ela - felicidade. Talvez, ficasse ela ali em Taquarais, a morte do seu Arlindo tivesse sido vã, e ela jamais teria chance de encontrar a tal felicidade que julgava ser o que o pai desejava para ela. Ou talvez tivesse aceitado algum convite de algum cliente, e estivesse agora num apê bonitinho de algum bairro suburbano da capital, teúda e manteúda de algum figurão da TV...

Ele nunca saberia. Nunca mais seus olhos redondos e assustados no meio da multidão. Nunca mais a oportunidade de consolá-la por sua perda - perda de que todos se apoderaram, ele inclusive. Nunca os cabelos negros descendo por seus ombros, suas costas nuas, registrados por sua objetiva. Nunca mais.

Mas não! Não desistiria de buscar. Talvez nessa busca ele encontrasse o que perdeu quando viu o corpo do seu Arlindo ali, estirado no calçamento. Talvez nos olhos dela estivessem as respostas às perguntas que nunca deixara de fazer. Mesmo agora, quase três anos depois do acontecido, quando as feridas cicatrizaram, quando a dor passou a dormência, e a dormência se transformou naquela pontadinha que notifica seu dono que o tempo vai mudar...

Ele procura um rosto. Constantemente. Sabe que sempre vai buscar.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Ingenuidades

Sempre acreditara ser aquele tipo de mulher de quem os homens fazem gato e sapato. Jamais em toda sua vida soubera dizer não a quem quer que fosse, quanto mais a um homem por quem sentisse amor. E desta forma, seguiu sendo pilhada por toda a sua existência: ora o marido, ora o filho, ora o chefe, todos, sem exceção, conseguiram dela tudo o que desejaram.

Era assim que ela enxergava o mundo, e talvez sua mãe tivesse alguma culpa, por ter ela mesma sido sempre submissa e subordinada ao marido, seu padrasto. Ela nunca soubera que mulheres pudessem ser fortes, donas de si, ter desejos próprios e e até mesmo decidir o que fazer da sua vida.

Havia chegado o dia do casamento de seu único filho, Adalberto - conhecido por todos como Júnior, uma vez que fora nomeado como seu pai. Ela achava de uma falta de imaginação sem precedentes, nomear crianças como a seus pais, mas não pudera dizer que não ao marido, e chamara ao menino Jr toda a vida, a única insubordinação de que fora capaz. Estava vestida, penteada e maquiada de forma impecável, e via refletida no espelho uma bela mulher, jovem para seus 53 anos. Estava emocionadíssima, e esperava o momento de entrar na igreja com o filho, enquanto a família de sua nora corria de um lado para o outro, todos extremamente nervosos. Imaginou ser essa a atribuição da mãe da noiva, esse preocupar-se excessivo. Olhava curiosa toda aquela aflição reinante, mas desistira de oferecer-lhes alguma ajuda. Para Dona Yolanda, mãe da Narinha, era quase uma competição entre elas, para descobrir quem era a melhor mãe, e ela já lamentava por seu filho, genro daquele trator humano! Ria-se de tudo internamente, porque sabia que, apesar de toda a histeria, eram todos muito boas pessoas, e seu netinho ou netinha seria muito feliz por viver no meio de todos eles. Estava assim, absorta em seus pensamentos, quando ouviu a voz de Adalberto, o pai, chamando-a:

- Ezilda, venha cá, mulher! Está fazendo o quê aí?
- Já vou, meu bem!
- Por que você estava ali, criatura? - Adalberto lhe perguntou, exaltado. Ele sempre ficava indignado quando ela ficava à toa. Era quase uma afronta a ele, era como ela percebia, se ela ficasse sem o que fazer, nem que fosse por cinco minutos.
- Ora, Beto! Haja paciência... Você não viu que eu ofereci ajuda a D. Yolanda? Ela insistiu que não precisava, então, fiquei olhando.
- Ora, mulher... Acha-se logo o que fazer! Vai lá ver se o Betinho não está precisando de alguma coisa, vai.

Ela apenas meneou a cabeça, e foi ter com o filho. Para o marido ela era como uma emissária, a quem ele enviava onde queria, para fins de sua representação. Nunca pensava nisso, mas achava muito chato ter que servi-lo todas as vezes, com um sorriso no rosto. E ele, o que teria que dar-lhe em troca por tanta dedicação? Ah, isso ela bem sabia: todas aquelas amantes, o filho da Outra que ele se recusara a registrar, a quem ela reconhecera e amadrinhara desde pequerrucho, o risco de bancarrota por suas dívidas de jogo, e um sem número de eventos em que se metera. Essa era a paga que ela merecia...

Percebendo a nuvem escura que se colocava sobre seus olhos enquanto lembrava desdes incidentes, sacudiu a cabeça como quem espantava um mosquito inconveniente e sorriu para o Jr. Seu filhote estava lindo, um homem feito com olhos de menino... apavorado! Ela ficou alarmada imediatamente, e correu em sua direção, solícita.

- O que houve, Jr?
- Mamãe, eu acho que a Narinha desistiu do casamento.
- Agora, meu filho? Na hora de cerimônia?
- É, mãe, agora, agorinha! - retrucou Jr exasperado. Eu escutei o que não devia, D. Yolanda aos berros com ela no telefone, dizendo que parasse com a criancice, saísse daquele quarto e viesse já - mas eu ouvi ela dizendo que não viria, que não queria nem me ver, que o nosso filho teria pai, mas ela não queria marido de jeito nenhum. É o fim, mamãe. Ela não quer viver comigo. Ela prefere ficar sozinha do que viver comigo...

Ezilda abraçou o filho, enquanto tentava inutilmente compreender o que ele dissera. "O que ele quis dizer com não quer casar comigo? Então Narinha enlouqueceu? Será possível uma mulher ter um filho sem pai, por Deus?" Esses pensamentos passavam rapidamente por sua cabeça, ela ficou zonza e não soube a princípio que juízo fazer do que lhe fora dito. Limitou-se a olhar seu filho nos olhos e garantir que tudo daria certo. Alguma coisa estava acontecendo na sua cabeça, mas não daria atenção àquilo naquele momento. Foi até onde estava D. Yolanda e disse:

- Querida, eu preciso falar com a Narinha.
- Está tudo sob controle, Ezilda, eu lhe asseguro. - Então Ezilda foi mais assertiva.
- Yolanda, meu amor, eu vou falar com a Narinha agora, ok? Onde ela está?

Dona Yolanda parecia petrificada, e como nunca tinha visto "Ezildinha" falar daquela maneira, aquiesceu. Deu um suspiro profundo, e dando de ombros, ofereceu-se para acompanhá-la até o quarto da casa de festas onde a noiva estava se arrumando. Por todo o caminho foi oferecendo explicações, entre muxoxos, justificando que esses jovens eram assim, inconsequentes, que essas coisas de medo eram assim mesmo, que no final tudo daria certo, mas Ezilda não estava escutando. Ela sabia o que tinha que dizer a quase-futura-ex-nora, e o faria. Quando chegaram na porta do quarto, Yolanda fez que ia bater na porta para chamar a filha, mas Ezilda cortou seu gesto, imperativa.

- Eu assumo daqui, obrigada, Yolanda. Vai dar tudo certo, de alguma forma. - Diante do silêncio perplexo da outra, Ezilda bateu na porta, anunciando-se:
- Narinha, sou eu, Ezilda. Vou entrar, querida. - ela não estava ali para brincadeiras, era a felicidade do filho e do neto que estavam em jogo, e não ouviria nenhuma negativa da noiva. Virou a maçaneta e entrou no quarto, decidida. Encontrou a menina jogada sobre a cama, os cabelos desalinhados, a maquiagem borrada, em prantos. Abraçou a Nara e permitiu que a pobrezinha terminasse de se lamentar em seu ombro. Entre soluços, ela desabafou:
- Dona Ezilda, a senhora me perdoa? Será que seu Adalberto vai me perdoar também? Ah, dona Ezilda, eu não sei mais de nada, eu não sei o que fazer! A senhora já imaginou o que vai acontecer quando o Júnior perceber a merda que fez e me abandonar? - e dito isso, desabou novamente em lágrimas. Ezilda sorriu e apertou a menina em seus braços. "Quanta bobagem a gente pensa quando está grávida..."
- Minha filha... você atinou na quantidade de asneiras que você me disse nesse minutinho desde que eu entrei aqui? - e continuou, sob o olhar atônito de Nara - Minha criança, o Jr é completamente apaixonado por você! Você acha que ele não se casaria com você se não fosse pela gravidez? Ora, Narinha... deixe de ingenuidade, esses são outros tempos! Meu filho casaria com você de qualquer maneira. Talvez não tão logo, talvez mais um ano, ou dois - mas tenho certeza de que, no coração dele, você é a escolhida! Para que tantas inseguranças, meu anjinho? Você ama o meu filho?
- Ai, dona Ezilda... a senhora sabe que eu sou louca pelo Júnior.
- E você duvida no seu coração que possa ser feliz com ele, ou que ele possa ser feliz do seu lado?
- Não, minha sogra! Eu não posso imaginar a minha vida sem o Júnior...
- Eu sei disso, minha filha. Ninguém se casa com um homem que se chame Adalberto sem ter certeza absoluta de que é isso que deseja. Agora, vamos dar um jeitinho em você, e eu te garanto que quando você chegar naquele salão ele nem vai se lembrar que você está esperando criança!

A menina sorriu, meio envergonhada, e permitiu que a sogra lhe penteasse os cabelos, refizesse sua maquiagem e ajeitasse o véu e o vestido. Quando Ezilda deixou aquele quarto, Narinha estava pronta para dizer sim ao Jr, e até Yolanda, embora não gostasse de dar-se por vencida, estava agradecida àquela mulher intrometida que salvara a situação. Ezilda foi até seu filho, deixou que ele tomasse seu braço e a conduzisse ao altar montado no meio do salão, para tomar seu lugar ao lado de Adalberto, o pai. A cerimônia foi lindíssima, os noivos muito emocionados, o filho feliz como nunca tinha visto, a nora radiante, toda a felicidade do casal transbordando sobre os convidados. Ezilda não se lembrava de ter presenciado um casamento mais bonito - nem mesmo o seu. Até que ela fixou o olhar na fileira do fundo, e sentiu um arrepio subir-lhe a espinha. Sentada ali, assistindo a cerimônia, estava a Outra - a amante do marido, mãe de seu afilhado! Ela olhou novamente, não sem antes piscar, num esforço para certificar-se de que era real. O rapazote, irmão de Jr, estava agora com dezesseis anos, e era a cópia esculpida de seu pai, o marido dela. Ela gostava muito do Anselmo, mas vê-lo ali, no casamento do Jr, e ainda por cima acompanhado de sua mãe, aquilo foi um pouco demais para ela. Coisa do marido, tinha certeza. E nunca uma decisão dele pareceu-lhe tão audaciosa!

Aquela zonzeira que ela experimentara antes, quando o filho lhe falou da desistência da noiva, aqueles pensamentos que não concatenavam, agora formavam uma imagem muito clara em sua mente. Ela entendeu num relance porque tinha ficado tão incomodada com a ideia louca da Nara. "Eu tenho escolha", ela pensou, e viu tudo claramente. Todas aquelas humilhações que sofrera, nunca mais. O medo do abandono, nunca mais. A dor da perda iminente, nunca mais.

A festa se desenrolou suave e deslumbrante, todos dançando e se divertindo até a madrugada. Ela mesma foi pessoalmente cumprimentar o afilhado e sua mãe, sorrindo e muito cordial. O próprio Anselmo lembrou-se depois que sua madrinha nunca tinha sido tão gentil com sua mãe antes, e o marido ficou encantado, imaginando todos os possíveis desdobramentos positivos dessa nova atitude de Ezilda para consigo. Quando os esposos resolveram deixar a festa, ela abraçou os dois ternamente, e desejou-lhes uma vida inteira de cuidados mútuos e muita gentileza. Recomendou ao filho que fosse sempre bom companheiro para a esposa, e que nunca, nunca a decepcionasse. Sorriu para a nora, abençoou a ela e ao seu ventre, onde o minúsculo embrião repousava, imperceptível, e deixou que seguissem.

Esperou até a hora em que Adalberto veio a seu encontro, depois de ter dançado quase a noite toda com a Outra, já meio alto e aos gritos.

- Ei, Ezilda, minha filha! Venha cá, vamos para casa.
- Não.
- O quê?
- Não, Adalberto. Você não vai para casa comigo.
- Como assim, mulher? O que você pensa que vai fazer, criatura?
- Eu vou ser feliz sozinha, porque com você já faz muitos anos não sou. Nem sei se fui, um dia.
- E quem te disse que você pode fazer uma coisa dessas, falar assim comigo?! Eu sou teu marido, criatura!
- Mas não é meu dono, e eu não sou obrigada a ficar do teu lado, nunca mais. Olha só, nós já criamos nosso filho, ele já é dono de seu nariz e logo será pai. Não existe motivo na face da Terra para que eu durma sequer mais uma noite ao teu lado, estrupício! Eu deixo as tuas coisas na porta da frente amanhã. - deu-lhe as costas, resoluta.
- Mas mulher, pelo amor de Deus, para onde eu vou?
- Não me interessa.
- Mas o que houve, criatura?
- Ah, Adalberto, eu descobri uma coisa hoje. E o tempo da minha ingenuidade acabou.

Ela seguiu em frente, deixando para trás um Adalberto perplexo e descrente, a Outra lívida e assustada, e Anselmo, seu afilhado, às gargalhadas.

- Ô, dinda!
- Diga, meu querido?
- A que horas eu posso passar lá na sua casa para pegar as coisas do papai, amanhã?
- Passe depois das 11h, meu filho, e almoce comigo, sim?
- Tá combinado, dinda!

E enquanto ela seguia em frente, acenando bem alto um adeusinho a Anselmo, ele virou-se para o pai e disse, assim entre dentes:

- Perdeu, playboy!


domingo, 12 de fevereiro de 2012

Isso é só uma carta

Paloma, minha pequenina flor de laranjeira:

Desde a manhã em que a deixei sozinha neste enorme apartamento onde nós vivemos juntos por lindos e mágicos 10 meses, tenho pensado em vão nas melhores palavras, aquelas que não deixariam dúvidas a respeito dos meus motivos - e como um bônus, te trariam alguma paz. Agora eu sei, tais palavras não existem, e ainda assim estou te escrevendo, e por um único motivo, somente: tenho algumas coisas a dizer.

Sim, eu te amo. Ainda, e muito, e sempre. Um amor como esse que eu sinto não é coisa passageira, e não seriam as dificuldades do cotidiano que teriam a capacidade de arrefecê-lo. Encontro-me no maior dos dilemas, porque construí minhas hipóteses sobre uma premissa simples, elementar até. E, infelizmente, tão frágil quanto simples. Entenda, meu doce anjo: eu imaginei que o tempo poderia fazê-la me amar como eu a amo. E sei que me diria, se estivesse aqui, o quão ingênuo eu fui, e quão arriscado é basear toda uma argumentação sobre as vontades de outro. Não estou me queixando. Pudesse, faria tudo de novo. O amor pode até não ser cego, mas é louco, e essa falha é um tanto pior que a primeira, não acha?

Se houve os momentos em que quase acreditei que de fato havia conseguido o meu intento, em outros, como no dia de nossa última discussão, todas as minhas ilusões perdiam o colorido e caíam por terra. Como é triste amar sozinho... A tua indiferença, o teu desinteresse por qualquer coisa que me diga respeito é tão eloquente que me deixou surdo e mudo - e me fez voltar a enxergar com clareza. Hoje, quase um mês depois daquele dia, posso novamente usar a minha voz para dar-te uma satisfação que não pediste, e sinto que nem te interessa. Mas não posso negar a mim mesmo.

Não te preocupes com nada, cuidei para que nunca mais tivesses que me encontrar. Tudo o que está no apartamento é teu, disponha como entender. Eu jamais poderia pedir-lhe nada, uma vez que nem o essencial te pedi. Podes vendê-lo, doar todas as minhas coisas para alguma caridade, não importa. Se nem toda a minha atenção, toda a minha disponibilidade, o meu afeto, meus elogios e declarações de amor foram capazes de te sensibilizar, não te apegues a uns poucos cacarecos. Não estarei mais ao teu lado, é certo - meu coração segue te amando, por mais algum tempo ainda - mas nem toda a distância do mundo pode me fazer te esquecer. Não preserve nem mesmo minha coleção de mangás ou o velho Atari. Deixei para trás esses velhos apegos quando me lancei nesta aventura desconhecida rumo ao teu coração. E me perdi.

Perdoe-me por tanto amor. Ele é a única explicação que existe. Tenho certeza que alguém tão articulada pode encontrar respostas diferentes, muito melhores que estas que te dou aqui. Mas isso é só uma carta, podes desfazer-se dela de tantas maneiras... Incinere, jogue no lixo, passe pela picotadora, recicle, use-a para acender a lareira da casa de Itatiaia. Pouco importa. Embora conte a verdade, é só a minha verdade, querida. Sinta-se livre para compôr a tua.

Recebi um convite para ir a Londres pelo aniversário de Otaviano. De lá, parto em busca de novos horizontes. Mesmo amando demais essa terra, há um laço misterioso que me ata ao Velho Continente. Estreitarei esta ligação o quanto puder, buscarei outras histórias para viver, e eventualmente esquecerei de ti. Provavelmente estarei decrépito demais para voltar para casa, esquecido demais para saber sequer onde ela fica.

Espero que leias tudo, até aqui. E desejo-te toda a felicidade que desejei para nós dois.

Com todo o meu amor,

Cristiano.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Agosto

O mês de agosto o trouxe de volta. E dizem que agosto é mês de desgosto...

Seu gosto, seu cheiro, sua carne firme, a pele quente, a pegada firme: tudo nele combina comigo, pelo contraste perfeito, pelo encontro das vontades, pela força do desejo.

Os anos podem se passar, tudo muda, tudo se transforma, e ele sempre vai e volta, sempre igual, sempre diferente. O coração na boca, o gozo rápido e delicioso, as pernas trêmulas, as marcas de seus dedos na minha pele, vermelhas. Logo isso passa, mas ele fica.

Somos os mesmos, mas diferentes: cabelos brancos, marcas em torno dos olhos, mais mansos, e ainda cheios de força e coragem. Somos diferentes, mas ainda os mesmos: no fundo, dentro do espelho, ainda temos 18 e a vida pela frente.

E aqui, no mundo real, eu me deito sobre lençóis amarrotados e me deixo ficar nua enquanto ele se veste. Eu sei que ele vai embora. Há alguém que o espera, que ele não é meu de direito. E é meu, de fato. E vai dormir nos braços de sua mulher hoje. Mas ele volta.

Ele voltou para mim neste mês de agosto. E é só isso que importa.

É o inverno mais quente da história.

sábado, 25 de junho de 2011

Cotidiano

Levantou-se resoluta. Bateu os pés no chão frio e despertou completamente. Abriu as cortinas para deixar a luz do Sol entrar no quarto diminuto daquele hotel barato onde estava morando. Não havia muito para olhar naquele lugar. Correu para o banheiro quando sentiu a urgência do chamado da natureza. Abriu o chuveiro e molhou-se rapidamente. Fechou o chuveiro. Ensaboou-se. Enxaguou-se. Enxugou-se. Vestiu-se. Saiu.

Tudo tão automático, tão simples, tão banal. Era como ela via sua vida inteira. Talvez por isso fosse tão displicente. Todas as atividades de seu dia, repetidas à exaustão, como um mantra às avessas, que não lhe trazia nem paz, nem revelação. Mesmo assim era uma benção não ter que pensar para nada. A mente vazia de reflexões, preocupações, dúvidas ou dilemas. Ah, a benção do esquecimento...

Encostou no balcão da padaria e pediu o de sempre. Comeu seu pão na chapa, bebeu a média quente um pouco rápido demais e queimou a língua. Mais um motivo para manter o silêncio. Entrou no ônibus lotado e encolheu-se num cantinho. Deslizou para um cochilo quase instantâneo. Acordou quando chegou no ponto final.

Trinta e cinco camisas sociais, dezoito calças, cinco vestidos de festa. Destes não gostava, absolutamente - e por isso começou por eles. Cuidadosa, atenta aos detalhes, esticava com vapor cada pequena dobra do tecido fino, preservando cada miçanga, cada paetê, cada bordado. Quando sua mente começava a se encher de devaneios, como quem teria usado aquele vestido, ou o que tinha acontecido quando foi usado, ela se concentrava e contava as miçangas. E a mente ficava vazia, e ela voltava a seu estado de perfeita alienação.

Adorava roupas masculinas, e as achava simples e sem imaginação. Por mais de três vezes havia pedido ao supervisor que lhe desse somente roupas de homem. Ah, os ternos, as camisas, os coletes! Todos diferentes, e completamente iguais. Seria mais fácil trabalhar sem que os devaneios invadissem sua mente e a povoassem com idéias de uma vida outra, fora de seu alcance, se não houvesse em sua estação de trabalho vestidos como aqueles para passar.

Ao fim do dia, ônibus lotado novamente, a necessidade de resistir ao sono para não perder o ponto, ela fazia palavras cruzadas. "Aquele que fala muito"com nove letras... Eloquente! "Washington Luís, presidente" - WL. "Mentir, em inglês" - Lie. Desceu do ônibus em frente à padaria, pediu um pedaço de empadão de frango e uma coca-cola e subiu a rua, de volta para onde seu dia começara. Abriu a porta do quarto, depois de achar as chaves dentro da bolsa - não sem alguma dificuldade. Entrou e deixou a comida sobre a mesinha sob a janela. Colocou a coca-cola dentro do frigobar. Largou-se na cama e ligou a TV. Gostava de assistir novelas sem ouvir os diálogos, e era como se a sucessão de imagens tivesse um efeito hipnótico sobre ela. As pálpebras pesavam, e ela mergulhava num sono profundo - para acordar somente no dia seguinte.

Não se lembrava de um dia diferente. Nem queria lembrar. Havia encontrado a paz. E aquilo a que chamam de felicidade...


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Mergulho

Era dia de lavar roupas, e já o perfume do sabão em pó lhe adentrava as narinas, mesmo antes de os seus pés tocarem o assoalho frio do pátio. Essa incumbência, embora dolorosa no inverno, era sua preferida no verão. O Sol por detrás das poucas nuvens já mostrava sua força e ela não quis perder mais nem um segundo. Desceu as escadas com o cesto de roupas sujas até o tanque antigo e profundo, e debruçou-se para tampar o ralo. Abrindo a torneira, inclinou-se para frente e permitiu-se o luxo de molhar os cabelos antes do trabalho. A água fria descia por seus longos fios anelados ao mesmo tempo que um filete teimoso encontrava o caminho contrário, escorrendo por sua nuca e descendo pelas costas. Arrepiada, pensou se havia melhor maneira de começar um dia quente como aquele. E não encontrou resposta.

Sorriu e levantou o corpo jogando a cabeça e os cabelos molhados para trás, displicente. Pegou as roupas no cesto e foi mergulhando uma a uma na água represada no tanque. Com a barra de sabão nas mãos, esfregou golas, colarinhos e punhos das camisas sociais do marido, barras das calças jeans e meias encardidas ficando alvas novamente. Era um trabalho braçal e miraculoso, e a força de seus braços ia transformando toda a sujeira em passado, deixando na água do primeiro enxague todas as impurezas, lavando todos os traços dos acontecimentos dos dias anteriores. As roupas limpas seriam o palco de novos eventos, e ficariam mais ou menos marcadas por eles conforme o dia e suas atribuições. E era reconfortante pensar que, ao menos para roupas, havia sim, redenção.

A sujeira grossa removida, agora as roupas brancas eram dispostas em bacias de alumínio brilhante, e iriam passar suas horas ao Sol, para clarear. As outras, coloridas, só ficariam um pouco mais de molho no sabão em pó - só para garantir a remoção de uma ou outra mancha renitente. Enquanto as roupas brancas quaravam ela se estirava também sob o Sol, lagarteando preguiçosamente. Dizia sua mãe que era para fortalecer os ossos e espantar o mofo. Ela não saberia jamais porque esse hábito ficara nela, junto com as palavras de sua mãe. Ela ainda via a mulher lavando roupa naquele mesmo tanque, enquanto ela menina corria atrás dos irmãos, jogando água em todos eles. Era talvez para lembrar-se dela que se deitava ali no pátio, sob o Sol.

Então passaram-se as horas, e o calor no pátio era abafado, como se ela estivesse num forno, dentro de um tabuleiro, assando. Levantou-se e começou a enxaguar tudo: primeiro as roupas coloridas, depois as brancas, e de repente havia uma pilha de roupas limpas no cesto que as trouxera sujas até ali. Torcidas e esticadas no varal, agora a faziam lembrar das festas de junho, das crianças dançando quadrilhas e da fogueira que se fazia ali. Outra lembrança no fundo da mente se agitava, uma lembrança mais íntima - e essa ela preferia abafar. Aquela tarde pretérita, recolhendo as roupas com o primo, as mãos se tocando, o calor que percorria seu corpo...

Ela mergulhou no tanque, sem perder sequer um segundo em devaneios. A água do último enxague, ainda fria, a despertou daquela recordação com um choque agradável por todo corpo. Era melhor deixar o passado ficar no passado...

sábado, 12 de fevereiro de 2011

A herança de Dona Saudade

Um dia como qualquer outro era uma boa definição. Aquele era um dia como qualquer outro. Ela estava sentada num banco de praça, as crianças brincando felizes nos balaços e escorregas, o caçula revolvendo a areia da caixa ferozmente, como quem caça tesouros, o do meio emburrado, sentado do lado oposto da praça, sob o Sol escaldante, braços cruzados sobre o peito, aquela expressão de infelicidade em seu rosto e os olhos transbordando pingos grossos de chuva. O mais velho se gabando para os amigos de suas façanhas acrobáticas nos brinquedos do parquinho.

Poucas mães como ela ali àquela hora da manhã, a maioria babás acompanhando as crianças de suas patroas. Num dia comum de semana, as mulheres de sua idade já estavam em seus trabalhos, talvez tomando a décima decisão do dia junto da terceira xícara de capuccino. Ela achava tudo engraçado e distante, como se estivesse assistindo aquela sucessão de cenas da escotilha de um ônibus espacial, mas sabia que era ao mesmo tempo parte da paisagem que apreciava calada. Levantou-se a caminhou devagar em direção ao do meio, sem distrair-se do caçula, que gargalhava no tanque de areia, espalhando brinquedos e terra molhada com seus movimentos desconexos. Ela olhava para o pequeno e sorria, enquanto seus passos a aproximavam no reflexo de si mesma sentado ali, sob o Sol da manhã, os olhos marejados observando sua aproximação.

Dos três filhos, ele foi o único que herdou sua melancolia, sua tendência para o drama, sua sensibilidade extrema. Ela preferia que nenhum deles fosse frágil como ela, que nenhum de seus filhos precisasse passar pela vida carregando o peso do mundo nas costas. Mas de algumas coisas não se pode fugir. Era ele o seu espelho, o filho com que mais se identificava - e ela o amava e lamentava por ele na mesma medida.

Pelo menos sempre saberia como lidar com aquilo. Sabia que não havia palavras de consolo suficientemente boas em situações como aquela. E sabia que morreria por um abraço silencioso. Sentou-se ao seu lado, estendeu seus braços em sua direção e permitiu que ele se aconchegasse em seu regaço, a cabeça virada para o lado direito, evitando seus olhos e posicionando a orelha sobre seu coração. Cada batimento cardíaco era um mantra de aceitação e amor. Era só do que ele precisava.

E ela sabia.

No futuro, quando se lembrasse dela, seus olhos interiores a veriam como a única pessoa no mundo capaz de entendê-lo completamente. A única que saberia ouvir suas conversas e histórias com total aceitação, sem nenhum traço perceptível de paternalismo ou afetação. Seus irmãos pensavam que conheciam a mãe. Ele sabia que ambos estavam errados. Ela era somente dele, sua totalidade em cada gesto banal do cotidiano transbordando um amor irretocável, seu perfume indelével e as cores da sua aura. Ninguém jamais soubera a sua mãe como ele.

E ela também sabia.


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Feedback negativo

Ouví-lo respirar causava-lhe certo desconforto. Era como se de repente algo de sujo e imperfeito tivesse penetrado na sua pequena redoma de vidro temperado, e ela não podia tolerá-lo por muito tempo. Nem sempre fora assim.

Houve uma época que o som de sua respiração era o parâmetro de sua existência. Mas alguma coisa estava faltando, e por todos os deuses ela nem saberia dizer o que era! Algo nele tornara-se exasperante e imperfeito, e onde antes só havia alguém como ela agora havia um impostor. Talvez fosse isso. Talvez nem fosse ele, mas um dublê de corpo, uma réplica moldada à sua imagem, para confundí-la e ameaçá-la.

Se algum dia a sensação de incômodo a deixasse... Ah, ela seguiria em frente, como uma mulher adulta, cabeça erguida, nada para trás. Mas a verdade gritando em seus ouvidos era ensurdecedora e cruel. Aquilo, aquele mal estar, nunca acabaria. E a cada dia ele se imporia, até que ela tomasse a decisão e fugisse dali.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Parênteses

Todas as semanas aquele quarto de hotel testemunhava impassível ao encontro dos amantes. E a cada semana eles se esmeravam mais no jogo do amor. Um completava o outro perfeitamente. Era como se lessem os pensamentos um do outro, e já não havia espaço que não tivessem explorado, como se não houvesse fim para aquele desejo que era mais poderoso que a vontade dos dois. Já havia 15 anos, e eles ainda se queriam como então, como quando eram jovens e livres. Só não eram mais: nem jovens, nem livres.

Ela era mãe de dois lindos meninos. Ele, pai de um rapaz. Cada um com sua vida real, com sua família - e dividindo a dinâmica do parêntese. Era assim que ela chamava aquela segunda à tarde, há mais de uma década: parêntese. Era como uma vida paralela, uma ornamentação que conferia um colorido todo especial às suas vidas reais. O grande dilema nunca havia atingido aos dois, enquanto seus corpos entrelaçados dançavam segundo o ritmo - ora cadenciado, ora frenético - das segundas-feiras.

E no entanto, tal como ela já pressentia, dia de muito é sempre véspera de pouco... E não havia porque a vida poupá-la do grande dilema. Ela era feliz em sua vida real, sentia-se parte de algo vivo e pulsante enquanto preparava refeições e conduzia filhos e marido para seus compromissos, enquanto gerenciava a casa e punha ordem em seu pequeno sistema planetário.

Ele não. Vivia uma relação onde sentia-se oprimido e negligenciado, como se fosse acessório e não protagonista de sua vida em família. Hoje, 15 anos depois, o filho criado, ele não via porque deveria continuar ali, atado a convenções em que nunca acreditou. Ela não entendia porque, depois de tantos anos, ele não poderia simplesmente permitir que as coisas entre eles continuassem como estavam, como sempre estiveram.

Ele insistia em dizer que aqueles parênteses não atrapalhavam a sua vida. Ela já não acreditava mais. Ela lhe dizia que nunca saberia olhar para ele como um amigo. A mesa do grande dilema posta à frente deles, e nenhum dos dois tinha a coragem de pegar nos talheres e iniciar o banquete.

Talvez ela precisasse ter força pelos dois, dali para frente. Mas não cruzaria os braços, esperando da vida a resolução daquele problema. A vida lhe daria o que ela queria, simplesmente porque era assim que ela queria!

Levantou-se. Beijou-lhe a boca como sempre. Como desde sempre. Deu-lhe as costas e saiu porta a fora. Como nunca. Como nunca mais. Diante dele, sobre seus braços cruzados sobre o peito, um bilhete:

(Serei sempre tua, mesmo que você nunca mais me procure. Mesmo que esse quarto de hotel nunca mais testemunhe o nosso amor. Mesmo que você me diga que parênteses não são necessários: quem escreve a história da minha vida sou eu, e eu adoro parênteses...)


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Permanência (final)

Ela respirou fundo. Não podia ignorar tudo o que eles tinham vivido naquele fim de semana. Por outro lado, não podia ignorar a dor física que sentia só de lembrar daquelas duas semanas, há dez anos atrás, quando o mundo parecia ter deixado de existir, quando nada fazia sentido, quando ela pensava que talvez fosse melhor morrer a voltar à escola e vê-lo novamente. Ela não podia entrar naquele carro, sentar-se ao lado dele e simplesmente agir como se nada tivesse acontecido. Estava claro que aquele era o momento do tudo ou nada, e que ela teria que resolver se podia ou não lidar com todos aqueles sentimentos reprimidos por toda uma vida.

Ele estava apavorado, da mesma forma que estivera naquela ocasião, quando ela desapareceu e cortou toda e qualquer oportunidade de contato. Ele não tinha chão sem ela por perto, o chão podia se abrir e tragá-lo e ele nem se importaria - tudo o que ele queria era poder olhar em seus olhos e dizer-lhe a verdade, toda a verdade: que ele fora um fraco, que não tinha sido digno da confiança dela, que entendia se ela nunca mais quisesse vê-lo - mas que a amava e não queria casar com Maria! Se ela tivesse ouvido, se tivesse sido capaz de enfrentá-lo! Se ela tivesse explodido em impropérios, se tivesse gritado e cuspido nele, se ela ao menos tivesse reagido! No fim das contas, ele sabia que aquela ausência era a reação mais grave. Ele imaginava o quanto ela estava sofrendo por causa daquela maldita transa inconseqüente sem camisinha! Se ele pudesse ao menos se explicar... Mas sabia que nenhuma explicação era explicação suficiente.

As escolhas que fizeram tinham trazido os dois até ali. Tinham estado juntos por todo o fim de semana, conversado sobre tudo - e tinham evitado o único assunto que não podia ser calado. Estavam pagando caro demais pela ingenuidade que escolheram abraçar durante aquelas horas doces de idílio. Naquele momento, tudo o que Rachel queria era fugir dali. Tudo o que Luís queria era dissuadí-la. Ele sabia que talvez a tivesse perdido para sempre, depois da chegada de Maria.

Ao invés de ficar ali, esperando que as coisas se resolvessem, Rachel resolveu ir se despedir dos amigos. Helena e Renata estavam muito preocupadas. Perguntaram se ela não queria ficar, e afirmaram que dariam um jeito para que ela voltasse com uma das duas. Ela apenas agradeceu, tentando parecer normal - mesmo ali, no olho do furacão. Suas amigas a conheciam muito bem, e sabiam que ela estava bem triste, mas não podiam pressioná-la. Rachel sentiu-se acolhida, e disse isso a elas. Mas tinha que ir, tinha que fechar aquela história. Todos estavam se divertindo tanto que a ausência deles não seria percebida - afinal, tinham estado lá, mas era como se não estivessem. Dali voltou ao quarto, verificou se havia deixado algo para trás e fechou aquela porta pela última vez. Nunca mais voltaria àquele lugar. Apesar de todas as lembranças felizes que ele evocava, não podia ignorar que fora durante a viagem de formatura que Luís e Maria conceberam seu filho, e que tudo havia desmoronado a partir daquele ponto. Desceu até a recepção para fechar a conta - e encontrou Luís à sua espera.

- Você vai comigo? - Havia um tom de súplica em sua voz, e ela sentiu raiva de verdade.
- Vou, se você parar de se fazer de vítima.
- Tudo bem. Eu só quero que você entenda que eu realmente não imaginava que ela viesse até aqui.
- Ela adora uma baixaria, Luís. Eu já devia imaginar. Mas baixei a guarda, e foi nisso que deu. Eu só quero deixar bem claro que vou me manter distante. Não quero fazer nada de que me arrependa, mas se você puder facilitar a minha vida, diga a ela que não mexa comigo, por favor. Eu calei por dez anos. Nem mais um minuto, ok?
- Ok, Chel. Combinado.
- Então vamos fechar a conta e sair daqui logo.
- Já resolvi tudo, não se preocupe.

Ela não encontrou forças para retrucar e exigir que dividissem a conta. Só concordou e acompanhou Luís até o carro, onde ele já tinha colocado as suas malas, sem dizer mais nada. Maria tinha ido na frente, e ele se comprometera a chegar ao velório para a cerimônia do adeus. Eles viajaram sem trocar palavra - ela absorta em seus pensamentos, ele apreensivo, ambos infelizes. O que quer que acontecesse, ambos sabiam que nada mais seria como antes. Encontraram o Marquinhos na entrada da capela. Era um menino lindo, e ela se viu diante de um Luís de 10 anos. O menino correu até o pai e o abraçou.

- Você é a Rachel? - perguntou a queima roupa, sem soltar o pai.
- Sim.
- A mamãe disse que você era uma baranga. Não é verdade. - Rachel se limitou a sorrir. Ele continuou:
- A mamãe disse que o papai deixou a gente por sua causa. É verdade?
- Acho que só seu pai pode responder isso, querido. Eu só posso dizer que nunca imaginei que fosse vê-lo de novo até esse fim de semana.
- A minha mãe fala muitas coisas de você...
- Tenho certeza que ela nunca te contou a história inteira. Mas não é hora para essa conversa, meu bem. Acho que sua mãe e toda a família estão esperando por você e seu pai, e a cerimônia já deve estar começando, não é mesmo?
- Você vai entrar com a gente?
- É isso que você quer?
- É. É sim.
- Tudo bem, então.

Entraram na capela em silêncio, ela se manteve sempre um passo atrás dos dois. A família inteira ali, olhando para ela sem entender nada, ela ali sem saber direito por que. A cerimônia transcorreu tranqüilamente e terminou bem rápido. Rachel acabou relaxando. Ela devia saber que nunca podia baixar a guarda na presença da Maria.

- Será que eu vou ser mesmo obrigada a tolerar a tua puta aqui hoje, Luís?

Rachel sentiu que ia desmaiar, mas ao invés disso uma fúria absoluta cresceu dentro de seu peito, e, sem saber exatamente como, começou a falar diretamente para Maria, baixo e lentamente:

- Puta, né? Engraçado isso... Daqui de onde eu estou olhando eu só vejo uma puta. A puta que deu para o meu namorado e engravidou dele para forçar um casamento! Você por acaso conhece essa puta, Maria? Pois é, foi essa puta que me humilhou diante de toda a escola, num pátio lotado, na hora do recreio! Foi essa puta que riu da minha cara todos esses anos. E sabe para quê? Para perder o marido justamente para a minha lembrança! Quer saber do que mais? Você é uma puta bem patética e incompetente... Como é que esse homem nunca me esqueceu, hein? Como é que você não conseguiu me tirar da cabeça dele, nem com filho, nem com família!? Isso, minha cara, é o que você devia estar se perguntando, ao invés de vir até aqui me afrontar durante a despedida do teu próprio pai! Eu só estou aqui porque o teu ex-marido me disse não conseguiria passar por isso sem mim, e porque o teu filho me pediu para entrar. Mas é claro que isso nunca ia te passar pela cabeça! Me faz um favor, Maria: nunca mais se aproxime de mim, ouviu? Nunca mais sequer me dirija a palavra! Se há uma coisa de que eu me arrependo é de não ter te feito engolir os dentes... Então não me faça perder a paciência, ok? Não brinque com fogo.

Ela engoliu em seco e deu as costas a uma Maria atônita. Olhou para o menino e disse:

- Desculpe, Marcos. Eu realmente poderia ter me contido, mas eu não quis fazer isso.
- Eu não tenho nada com isso, né?
- Não. Não mesmo. - eles sorriram e se entenderam. Ela continuou:
- Você é um rapazinho muito bacana. Gostei de conhecer você, viu? De verdade.
- Eu também. Você e meu pai vão morar juntos agora?
- Isso a gente ainda não resolveu. Mas eu acho que não tem mais clima para eu ficar aqui, né?
- É. Eu acho que você está certa. O meu pai pode ficar?
- Isso é com ele, ok? Eu vou ficar lá fora, porque as minhas coisas estão no carro dele, mas ele pode ficar, eu não tenho pressa.

O menino a puxou para baixo e deu-lhe um beijo no rosto, agradecido. Ela sorriu e devolveu o beijo. Levantou-se e olhou Luís nos olhos:

- O filho de vocês é maravilhoso, Luís.
- É verdade. E você, me espera?
- Sim. Estarei no carro, ok?
- Claro. Fica com as chaves.

Ela abraçou Luís, e ele se surpreendeu - mas era uma surpresa boa, um alívio depois da tensão dos últimos minutos. Ele não sabia de onde vinha a força dela, mas estava agradecido por aquele gesto. Profundamente agradecido. Ela deixou a sala e foi sentar-se no carro. Tinha ainda alguns minutos antes de poder estar sozinha com ele. Mas não tinha mais dúvidas. Ela tinha tentado fugir, tinha se afastado de todos os amigos comuns, tinha construído novos relacionamentos e até se casado, quando encontrou alguém que a amava, estimulava e fazia feliz. Nunca foi capaz de esquecê-lo, o passado sempre estivera presente, e ela sabia daquilo agora, depois daquele fim de semana com ele. Os anos que passaram separados tinham afastado as vidas, não as pessoas, e eles estavam ligados novamente. Ela sabia das fraquezas dele como homem, mas não podia negar que ele a amasse. De sua parte, nunca havia negado o amor. Tinha calado, isso sim - mas foi a maneira que encontrou para continuar vivendo. Não havia motivos para continuar calada.

Tinham pela frente uma conversa dura, algum tempo para aparar arestas, e um relacionamento para construir. Não seria fácil. Mas talvez fosse a única possibilidade que restava. Ela reclinou o banco do carona, onde tinha escolhido se sentar, e acabou cochilando.

Acordou sobressaltava, com Luís batendo de leve no vidro dianteiro.

- Olá, dorminhoca.
- Oi, meu amor. E aí, correu tudo bem?
- É, dentro do possível... Abre a porta para mim? - Ela puxou a trava imediatamente, e ele sentou-se atrás do volante.
- A gente precisa conversar.
- Com certeza, Lu.
- Chel, o Marcos vai comigo para casa hoje, e talvez tenha que ficar uma semana direto, por causa do inventário e tudo mais. A gente pode esperar mais esse tempo até resolver quem vai morar com quem?
- Opa, muita calma nessa hora, Luís! Você está se antecipando demais, não acha?
- Mas eu pensei... Você veio comigo, disse aquilo tudo para a Maria na maior elegância, foi super doce com o meu filho... Eu fiquei confuso agora.
- Meu amor, não confunda as coisas: é uma coisa a gente ficar juntos, outra a gente ir morar juntos. Acho que precisamos de mais um período de adaptação.
- Mas por que, querida? Eu preciso de você do meu lado. Eu sei o que eu quero há dez anos - acho que há mais tempo, até.
- Luís, isso é precipitado! Você tem que pensar no Marcos, precisa dar segurança a ele. E a mim.
- O que ainda falta para você se sentir segura, Rachel?
- Você precisa ser forte para mim, Luís. Eu sei que para você, ter me trazido aqui foi o supra sumo da força, mas na verdade você não se sentiu forte para estar aqui sozinho - e me pediu ajuda. Eu vim, como estive no teu casamento: como uma muleta. Mas eu também preciso de segurança. Eu preciso ter certeza de que você não vai vacilar mais, que isso aqui é o que você quer, que não vai haver outros deslizes.
- Ah, Chel... Eu não sei o que dizer. Eu entendo a tua posição, mas você não está enxergando a coisa pelo meu ponto de vista! Eu estou me expondo aqui com você! Eu coloquei meu coração na janela! Todo mundo sabe que eu te quero. E ninguém duvida que isso é recíproco. Nem eu. Mas você ainda precisa do cavaleiro de armadura...
- Eu acho que a gente não vai avançar muito assim, a gente só se defendendo. Mas o Marcos não pode esperar. Você me leva para casa?
- Claro. Vou pegá-lo e a gente vai. Você janta conosco?
- Pode ser. E depois vocês me levam para casa.
- Tá bom, tá bom... Sem golpe, juro.

Eles riram e saíram juntos do carro para buscar o menino. Ele era uma criança adorável, e Rachel estava achando que aquilo parecia bom demais... Ele veio até o pai sem protestos, depois de se despedir de todos. A mãe já tinha preparado uma mala com as coisas dele, e não seria necessário ir até a casa da Maria e estar na presença dela nem mais um minuto - o que ela viu como uma benção. Luís se despediu da ex-mulher cordialmente e pegou o filho pela mão. O menino estendeu a outra mão para ela. Ela deu-lhe a sua mão e seguiram, os três, para o carro.

Luís assistia em silêncio, enquanto seu filho conversava com ela as maiores amenidades, como se a conhecesse há muito tempo e fossem íntimos. Por um minuto parecia que a vida dele tinha sido aquela desde sempre, e que eles eram uma família de verdade. Era como estar no cinema, assistindo a uma comédia romântica com final feliz. E talvez fosse isso mesmo, talvez finalmente eles pudessem ter um final feliz. Eles entraram no carro e resolveram ir primeiro ao apart onde Luís estava morando, para deixar as coisas de Marcos e mostrar a casa à Rachel. Depois iriam ao apartamento dela, e combinaram de ajudá-la a preparar um espaguete ao molho inventado - com o que eles pudessem encontrar no armário de mantimentos.

E deixaram de fazer planos ali. O futuro era um mistério que precisavam desvendar, sim. E tinham tudo de que precisavam para fazê-lo. Tinham um ao outro. E tinham todo o tempo do mundo...


(The end)

As regras do rolê

As regras do rolê são bastantes simples: Fode, mas não se apaixona. Se apaixonar, não fode mais, pra não se foder depois. Tudo o que te ...