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terça-feira, 30 de abril de 2013

Dead marshes

Venha conhecer de perto o pântano profundo e malcheiroso das emoções humanas.

Pegajoso, frio, fétido. E talvez você se sinta a vontade aqui - ele é colorido com a mesma paleta pastel e insípida de tintas com que você escolheu pintar a tua vida.

(Como você deve sentir saudades do tempo em que eu coloria a tua vida com os tons brilhantes e luminosos dos crayons e hidrocores que carrego comigo, na minha bolsinha tiracolo...)


terça-feira, 14 de agosto de 2012

Incompatibilidade de casas

A questão sempre foi essa, e foi o que me escapou até agora.

Sabe o que é, gatinho? Eu sou Grifinória desde pequenininha, você é Sonserina até o fim.


quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Reverie

Essa noite sonhei com ele. Foi um daqueles sonhos dos quais você não se lembra direito quando acorda - provavelmente porque aconteceu muita coisa ao mesmo tempo, ou porque foi insólito, ou porque estava tão encantada com a presença dele que não prestou atenção do resto.

Quando acordei perdi o sonho completamente. Mas a sensação de sua companhia ficou comigo a manhã inteira.

Penso nele quando acordo. Penso antes de dormir. Agora, o pensamento nele não me dá descanso - nem enquanto durmo, durante as horas entre o poente e a aurora, quando meus olhos se fecham para o mundo. Agora ele povoou meu imaginário, construiu seu puxadinho na Terra do Nunca - que é prá onde eu fujo quando estou com Morfeu. Agora ele é meu vizinho lá também.

Pena que ele é tão inconveniente nos sonhos, e tão distante na vida real...

(Esse é um continho que já estava sentado no banco que o Blogger chama de rascunho há tempos. Dei uma ajeitadinha e cá está, para vocês não dizerem que fiquei preguiçosa... ;)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Flores e morte

O Flamboyant vermelho me sorri. Ele ousa me dizer coisas que eu finjo desconhecer - só para que ele continue me contando. Há luzes e cores onde deveria haver somente morte. Ele prevalece onde eu me encolho.

À sua sombra.

sábado, 13 de novembro de 2010

Mulher Gato

Às vezes a vida lhe pregava peças, e ela ficava dividida entre caminhar na linha e deixar-se levar.

Ela sempre fazia suas escolhas por ocasião de seu aniversário. E a data se aproximava rapidamente... Dessa vez a decisão era bem simples, mas por algum motivo ainda era difícil para ela a transição entre o que era certo e o que era fácil. Dessa vez, o fácil era o certo. Difícil era decidir o que a outra opção representava. Se não era mais uma questão de saber discernir entre o fácil e o certo, como ela poderia usar sua bússola dali por diante?

De repente era o dia, e a escolha urgia, e ela fez o que precisava fazer. Doeu sim, foi como cortar a própria carne, mas ela sabia que ficaria bem. Mesmo perdendo muito sangue, mesmo que lhe custasse uma de suas cinco vidas. Ah, é claro que ela já fizera a escolha antes... Duas outras vezes. E ainda tinha outras cinco oportunidades de acertar pela frente - antes de arriscar sua vida definitivamente. O que a surpreendia era ter se enganado tanto. Daquela vez ela sentira ter tocado a perfeição com as pontas dos dedos... A menina dentro dela parecia ter encontrado o garoto ideal.

Daquela vez não se deixaria levar. Tomaria as rédeas de sua vida novamente. Deixar-se levar pela vida era coisa de quem não tinha aprendido a se responsabilizar pelas próprias escolhas.

E isso ela já sabia fazer. Tinha aprendido isso há pelo menos duas vidas atrás...

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Estranhamento

Essa mulher que me olha do espelho - eu não a conheço. Ela é muito mais velha que eu, tem olhos profundos e linhas que contam uma história em torno deles. Tem cabelos brancos em profusão brotando-lhe do topo da cabeça, crescendo em comprimento enquanto sua idade avança.

Essa mulher que me olha do espelho - eu a estranho. Ela me olha com doçura do fundo dos olhos, e vejo nela a labareda que incendeia o meu interior. Essa mulher doce é água, mas há dentro dela fogo. Ela carrega o fogo na alma e no ventre, e sua fala suave transparece conteúdos que me são familiares - e tanto me incomodam quanto atraem.

Essa mulher que me olha do espelho - eu a acolho. Ela cuida de mim como eu cuido dela. Há amor em cada passo que ela dá, na maneira apaixonada como se entrega à vida, na forma desprotegida como oferece seu coração. Ela entra na arena, e os leões avançam. E ela espera, sem mover-se um milímetro. Ela sabe que podem dilacerar-lhe a carne, até o coração - mas não podem extinguir sua luz.

Essa mulher que me olha do espelho - eu a amo. Eu sou ela. E ela sou eu.


terça-feira, 26 de outubro de 2010

Devoção

E me lanço ao mundo, como o pescador lança a rede ao mar. Eu me jogo, eu me entrego, eu enfio a colher no meio do prato de mingau, sem medo de me queimar. O que vier na rede é meu, e eu o recebo feliz e agradecida. Lanço as redes com esperança renovada, todos os dias - nunca se sabe o que o mar pode trazer - e é este o exercício último de devoção do pescador pelo mar.

Assim eu amo, assim me ofereço, assim sou a encarnação da devota e da deusa ao mesmo tempo: sou Afrodite e sou Hera, sou Diana e Atena. E sou a sacerdotiza em seus templos, serviçal e solene.


quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Queixa

Você roubou a minha caixa de crayons coloridos, minhas canetinhas e meus lápis de cor.

Sorte sua eu não ser egoísta. Mas você podia ter simplesmente pedido...

(Enquanto isso uso as cores do meu arco-íris pessoal para colorir a minha vida.)


domingo, 10 de outubro de 2010

Nojo

Quando eu finalmente te matar dentro de mim eu reapareço, cretino. É, é você mesmo, seu mentiroso.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Bad morning

Quando eu cheguei ela já estava lá: sentada, de costas para a porta, a cabeça levemente tombada para o lado esquerdo - como ela faz quando está tentando se concentrar em alguma coisa. E aquela mancha roxa ali atrás, na curva do pescoço, do lado direito!

Precisei sair e me recompor antes de entrar novamente e dar bom dia a todos. Precisei respirar fundo e sacudir a cabeça vigorosamente - mas a marca em seu pescoço era o mais perturbador dos vestígios de sua vida pessoal que ela podia trazer para o trabalho.

Ela tinha alguém. E esse cara devia ser louco por ela para marcá-la daquela maneira...

(Quem não seria louco por ela?)


domingo, 19 de setembro de 2010

Terapia de choque

"Essa é a sua vida agora."

Ele disse aquilo como um oráculo, não como um homem comum. Disse num abraço pós-coito, assim como uma banalidade. Ela lhe dizia que a vida estava entrando nos eixos, e de repente tudo ia por água abaixo novamente. E ele soltou essa frase, e ela entendeu tudo. Muito mais rápido, muito mais efetivo que trinta meses de terapia.

Sexo terapia. Custava só a conta do motel - e ela fazia questão de pagar: cash, no traces.

domingo, 22 de agosto de 2010

Fogo

Dentro de mim há fogo. Um novo filho - ou filha - que chegará regido pelo fogo. Virá o fogo ao seio da minha família, um lar de terra e água, um lar sólido e fértil. O que o fogo trará até aqui?

Meu filho é fogo. Ele vem queimar meus medos e resíduos inflamáveis.

Eu sou água. Existo para aparar-lhe as arestas, para conter-lhe a fúria. Para amá-lo e saber perdê-lo.

Há um caminho de purificação para mim, através do fogo. Para ele, através da água.

Eu estou fluindo e ele flui. Ele chegou para mim sob o signo da força. Daqui a sete luas saberei o que sentir. Hoje ele cresce, tira de mim o que é para si. Amanhã, aprenderei com ele as estradas que sempre temi trilhar.

O mistério mais que decifrado da embriologia humana se desenrola em meu ventre. No coração, o mistério indecifrável do amor indefinível se reafirma em minha história. Eu já sou mãe.

E serei.



terça-feira, 17 de agosto de 2010

Súbito

Ainda é você em meus sonhos, nos lençóis onde jamais se deitou - ainda é você.

Passaram os dias. Transformaram-se em meses. Anos, até. E obviamente ainda chove nesta cidade onde vivo, onde persisto. Mas nunca mais houve uma enchente como aquela, querido. E eu sou transportada ao passado toda vez que a noite cai às três da tarde...

Sim, a vida seguiu e segue, eu sou feliz e não posso imaginar que estar contigo pudesse ser melhor que isso. Mas a mente vaga, e eu não sou capaz de refrear o coração. Ponto. E você sabe disso, sempre soube ler minhas entrelinhas e preencher minhas lacunas. Não que nossa história tenha sido lacunar. Foi breve e intensa, irresistível e poderosa. E sei também - foi necessária.

Nossas estradas se enlaçaram por um intervalo mínimo de tempo, suficiente para chacoalhar as nossas vidas e nos devolver ao mundo dos vivos. E eu nunca chorei tantas lágrimas inúteis num travesseiro. Tinha que terminar como começou.

Subitamente.


Balança

Eu pude senti-lo, enquanto retirava seu peso de sobre nossa cama - senti que se retirava de mim - corpo e alma.


quinta-feira, 29 de julho de 2010

Dejà-vu

Tenho saudades. Penso e sofro. Insisto, ainda, por alguns quilômetros.

Ainda a espera, sempre a espera. Quantos dias, semanas, meses, até que se defina?

Teus contornos em minhas retinas.


(Lá, escancarado na tela, o vazio onde você estaria.)

terça-feira, 27 de julho de 2010

Novamente

Chuva. O som de seu leve tamborilar sobre as folhas das amendoeiras da rua onde eu moro.

Eu saí de casa e ela me pegou desprevenida, resolveu me saudar como há muito não fazia. Eu caminhando pelas ruas, ela suave, delicadamente tocando a minha pele e me dizendo que tudo está bem. Mansa, fria, fresca. Amiga. Como sempre.

Eu e a chuva passeando juntas no lusco-fusco da tarde. O Sol se pondo sobre mim, sobre o mundo. E a chuva lavando o que ficou de mim aqui.


quinta-feira, 1 de julho de 2010

Epifania

É nesse momento, sentada atrás do volante do meu carro, que eu encontro as respostas aos porquês que martelam o fundo da minha cabeça. Uma pequena luz, poderosa e incandescente, se acende e ilumina tudo. Assim, de repente.

É quando olho para o lado e te vejo falando e sorrindo, transbordando a tua perfeição habitual - eu entendo porque sim, eu entendo porque não. E porque sempre.

Ouví-lo falando de entrega, e de alguém singing their guts out. E de como te faz sentir esse dar de si a quem não faz questão. E sentir que estou do lado de fora da cerca do paraíso - olhando pela fresta. Unwanted, uninvited, unallowed.

Mas ainda posso olhar... E a beleza que transpira desses momentos breves ao teu lado vale cada dia desde que te disse não.

Porque só eu sei - e isso você nem desconfia: somos a mesma pessoa. E te amar não é uma opção para mim.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Paixão

Há que amar as palavras. Conhecer suas famílias, classes gramaticais, derivações. Cuidar de cada prefixação e sufixação com carinho, usar com delicadeza cada radical, vogal temática, desinência. Há que respeitar as regras de concordância, seja verbal ou nominal.

Há que amar as palavras.

Concurso cultural

Eu me lembro do perfume do café enchendo a casa no fim da tarde, a minha mãe passando o café enquanto minha avó se sentava à mesa da cozinha - os olhos fechados, sentindo o cheiro da bebida. Naqueles momentos íntimos de fim de tarde ela sempre contava alguma reminiscência do seu passado, como o dia em que conheceu meu avô, ou o gosto de um doce de leite que só a mãe dela sabia fazer.
Embora ela já tenha partido há 23 anos, essas lembranças às vezes parecem mais reais que a própria vida...


terça-feira, 11 de maio de 2010

Adivinhação

É o cheiro do hálito dele - menta extra-forte ou pastilha de hortelã - que me tenta, acima de todas as coisas.

Mais que aquele sorriso brilhante como o Sol de manhãzinha. Mais que os olhos escuros que me assombram quando olham a minha alma como se ela estivesse na superfície da pele. Mais que a forma terna como me toma nos braços - se estendo os meus para ele, em saudação. Mais do que o não sei quê ele tem que me atiça e aguça.

É seu hálito quente e perfumado - que pede o beijo que me recuso a dar.

As regras do rolê

As regras do rolê são bastantes simples: Fode, mas não se apaixona. Se apaixonar, não fode mais, pra não se foder depois. Tudo o que te ...