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sábado, 4 de maio de 2013

Minúcias (parte 3)

Na semana seguinte ela chegou um pouco depois do horário marcado. Vinha afobada, ainda vestia a roupa de ginástica. Entrou, recebeu o indisfarçável escrutínio da secretaria de Inácio, e alguns instantes depois deixou-se cair sobre o divã de couro branco.

- Nossa, que correria! Desculpe-me o atraso.
- Tudo bem.
- Não, Inácio, não está tudo bem. Eu concordei em estar aqui, eu deveria ter avisado que me atrasaria. Mas me distraí, e quando dei por mim, já era a hora e eu estava a três quarteirões daqui.
- Veio da academia?
- Pilates. Detesto fazer exercícios, mas por algum motivo estranho adoro Pilates.
- Bom para você, exercitar-se.
- É... - Ela foi evasiva. Precisava deixar aquela conversinha de lado e fazer o que tinha ido lá fazer: contar a ele a sua história. Ele pareceu ler seus pensamentos, e deu a deixa:
- Você quer que eu te lembre onde você parou?
- Ah, não, Inácio. Eu sei perfeitamente onde parei. Eu te contei sobre o Fernando. Hoje eu vim aqui te contar sobre o Antônio Carlos... Então ela respirou fundo e começou a falar:

- Eu conheci esse rapaz, o Antônio Carlos, quando trabalhava num escritório de representações comerciais no centro da cidade, gerente administrativa. Ele era um mensageiro, muito gostoso, alto, bonito, tinha consciência do efeito que causava e gostava de exercer esse seu poder sobre as mulheres. Comigo não foi diferente. Na época eu já era casada, tinha uns cinco anos, e ainda não tinha filhos. E ele sempre chegava sorridente, me perguntava como tinha sido o fim de semana, o que eu ia fazer no final do expediente... como a resposta era sempre a mesma - "eu vou prá casa, o meu marido e eu vamos jantar e ver um filme" - ele dizia que duvidava muito que eu fosse uma mulher caseira. Era um flerte casual, e ele não parecia ter uma agenda.

- O que você quer dizer com isso? Agenda?
- Ah! Existem homens que traçam um objetivo, do tipo: eu vou fazer isso, aí eu falo aquilo, e dependendo do que ela disser eu caio dentro! Esses tem agenda. O Toni não tinha agenda: era um oportunista. Ele ia esperar a ocasião favorável acontecer. E eu resolvi que ia fazer acontecer o mais rápido possível - eu estava morrendo de curiosidade!
Então, uma tarde, no horário do almoço, o escritório estava vazio, eu pedi que ele fosse até a minha sala antes de sair para almoçar, porque eu tinha uma correspondência urgente para ele entregar. Ele entendeu perfeitamente - os canalhas sempre entendem - e esperou que todos saíssem para ir até mim. Quando ele entrou na sala já estava claro como água o que ia acontecer. Ele disse alguma gracinha sobre o vestido que eu estava usando, eu perguntei se era problema para ele, ele retrucou que não, não mesmo. E se aproximou como um predador, e me atacou. Ele me beijou com força, e me tirou o fôlego, e a cada beijo era um pedaço do meu corpo que ele despia, e quando eu dei por mim, estava deitada sobre a mesa, e ele entre as minhas pernas. Eu gozei intensamente naquela vez, acho que a mistura de emoções era única: o medo de alguém chegar, o tesão enorme que ele me provocava, a força com que ele me subjulgava. Sei lá, são tantos detalhes que me vem a mente quando penso nele...
Depois daquilo, ele começou a brincar comigo. Me agarrava pelos corredores e me ignorava em público, só respondendo a mim quando o assunto era trabalho. Ele se divertia às minhas custas, e isso me deixava confusa, e eu fiquei perdida. Eu não sabia o que pensar, cheguei a achar que estava apaixonada demais, e que se ele ficasse com outra pessoa eu enlouqueceria. E era isso que ele queria, depois percebi.
Sabe, com o Toni o affair era uma questão de poder. Ele queria subjulgar uma pessoa importante, que estava numa posição hierárquica acima dele. E, se possível, garantir um pezinho de meia. Ele não me pedia nada diretamente, mas deixava escapar que tinha gostado disso ou daquilo, e eu me peguei comprando uma corrente de platina caríssima para ele, corada como uma adolescente. Enquanto o atendente a embrulhava para mim, ele comentou que era um presente de muito bom gosto, e que meu marido ia gostar muito.
Aquilo foi como um balde de água fria sobre mim. Ele viu a aliança no meu dedo, e imaginou que o presente era para ele! Aquilo me deixou transtornada, e eu liguei para o escritório, avisei que não voltaria naquela tarde, dei uma desculpa. Comprei uma lingerie nova, uma garrafa de Veuve Clicquot de boa safra, e fui para casa. Preparei um jantar delicioso, me arrumei e fiquei esperando o Leonardo. A gente teve uma noite incrível, ele adorou o presente - mas gostou mais ainda do champagne e do resto. Depois que ele dormiu, eu levantei, entrei no chuveiro, e chorei. Chorei muito, deixei que a água do chuveiro lavasse todo o sofrimento. E me senti forte o suficiente para ir ao trabalho no dia seguinte acabar com tudo.

- Você o demitiu?
- Demiti-lo? Não. Eu pedi demissão. Para mim sempre haveria novas possibilidades de trabalho, mas para ele... Bem, eu tenho formação superior, experiência profissional, boas referências. E saí de lá para uma posição melhor numa rede de supermercados. Eu não poderia continuar trabalhando naquela sala, não depois de tudo o que aconteceu ali...
- E você aprendeu com ele, Tereza?
- Ah, não... Sabe, poder se exerce de maneiras diferentes, por motivos diferentes. O que para o Toni era uma maneira de se sentir poderoso e dominante, para outros era o desejo de admiração, a necessidade de se provar, de alimentar a auto estima, de ser o grande amante, o forte, o especial... E, para cada necessidade básica do ego de um homem eu levei um tombo. Só dói menos hoje em dia, que já estou escolada. E mesmo assim, ainda me acontece. É inacreditável até para mim que eu ainda possa cair nessa armadilha. Mas é como é.
- Ele não parece ter sido tão importante para você...
- Viu só, Inácio? Você está julgando. Eu tinha te avisado que iria acontecer. Há um distanciamento emocional porque essa fórmula de relacionamento é ruim. Falar desse tipo de experiência é ruim, porque não é uma relação entre iguais. Esse homem, o Antônio Carlos, não me vê como uma sua igual: ele se vê como melhor do que ele, e precisa me subjulgar, de uma forma ou de outra. E não pode haver felicidade ou boas lembranças neste tipo de história. Mas não significa que tenha sido menos importante, ou menos intenso. Eu sempre me pergunto: e se o atendente da joalheria não tivesse feito aquele comentário? E se?
- Desculpe-me Tereza, eu... - Ela cortou o pedido de desculpas, seca:
- Não se desculpe. Perceba: eu me expus ao teu julgamento, como estarei exposta ao dos que lerem o teu livro, mas o fiz voluntariamente. É por minha vontade que estou aqui - e já sabia que isso aconteceria. - Respirou fundo e concluiu:
- "E se" é a pior das perguntas, é uma prisão disfarçada de possibilidade. Na verdade, é uma impossibilidade que te aprisiona no passado onde ela era possível. E eu aprendi a viver no hoje. Não há cadeias onde eu passei.
- Entendo. De qualquer maneira, essa é uma fórmula diferente. Você se esquece deles? Dos Antônio Carlos?
- Às vezes sim - é quando caio na mesma armadilha uma segunda vez que me lembro. Mas do Toni eu nunca esqueci. Foi logo depois dele que eu engravidei pela primeira vez. No final das contas, ele me ajudou a olhar para dentro do meu casamento e a dar o próximo passo: frutificar.

O silêncio caiu entre eles, e para Inácio era um silêncio opressivo. Era claro que ele sabia que a estava julgando, mas ele não imaginava que ela fosse perceber sua manipulação tão rapidamente. Ela era uma mulher muito inteligente, e ele estava cansado daquele diálogo.

Ela olhava para ele enquanto o silêncio gritava em seus ouvidos. Ela estava tranquila, mas sentia raiva quando se lembrava do Toni. Ela tinha sido louca por ele, mas não sabia pensar nele com carinho. Era raiva o que ela sentia, e ela sabia porquê.

- Sabe, Inácio, existem dois tipos de relacionamento: os bons e os ruins. Os bons sempre dão certo, mesmo quando terminam. Os ruins sempre dão errado, mesmo quando duram toda a vida.
- Obrigado, Tereza. Podemos continuar semana que vem?
- Claro, Inácio.

Ela se levantou e estendeu a mão direita para ele. Ele apertou sua mão com firmeza, e ela saiu da sala. Ele pegou o gravador e começou a tomar notas a respeito da sessão. Repetiu literalmente suas últimas palavras: "existem dois tipos de relacionamento: os bons e os ruins. Os bons sempre dão certo, mesmo quando terminam. Os ruins sempre dão errado, mesmo quando duram toda a vida." E desligou o gravador, pegou uma caderneta com o nome dela na capa, e passou a anotar no papel. Precisaria elaborar bem a conversa...


(to be continued)


quinta-feira, 2 de maio de 2013

Minúcias (parte 2)

"Eu só sei dizer que chovia, que naquele dia a noite caiu sobre a cidade às três horas da tarde, e que em questão de minutos estava tudo alagado, e não dava mais para sair do laboratório. Eu fiquei ali, vendo os meus colegas resolverem ir embora, um por um. Fiquei com medo, sei lá por quê. O meu marido, então namorado, estava fora da cidade, trabalhando num projeto novo, e devia estar de volta em duas semanas. Eu liguei para ele, contando a situação, e ele concordou que a melhor opção era ficar onde estava - seca e em segurança. Só me fez prometer que ia trancar tudo, e se despediu.
De repente eu fiquei sozinha. Completamente sozinha. E me deu medo. Da janela, a situação parecia não ter mudado. Tudo cheio. E eu meio que entrei em pânico. Ali, sozinha, presa numa sala minúscula e repleta de fósseis... Então eu peguei as chaves e algum dinheiro, deixei a mochila no laboratório e saí para descobrir se alguém ainda tinha ficado na faculdade, e se dava para tentar ir para casa. E esbarrei nele na papelaria. Literalmente esbarrei. Eu peguei um livro qualquer numa prateleira da loja, e o estava folheando e andando em direção ao caixa quando esbarrei nele. O pedido de desculpas mútuo foi substituído por um sorriso meio sem jeito. E logo ele quis saber se eu ia tentar ir para casa, emendando que tinha um grupo de alunos que ia ficar no refeitório durante a noite. Eu disse que tinha onde ficar e agradeci, e ele perguntou se eu ficaria bem, sozinha. Ele tinha um jeito especial de olhar, era como se ele realmente visse você, ele podia olhar através de mim. E eu fiquei sem palavras."
Ela fez uma pausa comprida. Inspirou profundamente e deixou o perfume da chuva tomar conta dos seus sentidos. Era difícil falar daquilo, mas ela lembrava de todos os pequenos detalhes daquela noite: o cheiro do hálito dele, o gosto do beijo, o tamborilar da chuva na janela do laboratório, o calor do desejo e o peso das suas mãos sobre o corpo dela. Era emocionante poder falar daquele episódio abertamente a alguém genuinamente interessado no que ela tinha para contar. Tentou se concentrar de novo. Ela precisava terminar o que tinha começado.
"Ele só sorriu e me perguntou se eu queria comer alguma coisa. Diante da minha negativa, se ofereceu para me acompanhar até a minha sala. Eu comecei a agradecer e de repente aceitei sua oferta. Eu já tinha recusado tantos convites dele naquela noite que fiquei constrangida em negar mais aquilo. Ou talvez, em algum canto da minha cabeça, eu já estivesse revolvida. Não tenho certeza.
Caminhamos até o prédio onde a minha sala ficava. Conversamos todo o tempo, e como a gente tinha assunto! Ele fez questão de me levar até o terceiro andar. Subimos de escada - o prédio estava sem energia - e ele já ia se despedir quando eu ofereci um café. Sempre tinha café naquele lugar. E ele aceitou na mesma hora.
As coisas ficam confusas nesse ponto, e eu não sei dizer como foi que tudo começou, mas me lembro de todos os detalhes do que aconteceu ali. Acredito que esse não seja o objetivo da sua pesquisa, então vou omitir isso. O importante para mim é que, apesar de ter acontecido há tantos anos, é mais significativo contar isso aqui do que o meu último romance. Há um padrão, entende? Os affairs se repetem, seguem fórmulas. Eles podem vir em cor e tamanho diferente, mas são fórmulas. Eu sempre dou nomes aos meus compostos. Essa é a fórmula Fernando: acontece meio sem querer, cresce rapidamente e exige tomada de decisão. Sempre acaba do mesmo jeito: eu sofro porque não quero abrir mão, mas sei que é preciso, e nunca mais o vejo. Eventualmente fico sabendo dele por algum conhecido. Ele sempre está muito bem e aparentemente nem se lembra que eu existo. Eu nunca me esqueço dele.
Desse jeito só me aconteceu duas vezes. E eu nunca me esqueci de nenhum dos dois, mas também não sou cruel ou cretina a ponto de procurá-los. Eu sei que poderia machucar - ou ser machucada. Em qualquer dos dois casos é sofrimento desnecessário, porque não há solução para a questão.
Terminou três meses depois, ele me dizendo que se eu terminasse o meu namoro estaríamos casados em seis meses - e, se não o fizesse, jamais o veria novamente. Eu morri um pouco por dentro, mas não vi a opção que ele me mostrou. Eu não vi. Para mim não era possível dar as costas ao meu namorado. A minha lealdade estava em outro lugar. E ele se foi."
Ela sentou na chaise em frente à mesa de Inácio. Estava cansada. Contar aquele história tinha drenado suas energias. Ele achou melhor deixar as perguntas para outra oportunidade.
-Vamos parar por hoje.
-Eu agradeço, Dr. Inácio. Acho que relembrar tudo isso sobrecarregou meu sistema... Você tem alguma pergunta? - Ele percebeu um certo receio na voz dela.
-Você teme as perguntas.
-Não, doutor. O julgamento das pessoas me incomoda, só isso.
-Eu não estou aqui para julgá-la, Teresa.
-Ah, não - mas vai fazê-lo. É da natureza humana, julgar. - Ele não retrucou.
-Então eu prometo guardar meu julgamento para mim.
-Talvez não seja uma boa ideia essa sua pesquisa, afinal. Estou me expondo a esse julgamento à enésima potência.
-Você quer desistir? Eu não quero pressioná-la, mas essa tua teoria das fórmulas me interessou muito. Queria entender como você percebe a dinâmica dos affairs, como você se referiu às relações extraconjugais. Mas você está livre para resolver o que quer fazer com isso.
-Nem são muitas as minhas fórmulas. Eu acho que nós repetimos fórmulas em nossos relacionamentos, e que elas são um reflexo de nossas personalidades e experiências. Comigo acontece sempre de três maneiras bem diferentes, mas sempre as mesmas três fórmulas: Fernando, Antônio Carlos e Laerte. Te interessa mesmo saber disso?
-Sim, Teresa.
-Então... quando eu volto?
-Na próxima quinta.
-Se eu mudar de idéia, eu prometo que ligo avisando.
-Combinado - ele disse, estendendo-lhe a mão direita. Ela retribuiu sustentando seu olhar, desafiadora.
Ele a acompanhou até a porta, esperou que ela saísse e pediu que a secretária reservasse a próxima tarde de quinta para Teresa. Ignorou a careta da mulher e fechou-se no consultório. Precisava tomar notas antes que seu primeiro paciente da noite chegasse.
Já na calçada, ela olhou a chuva que agora caía pesada. Sorriu, deixou a proteção da marquise, e a chuva a abraçou. A água estava fria. Em segundos ela estava encharcada, e ainda assim seguiu pela chuva, sem dar importância a isso.

(to be continued...)

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Minúcias (parte1)

(Esse conto eu comecei a escrever em 2011, e eu até sabia como ia terminar. Por algum motivo, a ideia me deixou. Agora deu vontade de concluir a história de Tereza, então vou republicar um capítulo por dia, e recomeçar de onde parei. Espero que ela descubra seus motivos...)



E então já era quinta-feira e ela tocou a campainha da sala faltando três minutos para a hora marcada. Uma mulher de meia idade, cabelos grisalhos presos na altura da nuca num coque displicente, abriu a porta e a recebeu com uma careta de desaprovação. Ela riu de volta, desdenhosa. Enquanto esperava, ficou analisando a secretaria do Dr. Inácio: maquiagem carregada, um vestido surrado que um dia já tinha sido azul marinho, unhas muito longas pintadas em um tom de azul metálico, escarpins cinza chumbo. Ela era detalhista, e não via nisso mal algum. Alguém uma vez lhe dissera que Deus estava nos detalhes - e ela passou a entender como um elogio quando as pessoas mencionavam essa sua característica. Mas sabia que era no mínimo rude quando escrutinava alguém daquela maneira. Só não sabia como evitá-lo.

Logo a porta do consultório se abriu e Inácio apareceu na porta. Ele sorriu para ela e pediu que entrasse. Ela devolveu-lhe o sorriso, levantou-se, meneou a cabeça para a mulher entrou na sala contígua. Era muito diferente da antessala diminuta. Era ampla e muito bem decorada, mobiliada com bom gosto e sem afetação. Cada objeto ali parecia ter sido adquirido em anos de viagens pelo mundo, e o resultado era um mosaico de referências a respeito daquele homem que tanto a intrigava. Ele a havia abordado há duas semanas, no seu café favorito, enquanto ela saboreava um espresso curto olhando a chuva. Ela adorava a chuva, e ele fez um comentário certeiro a respeito de como o perfume da chuva ali era especialmente fresco. Ela explicou que a proximidade da floresta era responsável por tal efeito, e a conversa fluiu entre eles. E então ele lhe disse que era antropólogo e psicólogo, e que estava escrevendo um livro sobre infidelidade - e perguntou se ela não queria participar do projeto com seu depoimento. Aquela pergunta feita assim, à queima-roupa, surpreendeu-lhe de tal forma que ela apenas aquiesceu. Ele então entregou a ela um cartão, com o endereço e o telefone daquele consultório. Pediu que ela ligasse e marcasse um apontamento com sua secretária, e lá estava ela, diante dele, pronta para despejar sua história. Mas antes ela precisava saber... Como?

- O quê?

-Desculpe. Acho que pensei em voz alta, Dr. Inácio. Eu sei porque você me pediu para vir até aqui. Isso eu entendi perfeitamente. Mas gostaria muito de saber como foi que percebeu que eu poderia oferecer-lhe algum relato, que eu faço parte da sua amostra - como?

-Há uma qualidade indelével, uma espécie de marca, nas pessoas capazes de amar, Tereza. Eu posso explicar o que vi em você, mas prefiro que você me conte sua história primeiro. Temo que revelar esse detalhe antes do teu depoimento possa interferir negativamente no teu relato. Seria pedir demais que você me contasse o que quiser primeiro, e guardasse a curiosidade para o final?

-Acho que posso aguentar mais um pouco para saber, se isso for uma promessa.

Ele sorriu e concordou com a cabeça, enquanto se sentava atrás da mesa de jacarandá recém polida e encerada (incrível como ela não conseguia se desligar dos detalhes).

-Quanto tempo nós temos?

-Você não deve se preocupar com isso, Tereza. Eu não recebo duas pessoas para o projeto num mesmo dia, e geralmente atendo aos meus pacientes pela manhã ou à noite. Reservei o período da tarde para esse projeto, então sinta-se à vontade para levar o tempo que for necessário.

-E te incomoda se eu não ficar sentada? É que eu elaboro melhor enquanto me movimento...

-Tudo bem.

-Posso olhar os teus objetos, tocá-los? Eles me atraem a atenção.

-Claro.

Então ela respirou fundo, e andou em direção à janela, e a chuva começou a cair quase simultaneamente. Ela encostou no parapeito e ficou olhando a chuva em silêncio. Inspirou profundamente o perfume no ar, e seus olhos se encheram de melancolia. Ela sabia que aquela experiência era no mínimo inusitada. Só não sabia onde poderia levá-la. E ela começou a falar:

"A primeira vez que traí chovia, como hoje. Não foi algo planejado. Simplesmente aconteceu. É engraçado falar disso agora, tantos anos passados... É uma lembrança tão doce que nem parece real. Eu sei que é real, mas nem parece. Faz tanto tempo...

Nós éramos colegas de faculdade. Mesma grade de horários, cursos diferentes, algumas matérias em comum. Nos encontrávamos pouco, sempre nos horários das aulas, e quase nunca nos falávamos. E eu sempre soube que ele seria um amante incrível. Havia alguma coisa nele que eu não sei descrever, talvez a maneira como parecia atento ao que lhe diziam, ou a forma como segurava o lápis enquanto tomava notas das aulas... Ele usava lápis, um detalhe que eu considero sedutor: a possibilidade de apagar tudo e reescrever por cima, sei lá. Você pode considerar isso uma besteira, mas eu vejo significado nas coisas mais banais. Eu sou assim, detalhista."



(to be continued...)

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Permanência (parte 5)

Passaram o fim de semana recolhidos ao quarto. Tinham que fazer um esforço enorme para descer as escadas e passar algum tempo entre os amigos, e já tinham acostumado com as brincadeiras da galera, sempre implicando com o sumiço dos dois. Não se importavam. Queriam somente estar juntos, como se aquele hiato de dez anos não houvesse existido, como se tivessem estado juntos todos aqueles anos. Para ambos era como se nunca tivessem se separado. Quando Rachel resolveu deixar cair por terra as resistências, quando Luís resolveu engolir seu orgulho e declarar seu amor a ela - ali a vida dos dois recomeçou de verdade.

Eles não falaram em nenhum momento sobre o que aconteceria depois de terminado o fim de semana. Evitaram tocar no assunto "Maria e Marcos", como num pacto de silêncio não proclamado. Para Rachel era colocar o carro na frente dos bois - ela sabia que não tinha nada com aquele assunto, era a vida dele que estava pendente. A dela já estava resolvida, era uma mulher livre, vivia sozinha e nada devia a ninguém. Para Luís era um assunto desnecessário. Quando saiu de casa, na semana anterior àquela viagem, tinha levado consigo apenas uma pequena valise com algumas roupas e objetos pessoais. Foi para um Apart próximo ao seu antigo endereço, só para ficar perto do filho, e mandou alguém buscar suas coisas dois dias depois. A separação era fato consumado. Ele queria ser feliz novamente. E o único lugar onde queria recomeçar era nos braços de Rachel.

Ficaram entre os lençóis daquela cama, fazendo amor. Completamente despidos: pele e alma, desprovidos de disfarces. Podiam finalmente tocar um no outro: carne e coração. Mais que seus corpos, partilharam a intimidade plena do desnudar-se, de estar diante do outro, o outro como espelho, espelho da história que tinham para construir juntos. Mas não ousavam tentar recuperar o fio da meada. Queriam começam uma história nova, trazer do passado somente as lembranças felizes. A ingenuidade pode atingir qualquer faixa etária, e eles estavam se permitindo serem ingênuos. Queriam acreditar em finais felizes. Queriam driblar o passado e sair ilesos, como crianças travessas que tocam a campainha do vizinho e saem correndo tão rápido que não são descobertos.

O passado dos dois era doloroso, havia ressentimento entre eles - tanto que ninguém entre os amigos podia imaginar que os veria juntos outra vez. Mas o passado os espreitava, e estava tocaiando na próxima esquina - aquilo não podia durar para sempre. E durou até domingo, antes do café da manhã. O telefone do quarto tocou estridente, e Rachel teve um pressentimento ruim.

- Lu, é melhor atender.
- Ah, Chel, não é nada! Deve ser a Lena chamando a gente para descer...
- Não, Lu. Atende, vai. Acho que é para você.
- Nossa, Chel, tá bem...

Ele atendeu e a realidade caiu sobre eles de súbito. Ele se empertigou na beirada da cama, respondendo ao interlocutor com monossílabos. Sua expressão facial demonstrava somente cansaço, e ele não discutia nem argumentava. Só aquiescia. Desligou dois minutos depois. O grave silêncio entre eles gritava, e ecoava nas paredes.

- Quem era, Lu? - Rachel quebrou o silêncio, constrangida.
- É a Maria que está lá embaixo, Chel. Ela veio me buscar.
- Por quê? Aconteceu alguma coisa com o Marquinho?
- Não. O pai dela morreu.
- Você precisa ir.
- É, preciso. Mas quero que você vá comigo.
- Acho que é imprudente, Luís.
- Acho que, se você não for comigo, ela vai achar que eu vou voltar para casa. Eu não vou, Rachel. Mesmo que você não esteja do meu lado, mesmo que não queira fazer parte da minha vida. Eu não posso ser arrastado de volta para aquela história - e eu preciso de você agora. Por tudo que a gente viveu desde sempre, meu amor.
- Lu, a Maria vai me detonar - e você sabe disso.
- Eu sei também que você sabe se defender. Por favor...

Levantaram e vestiram-se rapidamente. Juntaram suas coisas dentro das malas de qualquer jeito e desceram juntos, as mãos dadas, numa última tentativa de simular normalidade. Nada mais seria normal entre eles, e a ingenuidade que eles evocaram evaporou-se instantaneamente do momento em que puseram os pés na recepção. Maria estava de pé, muito digna, vestida de preto, os olhos escondidos por enormes óculos escuros e um chapéu de abas largas sobre a cabeça. Era a imagem da estrela hollywoodiana enlutada. Mas toda aquela classe desapareceu no instante em que ela viu Rachel ao lado de Luís.

- Eu não acredito que você teve a audácia de vir até aqui com o meu marido! Você não tem vergonha, não?
- Eu tenho, Maria. E você também devia. Afinal, você acabou de perder seu pai...
- Você é muito cara de pau, hein, garota? - Luís resolveu intervir.
- Olha, Maria, fui eu que pedi à Rachel para vir comigo. Eu quero que ela esteja ao meu lado. Nós já conversamos longamente sobre isso.
- Acontece que é o sepultamento do meu pai, e você vai lá com a tua piranha! É muita falta de respeito pelo teu filho!
- Olha só, Maria, eu não admito que você fale assim da Rachel. Isso não é verdade, e você sabe que está se excedendo.

Rachel preferiu se afastar dos dois. Ela não queria ofender a outra, sabia o que era a perda que ela estava enfrentando - mas não tinha sangue frio suficiente para tolerar aquilo por muito tempo. O passado dos três condenava Maria, mas por uma tendência à benevolência e ao seu orgulho ferido, Rachel sempre se furtara de dar o troco à outra. Talvez tivesse chegado a hora de acertarem as contas.

Quando Rachel e Luís namoravam, Maria era a ex dele. Rachel estava apaixonada demais para perceber que eles ainda mantinham algum vínculo. Em sua mente eles estavam sempre juntos, e não havia tempo para que ele ficasse com qualquer outra garota. Mas ela estava enganada. O filho dos dois, Marcos Vinícius, fora concebido durante o namoro dela com Luís, e também o motivo do fim do relacionamento e do casamento deles. Ela podia lembrar com detalhes de como Maria a humilhara diante dos colegas de escola. Ela estava cheia de orgulho, estava grávida do seu namorado, e estava ali, de pé no centro do pátio, proclamando aquilo aos quatro ventos, ridicularizando Rachel de todas as formas possíveis. Ela gritava que Rachel não era mulher suficiente para satisfazer o Luís, e que agora ela estava carregando a prova concreta das puladas do seu namorado, para quem quisesse ver. Rachel simplesmente se levantara e saíra de cena. Passou quinze dias sem ir à escola. E voltou ao convívio dos colegas como se nada houvesse acontecido. Durante aquela semana, Luís fora todos os dias à sua casa, e tentara convencer a mãe dela que o deixasse subir a conversar. Dona Luíza dizia somente que Rachel não estava bem disposta, que eles poderiam conversar numa outra oportunidade. A verdade era que Rachel estava prostrada, num estado de choque que a impedia de sequer levantar-se da cama ou comer qualquer coisa. Ela nada disse em casa sobre o que acontecera entre eles - dissera à mãe somente que Luís tinha morrido para ela - e fora necessário chamar o médico em casa para determinarem o que fazer a respeito de sua recuperação. Todos temiam que ela viesse a perder o último ano do curso, que não pudesse mais frequentar à escola, que não tivesse condições emocionais para continuar dividindo o mesmo espaço físico com o ex-namorado. O pai esbravejara, dissera que o rapaz não prestava, que ele nunca tinha aprovado o tal relacionamento - mas a mãe apenas calou e fez a vontade da filha. Silenciou o marido e deixou que Rachel vivesse sua dor.

Ela entrou em sala de aula como se não tivesse passado duas semanas ausente, entregou um atestado médico ao professor e sentou-se na primeira fileira, como de hábito. Luís passou todo o tempo da primeira aula tentando chamar-lhe a atenção, mas Rachel estava como surda. Ele ainda tentara convencê-la a pelo menos conversar com ele. Ela lhe dissera somente que não havia nada para falarem, que dali por diante eram somente colegas de classe.

Ele ainda insistiu por mais de três meses, e então chegou o mês do casamento. Ele entregou-lhe uma carta, longuíssima, explicando - como se houvesse explicação - tudo, dizendo que tinha sido um imbecil e pedindo a ela somente duas coisas: que o perdoasse - e que fosse sua madrinha de casamento, ao lado de seu primo Casimiro. Dizia que só poderia passar por aquilo se ela estivesse ali, com ele. Ela somente olhou para ele e perguntou se havia algum acordo a respeito de cores de vestidos, se haveria um ensaio para a cerimônia e a que horas todos deveriam chegar. Ele mal podia encará-la, sentiu nela um profundo descaso por tudo o que ele tivera o trabalho de escrever naquela carta. Entregou-lhe um papel com dois números de telefone: o da cerimonialista e o do tal primo.

E ela estava lá, no altar, assistindo à cerimônia, como havia prometido a ele. Não transparecia nenhum sentimento - parecia até uma pessoa estranha, alheia às famílias e aos noivos, como se fosse uma atriz convidada para ocupar o lugar de uma madrinha ausente. Não compareceu à recepção, mas entrou na fila dos cumprimentos e beijou os noivos, desejando-lhe felicidades.

E nunca mais quisera fazer parte daquilo. Era uma história sórdida, da qual não quisera participar à época, e da qual nunca fizera parte. Era um problema deles. E ela preferia que continuasse assim. Até agora, até aquele fim de semana. Parecia que finalmente o Passado conseguira dar-lhes o bote. E dessa vez tudo viria à tona - à sua revelia.

- Rachel, por favor. Rachel, onde você vai?
- Eu vou deixar vocês conversarem, Luís. Essa história não é minha.
- Mas é, Rachel! Você não pode fugir disso para sempre.
- Posso sim, Luís. Eu fugi disso por dez anos. Não estou disposta a enfrentar nada agora. É problema de vocês.
- Não Rachel! É problema nosso! Se você não tivesse me abandonado, se não tivesse me impedido de me aproximar naquela época, essa história poderia ter sido diferente... - ela não permitiu que ele continuasse:
- Ah é, Luís? E como seria diferente? Você ia abandonar a Maria grávida para continuar namorando comigo, como se nada houvesse acontecido? Ou você pretendia fazer um filho em mim, para não ter que casar com ninguém? Me diga agora de que maneira essa história poderia ter sido diferente?
- Eu não queria casar com ela, Rachel! Eu podia ser pai do Marcos sem ser marido dela!
- Hoje em dia pode ser, mas naquele tempo? Você pode se enganar o quanto quiser, querido - no final não faz diferença! Se você não quisesse casar com ela não precisava de mim do teu lado para dizer esse não - mas precisou de mim para dizer sim!
- Eu queria estar com você ali, você não entende até agora, mesmo depois de todo o fim de semana?
- E você acha que só porque a gente se ama você está redimido das tuas dívidas, Luís? A vida é um cobrador amargo: ela te deixa atrasar, mas sempre cobra juros altíssimos!
- E eu vou pagar para sempre por um erro que eu cometi há quase 11 anos atrás?
- Um casamento até pode acabar, Luís. Mas um filho é para sempre. Foi por isso que eu nunca quis ter filhos, e pelo mesmo motivo o meu casamento não funcionou. Ele entendeu que eu não atrelaria a minha vida à ele - e nos separamos.
- Rachel, não faz isso comigo, por favor! Eu precisava de você no altar naquele dia, eu preciso de você agora! Eu chorei durante toda a festa, era como se eu tivesse morrido quando você apertou minha mão naquela fila de cumprimentos. Como você consegue ser tão fria?
- Fria?! Fria? é isso que você pensa, né? Que eu sou uma pedra, que não sinto nada! Só que eu confiei em você! Confiei cegamente - e você me traiu com a tua ex, fez um filho nela e deixou que ela me humilhasse diante de toda a escola! O que exatamente você queria que eu fizesse? Que eu cortasse os pulsos? Que tomasse 30 comprimidos de valium? Que tivesse um ataque histérico, me embolasse com ela no meio do pátio, pegasse a Maria pelos cabelos e fizesse ela retirar o que tinha dito? ERA VERDADE, Luís! Ela estava certa - e eu errada, enganada, iludida, crédula. Você perdeu e eu perdi. Ela ganhou, e fim. Eu precisei juntar toda a minha dignidade para voltar à escola e terminar o ano junto com a turma. Precisei de todo o auto-controle do mundo para te olhar nos olhos de novo e aceitar aquele pedido desumano, de que eu fosse tua madrinha de casamento. E precisei evitá-los por todos esses anos. E mesmo sendo inocente, a vida está aqui agora, me cobrando isso também.

Ela chorava como nunca, como se toda a dor do mundo estivesse transpassando seu coração em um átimo. Ele não sabia o que fazer, o que dizer. Ela era a mulher da sua vida. Ele já a havia perdido uma vez. Não podia perdê-la novamente.

- Rachel, por favor, eu te amo! Você é a única mulher do mundo para mim...
- Eu sei que você me ama, só não me diga mais isso, porque desse jeito não faz diferença! Eu quero um amor que eu possa levar comigo.
- Eu te prometo que você vai poder me levar contigo, meu amor. Eu te prometo que tudo vai acabar bem. Vem comigo, eu estou te implorando. Já que a vida está cobrando isso, eu pago. Pago o preço que for - se você vier comigo.

Ela ficou ali, olhando para ele, as lágrimas turvando a sua visão. Ela sentia que podia confiar nele, mas já tinha se enganado antes. Ele já tinha falhado com ela - e tinha sido ao terrível, algo que lhe custava até hoje noites em claro e horas de terapia. Ele parecia resolvido. Agora era a vez de ela se decidir.

(to be ended...)

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Permanência (parte 4)

Desceram as escadas para a área de convivência de mãos dadas. Ela estava nervosa, apreensiva. Ele, ao contrário, parecia radiante. Ela nem se lembrava de tê-lo visto com aquela expressão antes. Pelo menos não em muito tempo. No fundo de sua cabeça, aquela imagem só encontrava um par: o dia em que ficaram juntos pela primeira vez. O dia do beijo.

Sentindo sua apreensão, Luís perguntou:

- Rachel, você está bem?
- Quê? Ah, sim, claro, Luís...
- Você está meio nervosa. O que mudou no caminho do quarto até aqui?
- Nada, Luís, nada. É que o pessoal está esperando te ver com a Maria, e você desce as escadas de mãos dadas comigo, assim, nessa intimidade toda... Acho que o pessoal vai ficar imaginando coisas. Coisas que eu não quero que eles imaginem.
- Como o quê?
- Que eu e você já estávamos de caso há tempos e que eu fui o motivo da tua separação - e que é muita cara de pau da gente. "Coitada de Maria... Nem estão separados oficialmente e eles já estão circulando juntos..."
- Você se importa com isso, Chel?
- Eu não sei o que pensar, Lu. Tudo aconteceu muito rápido para mim.
- Eu vim até aqui só para ficar perto de você. Para ver você, ter a chance de conversar com você. Na tua cabeça pode ser uma coisa inesperada, surpreendente. Mas eu não teria vindo se você não fosse estar aqui. Eu gosto do pessoal, não me entenda mal. Mas eu quero você. E não me importo.

Ela ficou sem palavras. Não podia retrucar, nem resistir. Era como sempre fora: ele sempre tinha a última palavra, o último argumento. Sempre claro, mesmo que nem sempre transparente. E era essa característica dele que a deixava apreensiva. Ele era translúcido - as coisas que ele dizia tão claramente pareciam aos seus olhos vultos e contornos, nunca imagens reais. Ela era totalmente transparente para ele. Não sabia mentir nem disfarçar. Nunca pode ocultar o amor que sentia por ele, nunca foi capaz de fingir-lhe indiferença. Ele, por outro lado... Quantas vezes na história dos dois ele fora uma incógnita? Ela já não sabia mais. Esforçou-se para agarrar a lembrança de seus olhos radiantes, exercitou os músculos da confiança, respirou fundo e apertou sua mão na dele. Sorriu e concordou, com um dar de ombros seu característico, que ele sabia significar "ok, vamos lá, what the hell..."

Eles encontraram os colegas já bastante adiantados nos trabalhos etílicos, e todos os receberam efusivamente. Circularam juntos o tempo todo, e Luís dificilmente soltava sua mão. Quanto se afastava era para buscar alguma coisa, ou falar com algum amigo mais chegado - mas em poucos minutos suas mãos estavam ali, tocando seu corpo, suas costas, seus braços. Muitas vezes ela se deixou envolver pela cintura, num abraço bastante íntimo. Renata e Helena estavam em cólicas, e Rachel não pode conter o riso umas duas ou três vezes em que Luís estava de costas para as duas e elas tentavam fazer a inquisição na linguagem de sinais.

- Rachel, vai lá tranqüilizar essas criaturas, pelo amor de Deus!
- Do que você está falando, Lu?
- Ah, Chel, a Rê e a Lena vão ter uma síncope já-já! Elas não param de olhar para cá, cada uma mais arregalada que a outra! Vai lá e conta para elas.
- Tudo bem para você?
- Claro! Mas com uma condição.
- E qual é? - Ele se inclinou e sussurrou em seu ouvido:
- Volta logo para mim...

As amigas mal podiam se revezar durante o que lhe pareceu o interrogatório mais atrapalhado do século! Ela contou o que acontecera em linhas gerais, reservando para si o direito de calar a respeito dos detalhes. Estava apaixonada como uma adolescente, pelo seu amor da adolescência. Parecia a coisa mais improvável e estúpida a se fazer, mas ela sentia que nada podia ser mais perfeito. as amigas ainda tentavam chamá-la a razão, dizendo que aquilo era uma loucura, que todo mundo ia ficar falando - mas ela só pode calá-las com os argumentos de Luís, mesmo que ela mesma estivesse tão assustada quanto elas. A conversa com elas demorava tanto que Luís desistiu de esperar.

- Oi, meninas. Será que vocês podem devolver a minha garota?
- Você é petulante, hein, Luís? - disse uma Helena meio ressabiada.
- Até sou, mas essa nem é a minha principal qualidade. Vamos, Rachel? Já estou com saudade.
- Tchau, meninas. A gente conversa mais depois...

Ele segurou sua mão novamente. Ela evitou os pensamentos que a conversa com Renata e Helena tinham suscitado. Deixou-se guiar para fora do salão. Precisava mesmo de ar fresco. Ele puxou seu corpo para junto. E a beijou ali, onde todos pudessem ver.

- Você não tem mesmo nenhum problema com isso, né?
- Não, meu amor. Não mesmo. E nem me parece que nós devamos nos preocupar. "Eu e você" estava escrito. E pronto. Acho que já fizemos figuração por muito tempo. Vamos sumir daqui?
- Acho ótima idéia!

Deixaram a reunião de colegas de escola e subiram juntos as escadas para o segundo pavimento. Sem combinação prévia, caminharam juntos em direção ao quarto dela.

-Sempre achei esse seu quarto lindo... A gente ficou aqui da outra vez, lembra?
-Claro, querido. Eu nunca vou me esquecer daquele fim de semana da formatura.

Dentro do quarto era outro mundo, um mundo onde ela podia responder ao impulso incontrolável de grudar seu corpo ao dele e esquecer tudo o que ficou para trás. Ela sempre pensava nele como uma grande jazida de magnetita, e em si como uma pequena aresta de ferro: a atração era irresistível e ele já tinha feito demais em evitá-la por tantos anos.

Ele não sabia explicar: como, mesmo tanto tempo depois, tantos anos de distanciamento frio, eles ainda podiam sentir tanta paixão assim um pelo outro. Ela era a mulher mais encantadora, mais inteligente, mais luminosa que ele já conhecera, e nunca houve um dia em que não sentisse sua falta, mesmo quando já não se viam há muito, mesmo se ninguém dissesse seu nome. Todos os dias pensava nela. Todos os dias passava pela porta do seu prédio, olhando, vigiando. Ele queria mantê-la por perto, ela rechaçara todo e qualquer contato.

E mesmo assim, um nos braços do outro - e o mundo podia acabar.

(To be continued...)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Permanência (parte 3)

Rachel e Luís eram os únicos instalados na casa grande. Os outros colegas tinham optado por apartamentos ou chalés, para acomodar a filharada. Parecia que só os dois tinham pedidos quartos simples, e ela ficou imaginando por que a Maria não viera - mas preferiu não perguntar. Embora a trégua estivesse estabelecida, não convinha cutucar a onça, e ele era hipersensível - talvez se ofendesse com a pergunta e tivesse um ataque. Ela preferia a trégua, porque não queria ter de lidar com um clima no meio do fim de semana. Ele a ajudou a subir com sua mala, e descobriram que estavam no mesmo andar:

- Quer que eu te acompanhe até o quarto, Rachel?
- Não precisa, Luís, sério. Eu posso arrastar a bagagem daqui em diante. - Ele sorriu e aquiesceu.
- Tudo bem, então. A gente se vê no brunch?
- Claro! Imagina o chilique que a Renata vai dar se eu não descer?

Despediram-se entre sorrisos, com um aceno de cabeça - e ela ficou grata por isso. Preferia evitar o contato físico. Enquanto se afastava, ela pode sentir o olhar dele sobre ela, acompanhando-a a distância. Aquilo sempre a perturbava, aquela mania dele de bancar o bom moço, como se estivesse cuidando dela mesmo sem estar ao seu lado. Incrível como no passado era uma das coisas mais sedutoras a seu respeito...

Já instalada, Rachel resolveu tomar um banho antes de descer até a área de convivência do hotel, onde todos os ex-colegas se reuniriam em poucos minutos para um brunch. Era a idéia de Renata de uma abertura chique para o evento: "ah, gente, não é o máximo? Bebericar um prosecco e jogar conversa fora entre uma beliscadinha e outra?"A Rê sempre fora a fresca da galera - mas tinha bom gosto, e ninguém negava. Era um luxo sim, e todos acharam a idéia ótima. Ela olhou o quarto e ficou muito satisfeita. Era o mesmo em que ficara instalada durante a viagem de formatura. Ficava no final do corredor da ala norte do prédio. Por isso, tinha duas janelas: uma dava para a frente do hotel e a outra estava voltada para a área da piscina natural. Se ela se sentasse nesta, podia ver ao fundo as estrebarias e a área de arvorismo - um pré requisito moderno para hotéis fazenda como aquele. Ela achou maravilhoso estar ali de novo, e inspirou profundamente. Adorava o cheiro de grama recém aparada, da água daquela piscina, o cheiro dos estábulos até. Sobre a cama, havia um pequeno arranjo de flores e uma cestinha com bombons - um brinde de boas vindas - e junto a eles um folder com a programação do hotel naquele fim de semana. Ela sentou na cama e passou os olhos pelo impresso. E não pode conter uma gargalhada. "A Lena é uma figura mesmo..." Sabia que aquilo só podia ser coisa da amiga: ao lado de cada atividade que ela sabia que Rachel não curtiria, uma notinha do tipo "Vamos lá!"ou "Deixa de preguiça!"e "Por que não tentar?" Ainda rindo, levantou e despiu-se para o banho.

A água estava deliciosa, temperada na medida para um banho relaxante e revigorante ao mesmo tempo. Deixou que a água lambesse seu corpo e lavasse as preocupações. Tantos anos depois, o que importava seu passado com Luís? Ela ainda balançava quando o via, não podia negar. Mas o que ele tinha com isso? Ela sabia que era problema seu. Ele provavelmente já havia descido, e estava agora sentado numa espreguiçadeira rindo e tomando um prosecco com os outros colegas, sem nem se lembrar que tinha vindo com ela. Enrolou-se numa toalha macia e deixou-se ficar ainda um pouco deitada na cama, pensando no que deveria vestir. Imaginou tudo que tinha trazido na mala e decidiu usar um vestidinho de verão frente única, estampado com flores. Estava bem quente aquela hora, e só deveria esfriar mais tarde. Vestiu-se rapidamente, ajeitou os cabelos num rabo de cavalo alto e passou um batom cor de boca - sem nem se olhar no espelho - e saiu para o corredor.

Ele estava sentado no chão, na frente da sua porta.

- Nossa, que visão!
- O que você está fazendo aqui?
- Ah, eu não quis descer sozinho...
- Então levanta, vai. A gente já está atrasado.
- Achei que você ia me perguntar de novo pela Maria.
- Por quê?
- Ué, foi a primeira coisa que você quis saber... Eu pensei...
- Luís, olha só: não vai dar certo isso. Se você quer me dizer alguma coisa, diz logo.
- Ela ficou no Rio. A gente está se separando.
- O quê? Nossa... Desculpa, Luís... Foi insensível da minha parte.
- Não, tudo bem. Eu só queria tirar isso do nosso caminho.
- Você está bem?
- Ótimo, meu anjo. Não há razão para se viver uma mentira a vida inteira, só porque você prometeu.
- E ela? E o Marquinhos?
- Acho que estamos todos nos acostumando com a idéia. Olha, eu queria te contar antes de descer. Não quero que você me ouça falando da separação casualmente, numa rodinha de colegas de escola. Eu sei como você leva essas coisas a sério.
- Obrigada pela consideração, Lu. Estou me sentindo mal por não ter percebido antes, quando você usou aquele tom de descaso pela manhã, na portaria do meu prédio. Se houver alguma coisa que eu possa fazer...

Ela não pode continuar. Ele se arremessou sobre ela num impulso, e a beijou como sempre. Como nunca. Ela ainda tentou resistir, tentou refrear seu impulso. Foi para ela também inevitável ceder. Sentir a proximidade de seu corpo, o calor dos seus braços, o gosto da sua saliva - nada era novidade, e era um mundo novo. Sem separar seus lábios dos dele, ela encostou na porta do quarto e a abriu, deslizando para dentro colada a ele. Bateu a porta às suas costas ainda presa àquele abraço, àquele beijo - como uma mosca na teia da aranha. Era o beijo da morte, mas era tão bom...

O beijo só terminou quando já estavam nus, os dois sobre as cobertas da cama, ele deitado sobre o corpo dela, dentro dela, suas mãos entrelaçadas enroladas aos lençóis, os dois suados, ofegantes, excitados. Entregues.

Ela olhou para ele, e encontrou seus olhos no mesmo movimento. Nada disseram por longos minutos. Ela quebrou o silêncio com um suspiro. Ele sorriu e disse:

- Se a gente descer agora, talvez ainda tenha um pouquinho de prosecco para você, meu amor...
- Eu já estou embriagada, obrigada.
- Vamos. A gente toma um banho e desce. Ou não...
- Vamos descer sim, Luís. O pessoal está esperando por nós.
- Eu esperei por você muito tempo - e você está aqui, agora. Eu poderia ficar aqui o fim de semana inteiro.

Ela não replicou, por não saber o que pensar. Todo aquele tempo mantendo distância tinha sido inútil diante da força do desejo dele. Ela sabia que não devia ter cedido - mas era tarde demais para pensar nisso agora. Precisavam descer, encontrar as pessoas. E depois decidir o que fazer.


(To be continued...)

domingo, 17 de outubro de 2010

Permanência (parte 2)

A viagem acabou parecendo mais curta, à medida que o distanciamento dava lugar à antiga intimidade. Afinal, tinham sido colegas por três anos - até que se tornaram amigos. Muitas viagens de trem depois, a amizade se transformou em outra coisa. Claro que todos os amigos em comum já tinham percebido que havia fogo sob aquela cortina de fumaça - mas eles não pareciam dar atenção àquilo. Pelo menos até uma tarde chuvosa de maio, em que se sentaram num banco sob o bloco E (de engenharia) e ela deitou a cabeça displicente em seu peito, os olhos cerrados.

Ele nunca mais olhou para ela do mesmo jeito depois daquilo. A única coisa em que podia pensar era que precisava encostar seus lábios nos dela, descobrir que gosto tinha sua melhor amiga, tocá-la de alguma forma que não fosse fraternal. Nem sabia dizer de onde viera o impulso, mas jamais se arrependera - fora o melhor, mais intenso e apaixonado beijo que ele já havia experimentado na vida.

Ela nunca soubera de onde aquele beijo tinha vindo, mas também não sabia dizer por que diabos ele tinha demorado tanto para tomar aquela atitude. Ela não tinha olhado para ele daquela maneira antes. Só que, naquele momento, seus lábios nos dela, parecera a única coisa certa nesse mundo. Ela jamais havia sido beijada daquele jeito. Nem jamais seria. Tudo nele era perfeito para ela, e só ali, em seus braços, ela tinha finalmente percebido isso.

Mesmo agora eles viviam à sombra daquele beijo. E ainda persistia aquela cumplicidade antiga, derretendo o gelo de anos de distância e ressentimento. Eles não se atreveram, entretanto, a verbalizar o que estava claro. O equilíbrio retituído durante as breves horas do trajeto, desde que o gelo fora quebrado, era delicado, e nenhum dos dois estava disposto a brigar. Curiosa e surpreendente, a trégua se estabeleceu sem que fosse necessário discutir seus termos - e ambos sabiam que era melhor assim, para o bem do fim de semana.

Chegaram ao hotel em pouco mais de duas horas, e ainda estavam rindo quando saíram do carro. Deram de cara com uma Helena tensa e uma Renata temerosa. Rachel apenar sorriu e cumprimentou as amigas:

- Olá, comissão organizadora! Parece que foi ontem a formatura, hein? Esse lugar não mudou nada...

As duas se entreolharam, desconfiadas:

- Fizeram boa viagem? - Foi a vez de Luís responder:
- Claro! Ou vocês pensaram que a Chel ia chegar aqui com o meu fígado meio comido?

Todos riram, e foi o suficiente para descontraí-las, e ele se afastou para pegar as malas no carro. Quando se viram sós com ela, as duas começaram a inquisição:

- O que aconteceu, Chel? Ele se comportou durante a viagem, ficou tudo bem?
- Nossa, meninas... Eu pensei que tivesse dado para perceber que a gente veio bem. Começou meio mal, mas a viagem acabou sendo tranquila. Eu vim dirigindo desde o posto de gasolina. Foi legal.
- E... você está bem, amiga?
- Por que não estaria?

A ausência de réplica fez cair entre elas o véu da trégua, e quando o Luís voltou com as malas, ela pode ainda sorrir e agradecer - e receber seu sorriso de volta. Um sorriso aberto, largo, cheio do charme que ele sempre transbordara. E com aquele ingrediente secreto, capaz de tirá-la do sério. Ela pegou sua bagagem e virou-se em direção à recepção, para evitar seu olhar penetrante. E vestiu a armadura, apesar da trégua. Era preciso se preparar para o ataque surpresa...

(To be continued...)

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Permanência (parte 1)

Encontrá-lo não foi fácil.

Depois de tantos anos, todo o trabalho que teve para evitá-lo foi por água a baixo naquela tarde. Era o encontro do aniversário de vinte anos de sua antiga turma do curso técnico e ela, que tinha sido muito ativa durante aquele período, sentia que não podia recusar o convite da comissão organizadora: duas de suas melhores amigas tinham tido essa idéia brilhante - e no início ela nem se opusera. Tinha achado uma idéia excelente, de fato. E então, a idéia brilhante: "e os meninos do quarto ano? A gente não deveria chamá-los também?"

Ela fora muito resistente, e as duas sabiam muito bem por quê. Então elas consideraram que talvez nem devessem chamar a todos - e ela percebeu que concordar naquele ponto seria uma confissão de pânico. E de imaturidade também. Depois de algumas conversas mais, dividiram a lista de telefones, e obviamente o número dele não constava da lista que veio parar em suas mãos.

A cada telefonema dado ela ficava mais animada. Seria tão bom reencontrar os antigos colegas, tão queridos e importantes em sua vida, estar com eles por todo um final de semana! Era a idéia perfeita: repetir a viagem de formatura, para um hotel fazenda em Mendes, no estado do Rio. "É tão pertinho, Rachel! E podemos levar as crianças, né? Tem recreadores!!!" Ela entendia as preocupações das amigas, embora não compartilhasse delas. Tinha sido casada por cinco anos, mas não tiveram filhos, e depois do divórcio ela nunca mais pensou em casamento. Gostava de dizer aos amigos que aquilo era coisa que só se faz uma vez na vida - como ir à Austrália ou pular de bungee jump. Ela já tivera a sua cota de cuecas para lavar, jantares para preparar e lugares para ir acompanhando o marido. Prezava demais sua liberdade, e dizia que flertada com a solidão a tantos anos que quando encontrou a chance de ficar com ela não pensou duas vezes!

No dia da reunião para os últimos preparativos da viagem, Helena quis conversar com ela em particular, antes de Renata chegar com sua listagem final.

- Chel, preciso falar sobre o Luís.
- Por que, Lena?
- É que ele confirmou presença...
- E?
- Ah, Chel, você sabe por que essa conversa, né?
- Lena, sério: e?
- Ele disse que só iria se você fosse também. disse que você era a única pessoa da turma que ele queria ver novamente.

Ela nem sabia o que fazer com essa informação. Afinal, por que ele resolveria torturá-la mais um pouco, quase dez anos que não se encontravam, quase dois anos desde seu divórcio? Ele era casado, ela estava presente à cerimônia - como madrinha. Era esse o tipo de requinte de crueldade de que ele usara à época. Ele queria que ela estivesse ali, no altar, assistindo seu enlace... Que cretino! E agora é que a Helena dizia isso a ela!

- Acho que quem não vai a esse final de semana no campo sou eu.
- Pára, Rachel. Pára agora, por favor! Você não está pensando direito. Vai ver ele quer te pedir desculpas, talvez acredite que vocês precisam conversar, talvez... - ela nem deixou a amiga completar a frase:
- Pára você, Lena! Pára de inventar desculpas para o Luís, tá? Ele é adulto e sabe bem se defender, não precisa de advogado de defesa.
- Tá, tá bem... Cruzes, que ódio hein, menina? Você precisa se libertar disso.

Então Renata chegou e elas encerraram o assunto. As semanas passaram rapidamente, ela ocupadíssima fechando um novo contrato para sua produtora, as meninas resolvendo os últimos detalhes da viagem. Quando deu por si, já era quarta-feira. Elas tinham reservado um fim de semana prolongado, com feriado na sexta, e iriam viajar na quinta pela manhã. Tinham também montado um esquema de transporte solidário, onde quem tivesse lugar sobrando no carro levaria alguém que estivesse a pé. Era seu caso: o carro precisava de manutenção, e como era só ela mesma, pediu carona. Ela nem sabia com quem iria, e ligou para a Renata para descobrir quem seria seu motorista. Ela desconversou. Disse que a lista estava com a Helena, e que ela não sabia de cor. Então, ela ligou para a Helena. A amiga disse que ela iria com o Olavo, e que ele tinha combinado de ligar para ela combinando o horário da saída ainda naquela tarde. Mas ela tinha o número do telefone do Olavo, e não quis perder tempo. Ligou:

- Oi, Olavo?
- Ele!
- É Rachel, tudo bem?
- ...
- Olavo, você está me ouvindo?
- Ah, claro, Chel... Só estou meio distraído. Tudo bem?
- Sim, malas prontas e tal. Estou ligando para saber como vai ser amanhã. Você quer que eu vá até a sua casa ou prefere marcar um ponto de encontro?
- Ah, eu peguei seu endereço, querida. Não esquenta de vir até aqui! Afinal, passar por aí é meio que caminho, né? Pode ser tipo umas 8h, 8:30h?
- Olavo, você que manda! Eu fico esperando na portaria, que é para a gente não se atrasar, ok?
- Combinado! Eu tenho um Punto preto - fica de olho.
- Obrigada, querido.
- Disponha!
- Um beijo, tchau.
- Tchau.

No dia seguinte, cinco minutos antes da hora combinada, Rachel resolveu descer para a portaria do edifício onde morava, para evitar qualquer inconveniente ao amigo. Estranhou quando o Corola prata estacionou bem na frente do prédio. "Que saco! Agora, quando o Olavo chegar vai ser difícil ele arrumar um lugar para parar... " Estranhou ainda mais quando o motorista do carro abriu a porta, e olhou para ela, sorrindo. "Só pode ser sacanagem!" Era o Luís, andando ma direção da portaria, sorrindo o tempo todo.

- Bom dia! Vejo que continua paranóica com relação aos horários...
- O que você está fazendo aqui?
- Nossa! Nem bom dia? Foi a recepção mais fria da minha vida!
- Nem começa, Luís! Cadê o Olavinho? Ele combinou que vinha me buscar.
- E eu combinei com ele que era melhor você ir comigo.
- Com que direito? E cadê a Maria?
- Ai, que grosseria, hein, Rachel? Eu não tenho idéia da programação da Maria para hoje. Depois de tantos anos, parece que você continua a mesma.
- E você também, manipulador egoísta!
- Bem, agora que já fizemos nosso catching up, deixa eu pegar a sua bagagem.
- Pode deixar, eu vou de outro jeito.
- Ah, vai arrumar um taxi prá te levar até Mendes agora...
- E se eu não quiser passar duas horas e meia de viagem sentada do teu lado?
- Tem sempre o banco de trás... Mas eu acho que a gente conversa melhor se você for sentada no banco da frente.

Ela não respondeu. De alguma maneira, ele sempre terminava as discussões. Para o bem ou para o mal. Incapaz de tomar uma atitude, ela assistiu enquanto ele entrou no jardim da entrada do prédio, pegou suas malas com desenvoltura e se dirigiu até o carro, abriu o porta-malas e guardou sua bagagem. Abriu então a porta do carona para ela e esperou que entrasse para fechá-la.

- O filho do Olavo está internado na emergência do Copa D'or. Crise aguda de bronquite. Eles não vão mais viajar. Ele achou que você ia entender.
- Meu Deus! Será que eu não devia ir até lá, prestar solidariedade?
- Faça isso por telefone, querida. O dia está lindo e provavelmente vai esquentar - e eu não quero pegar a estrada mais tarde.

Viajaram por quase uma hora em silêncio - um silêncio pesado, denso, que se poderia cortar com uma faca - quebrado somente no início, pelo som da voz de Rachel ao telefone com Olavo, perguntando pelo menino. A conversa foi rápida, ela ficou mais tranquila, mas ainda estava irritadíssima com o amigo. "Custava ele me avisar que não poderia me buscar?" Mas ela sabia que talvez não tivesse cabeça para avisar nada a ninguém se seu filho ficasse doente. Era estar tão perto dele que a deixava tensa. Sempre houvera essa tensão entre eles.

Ele resolveu parar num posto de gasolina. Virou-se para ela e disse:

- Eu preciso completar o tanque, e estou com fome. Se você puder ficar aqui enquanto abastecem o carro, eu vou lá na conveniência. Quer alguma coisa?
- Não, obrigada. Pode deixar esse abastecimento comigo - eu proporia o mesmo ao Olavo.
- Não precisa, boba. Eu iria fazer a viagem sozinho, ia gastar o mesmo combustível. Só me faz um favor?
- Sim?
- Tenta ser menos chata durante o próximo trecho, ok? E, se você quiser, pode dirigir o carro.

Ela ficou ali, imóvel, enquanto ele se afastava em direção a loja de conveniência, olhando para ele enquanto caminhava. Não sabia por que, mesmo depois de todos esses anos, ele ainda provocava todos aqueles sentimentos nela. Quando o frentista terminou o abastecimento, ela pediu que verificasse água e óleo, completasse o compartimento do limpador de párabrisas e lavasse os vidros - mais para fazer hora do que porque fosse necessário. Quando ele voltou, o carro estava pronto para prosseguir, mas ela não.

- Tenho que ir ao banheiro.
- Banheiro de posto, Rachel? Tem certeza? A gente pode parar mais adiante, num lugar mais limpinho...
- Não, Luís, a gente já perdeu um tempão aqui, vamos chegar tarde demais no hotel fazenda se formos parando como um trem da Central!

Eles riram. riram muito. Tinham usado o Parador por tantos anos... Quantas vezes pegaram aquele mesmo trem juntos, indo ou voltando da escola, rindo como agora?

- Numa boa, Lu. Eu não sou assim tão fresca - sou suburbana por dentro.
- É a primeira vez hoje que você relaxa de verdade.
- Ah, é, espertalhão? E por que?
- Você não me chama de Lu há uma década.

Ela sorriu sem graça e virou-se na direção dos banheiros. Estava trêmula, e não conseguia pensar direito. Ela realmente o tinha chamado de Lu - "um diminutivo para um nome diminuto", como ela costumava dizer, brincalhona, naquela época. Era um deslize que não poderia se repetir.

Voltou rapidamente e perguntou se poderia mesmo dirigir seu carro. Ele assentiu e ela sentou-se atrás do volante. Sempre quis dirigir aquele carro, e aproveitou a oferta dele sem inibições - sabia que era boa motorista, e pelo jeito ele também se lembrava disso.

Detrás do volante, o tempo passava mais depressa, e ela pisava fundo no acelerador, encurtando as distâncias. Ele não reclamava. Parecia até estar curtindo o momento, e eles conseguiram entabular uma conversa sobre amenidades, como a previsão do tempo para o final de semana e o resultado da megasena. Mas a tensão estava ali, e os dois sabiam que ela não desapareceria, simplesmente. Aquela tensão sobrevivera ao tempo e a distância.

Ela não iria a lugar nenhum.


(to be continued...)


quarta-feira, 16 de junho de 2010

Aconteceu no consultório (parte 5)

Naquela manhã, Marion chegou em casa com um sorriso inexplicável. E não fez questão de explicar a ninguém o motivo de ter chegado tão cedo – literalmente – em casa. Já passava de sete horas quando Ronaldo parou o carro na frente do prédio dela. Despediram-se com um beijo longo, e era claro o desejo de permanência dos dois.

-Fica mais um pouco, Marion... A gente pode ir tomar café num bistrô gostosinho lá perto de casa, e eu te trago depois.

-Ronaldo, eu já te dei todo o tempo que eu podia. Na verdade, eu já extrapolei esse tempo. Eu preciso pôr meus pés na realidade, querido.

-Ah, Marion, por favor...

-Amanhã a gente se vê. Prometo. Mas hoje eu preciso resolver a vida.

Beijaram-se novamente, e despediram-se.

O filho estava amuado, sentado à mesa do café da manhã com a avó. A mãe olhava para ela, escandalizada. “Ok, mãe, bring it! Você tem o poder de me fazer sentir a escória, mesmo quando eu estou no topo do mundo...”

-Bom dia.

-Mãe, você está bem?

-Sim, meu filho, obrigada.

-O que aconteceu, Marion? Você está chegando em casa agora, percebeu?

-Mãe, está tudo bem comigo, obrigada por ter ficado com o Nuno essa noite. A sua disponibilidade foi muito importante para mim essa noite, muito mais do que você imagina. E você, Nuno, é um garoto maravilhoso. Muito obrigada por ter me ouvido e respeitado a minha necessidade de me ausentar essa noite. Mais tarde, se você sentir necessidade, a gente conversa, ok?

-Tudo bem, mãe! Você tem o direito de sair com as suas amigas. - “Tadinho, ele já imaginou o melhor de mim... Ah, meu filho, eu não quero de você me odeie, mas eu preciso ser feliz.”

-Obrigada, meu filho. Eu amo você. De verdade.

-Eu sei, mãe. Eu também.

A mãe dela calou, depois daquilo. Ela sentia o peso das palavras não proferidas por ela, ainda assim. Ela a estava julgando, e não haveria chance de apelação. Ela já a havia condenado... E Marion não podia deixar de sentir-se suja, mesmo tendo vivido uma experiência que ia mudar sua vida. Que já havia mudado tudo dentro dela. E ela sabia que não havia mais volta. Ela estava apaixonada, e mais que isso, completamente desperta.

Era como se sentia: como se houvesse passado os últimos anos de sua vida em estado de latência, dormente, e finalmente estivesse desperta. Ela nunca havia sentido aquilo antes – era como se naquela manhã o Sool houvesse pintado com cores reais um mundo que antes tinha tons pastéis.

Era uma vida apagada. E agora, o Sol invadia cada instância da sua vida. Tudo o que ela prezava estava em jogo. Qualquer movimento seu podia significar um xeque-mate em suas verdades estabelecidas e um pontapé inicial para um novo começo. E Ronaldo não precisava necessariamente fazer parte dela. Ela simplesmente sabia que alguma coisa estava diferente, ela podia sentir em seu corpo. Estava escuro onde ela vivia antes, e seus olhos se fechavam diante do Sol.

O dia passou muito rápido. Deixou Nuno na escola, a mãe em casa:

-Você não vai me explicar nada?

-Não mãe. Eu não te devo mais explicações. Eu sou sua filha, mas sou dona do meu nariz, muito obrigada.

Ela saiu do carro bufando, e Marion seguiu com sua vida. Na defensoria o dia correu, ela tinha duas audiências logo no início da tarde, e tinha mais três ações pendentes. Estava envolvida com seu trabalho, e todos os colegas comentavam que ela estava diferente naquela manhã. Ela sabia o motivo, mas não iria dizer nada. “Eles que se mordam...” Rindo por dentro, nem olhou o visor do celular quando foi atendê-lo.

-Alô?

-Boa tarde, linda. – Era Ronaldo. Um arrepio subiu-lhe pelas costas, e ela sentiu um rubor selvagem subindo por suas faces.

-Olá... Tudo bem?

-Comigo sim. Tudo ótimo. Tudo perfeito... E você?

-Ainda me sinto sugada por um turbilhão... Mas acho que assim é a vida. No big deal. Estou com saudade. – E era verdade. Ela só se deu conta no momento em que disse aquilo. Estava mesmo com saudades dele.

-E eu de você. Marion, que tal sairmos para jantar hoje?

-Ronaldo, não posso pedir a minha mãe que durma na minha casa hoje novamente. Esse nosso jantar vai ter que esperar até amanhã.

-Então vem até ao consultório.

-Hoje?

-Agora, Marion. Eu não agüento ficar nem mais um minuto longe de você.

-Mas e os teus pacientes, Ronaldo?

-A paciente das 14h cancelou. Vem prá cá, amor.

-Tá. Chego aí em vinte minutos.

O coração disparado, Marion balbuciou uma desculpa qualquer ao seu superior direto e saiu para a rua, sinalizou para o primeiro taxi que passou e deu a direção do consultório. Chegou ao endereço, pagou ao taxista e deixou-se ficar ali, parada em frente ao edifício. Pensou por um instante na insanidade que estava cometendo, respirou fundo e entrou no elevador. “Já que vim até aqui, vou até o final. Mas isso não vai continuar assim. Eu preciso resolver isso.”

Tocou a campanhia e esperou. Ronaldo abriu a porta com um sorriso largo, os olhos nos dela – e suas dúvidas se dissiparam completamente. Ela entrou na ante-sala e lançou-se em seus braços. E ele a beijou mais uma vez, e foi como a primeira vez.

-Ronaldo, a gente precisa conversar.

-Ah, Marion... Você veio prá me dizer que o que aconteceu entre nós foi um erro. Eu sabia...

-Não, Ronaldo! Não é isso... Eu só quero conversar com você. Isso tudo é muito novo prá mim. Eu nunca tinha transado com outro homem! Eu só sabia o que era o Ivan, e agora eu me sinto intoxicada com a tua presença, você ocupa um espaço enorme na minha imaginação, e de repente acontece tudo isso... Eu nem sei o que dizer, ou como me senti, porque eu permiti que isso acontecesse – ah, Ronaldo, sei lá o quê, mas a gente precisa falar sobre isso.

-O que você quer que eu diga?

-Eu não quero nada, meu bem. Eu não sei o que eu quero. Eu sei que quero estar com você, que eu não conhecia isso que estamos vivendo, que a minha vida nunca mais vai ser a mesma! E que eu preciso decidir o que fazer.

-Eu entendo isso. Mas daqui de onde eu vejo, as coisas não são assim tão complicadas. Vem aqui, vem. Deixa eu beijar você.

Novamente ele a beijou, e por um momento as questões dela silenciaram, em respeito ao desejo, soberano. Ela sentou-se em seu colo, e ele desabotoou seu vestido com uma das mãos, enquanto tocava sua pele com a outra. Ela sentia sua vontade curvada sob o desejo dele, prisioneira de uma vontade mais forte que a sua, mais poderosa, viril. Sentiu-se desnudar em segundos – “como ele fez isso assim, tão rápido?” – e ficou de frente para ele, montada sobre seu corpo, cavalgando por sobre o tecido duro da calça jeans, beijando seu pescoço, mordendo a nuca dele com força.

-Você está me machucando, meu amor.

-Ai, desculpa...

-Sem problemas, querida. Deixa eu me livrar dessa roupa incomoda. - Sem se levantar, ele abriu o zíper da calça e tirou-a, enquanto ela tirava a camisa dele.

-Agora: onde nós estávamos?

Ela voltou a envolver os quadris dele com suas pernas, dessa vez permitindo o encaixe. Ele fechou os olhos enquanto seu pau deslizava para dentro do sexo dela, e ela prolongou esse movimento para observá-lo. Até aquilo era erótico em si, observar o homem entregue às sensações que seu corpo proporcionava a ele, deixar-se sentir também. Ela ficou ali sentava em cima dele, só olhando, admirada.

-Tudo bem? Cansou?

-Não...

Ele a puxou para perto, seus lábios pousando na curva do pescoço dela levemente, as mãos delas em suas costas tocando suavemente seus ombros, os dois num esforço conjunto de manter-se juntos, colados. Lentamente ela recomeçou os movimentos da cavalgada, e ele quis manter os olhos muito abertos, pousados nela. Não perderia por nada aquele momento, assistir à maneira como ela despertava para o sexo, para o conhecimento do corpo dele era fascinante, era como observar ao rompimento de uma crisálida muito delicada, de onde sai uma borboleta azul.

Eles não quiseram prolongar o momento indefinidamente. Nela havia uma urgência que pedia satisfação, ela não se negaria aquele êxtase, não mais – e encontrou o ritmo perfeito para que ambos gozassem rápido. Aquele sofá do Emerson era mesmo muito lindo... E também se prestava para sexo.

-Ah, meu amor, eu nem consegui me segurar.

-Eu também gozei, Ronaldo. Ainda me surpreende, essa facilidade. Nunca me pareceu tão fácil gozar.

-Não pense que para mim é difícil. Difícil é segurar o gozo quando estou com você...

-Ronaldo, eu preciso ir. Nem sei direito o que disse ao Alvarenga, pelo amor de Deus...

-Mas assim, que nem cachorro magro? Comeu e vai embora?

-Deixa disso, vai. A gente se vê amanhã.

-Dorme comigo amanhã.

-Não posso prometer nada.

-Eu preciso acordar do teu lado.

-Eu preciso ir.

Beijaram-se e ele a acompanhou até a porta. Talvez ele estivesse pegando pesado, mas era verdade. Ele queria mesmo saber como seria dormir ao lado dela. E, só prá variar, acordar do lado dela. Ele nunca tinha se apaixonado daquela maneira – nem pela primeira mulher, nem pela segunda – e achara até ali que a boa vida de cachorro vadio era ideal para ele. E agora se pegava fantasiando dormir e acordar ao lado de uma mulher novamente. E nem sentia que ela era do outro. Dentro do seu coração, Ronaldo sentia que ela era sua mulher. Ele tinha esperado por aquilo toda uma vida.

E sentiu medo.

Marion voltou para o escritório, e de lá correu para casa, só para encontrar um bilhete do filho. “Mãe: papai ligou, pediu que você retornasse – acho que a vovó falou com ele de ontem... Sei lá! Ah, e eu vou prá casa do Renan para o ensaio da banda – acho que vou dormir lá. Me liga, pô! Você esquece de carregar esse celular, né... Bj, mãe. Amo você.”

Ela sentou-se no sofá e chorou. Copiosamente. Estava dando adeus àquela estabilidade. “Provavelmente o Nuno nem vai querer ir morar comigo – e o Ivan com toda a certeza nunca mais olha na minha cara! Nem no dia da formatura do nosso filho! Nem no caixão ele olha prá mim... Que merda, Marion... Que merda.” Deixou-se aquietar pelas lágrimas, respirou fundo e ligou para o marido. Ele disse rapidamente que estava no meio de uma reunião, que na Costa Oeste esses meetings tardios eram coisa comum, e que ele provavelmente ainda ficaria fora por pelo menos mais duas semanas, perguntou como estavam as coisas – era uma conversa bem corriqueira, de fato. Ela manteve a conversa assim mesmo. Não iria complicar as coisas à distância.

Ligou para Nuno em seguida. Conversou com o filho como quem conversa com alguém a quem ama e não vê há tempos. Ele percebeu que a mãe estava estranha. Ela achou estranho que o marido não tivesse percebido nada. “Talvez não tenha querido dizer nada, isso sim.” O filho tinha resolvido dormir na casa do amigo. Depois de falar com Tânia, a mãe de Renan, e certificar-se de que não seria inconveniente – e de recomendar um milhão de vezes que o filho fosse um bom hóspede, despediu-se longamente. O rapaz achou aquilo o fim:

-Ô, mãe! Cadê a objetividade? Amanhã a gente se vê!

-Tá bem, apressadinho, boa noite!

Desligaram. E ela chorou mais um pouco.

-Alô?

-Oi...

-Marion!

-Você ainda quer que eu vá até aí, dormir com você?

-Ah, é tudo o que eu quero...

-Chego aí em quinze minutos.

-Eu vou buscá-la!

-Não precisa. A gente perde mais tempo do que se eu pegar um taxi, ok?

-Estou te esperando, meu amor.

-J’arrive, mon chère.

E então eles passaram a noite nos braços um do outro. E não só naquela noite, como em algumas outras noites naquele período em que Ivan estava fora. Num fim de semana em que o filho viajou com os amigos, e durante a semana, nos dias em que ele dormia na casa da avó, e em todos os momentos que podiam ficar juntos – dormiam e acordavam juntos.

Por mais duas semanas esse idílio continuou, e Marion estava decidida. E Ronaldo sabia disso. Eles conversaram longamente sobre tudo o que ela precisava fazer, algumas vezes discordando, outras entrando em acordo. O importante era a decisão. E os preparatórios.

Finalmente, o dia do retorno de Ivan chegara. Marion teria uma longa semana pela frente – mas estava tudo encaminhado. Ela já tinha encontrado um apartamento para si, e já havia tido a conversa mais difícil de sua vida com Nuno. Ambos feridos, ambos assustados. E os dois chocados com a resolução dela.

-Porra, mãe! Você não pode simplesmente ter um amante, como todo mundo por aí? E eu, mãe? Eu tô apavorado, mãe!

-Meu filho... Eu também. E estou cansada de tanto chorar, e de tanto me culpar, e de tanto me sentir um lixo. Eu não posso fazer isso. Não com você, nem com seu pai, e muito menos comigo.

Ela resolveu dar ao marido um tempo para se ambientar. E pediu que Ronaldo tivesse paciência por uns dois dias. Ele dizia que o marido ia querer transar com ela, e que isso estava acabando com ele. E ela dizia que essa era a última coisa com que ele deveria se preocupar.

A dor que sentiu por partir o coração daquele homem matou uma parte de si. Ela sentiu-se morrer, e sabia que estava matando uma parte dele também. Choraram tanto, e sofreram juntos por todos aqueles anos deixados para trás. Mas ele ainda olhava em seus olhos quando finalmente a conversa perdeu o sentido.

-Eu sempre vou amar você, Ivan.

-Para sempre e mais um dia, Marion.

Ficaram abraçados muito tempo, e ela tirou do peito aquele peso absurdo que a acompanhara todo aquele tempo. Era a hora da mudança, do desapego, do desconforto. Era chegada a hora de se lançar...


(to be ended)

As regras do rolê

As regras do rolê são bastantes simples: Fode, mas não se apaixona. Se apaixonar, não fode mais, pra não se foder depois. Tudo o que te ...