Acordei sentindo cheiro de chuva, ouvindo o tamborilar nas vidraças das janelas. Deixei-me ficar preguiçosa, os olhos fechados, imaginando a temperatura agradável, a terra molhada, o trânsito caótico obrigando as pessoas a reduzirem a velocidade e darem-se conta do milagre que é a chuva. Sorri, e foi um sorriso frio e melancólico, como aqueles sorrisos de velório, que nada mais são que a sombra das lágrimas que passaram e o prenúncio das que virão.
Lenta, ainda entorpecida pelo sono, espreguicei: ritmo de domingo em plena terça-feira. O corpo foi ganhando vontade, pedindo movimento, e eu fui cedendo o meu desejo de ficar ali ao seu apelo imperativo.
O perfume quente da terra molhada, será que eu imaginei? A percussão das gotas miraculosas no parapeito, foi o som da minha memória que eu ouvi? Abri os olhos para um dia azul, céu de brigadeiro, nem nuvens. Procurei no horizonte vestígios, mas nada havia lá.
A tempestade estava aqui, dentro de mim.
quinta-feira, 5 de abril de 2012
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Canvas
Você é essa linda tela, onde eu pintei minhas ilusões de amor.
(É fato, eu não deveria tê-lo feito, mas é assim que eu sou. Eu pinto.)
Há muito mérito em se continuar as pinceladas de outros artistas, mesmo que a opinião pública diga o contrário. É tão difícil imaginar o que o autor queria dizer ou mostrar ao mundo com o seu trabalho... Contudo, sou muito dedicado, e não desisto jamais! Sei que posso ir mais longe, e que de alguma forma a minha criação será ainda mais surpreendente do que pretendia o seu antigo mentor.
Digo isso porque sei que obras de arte são projeções de uma realidade subjacente, oculta de nossos olhos carnais. É preciso enxergar através da tela, para além do espaço restrito em canvas, e usar nossos olhos de ver. Mesmo quando pensamos estar observando uma pintura que retrata uma cena real, um momento recortado do presente, há sempre algo a mais, como a luz que emana dos olhos dos personagens, ou mesmo o modo como o vento sopra suavemente as folhas de uma árvore ao fundo... É muito difícil explicar esse tipo de coisa a alguém. É muito pessoal.
Então eu desenvolvi essa habilidade: eu encontro pinturas incompletas, passo dias a observá-las, e de repente chega o momento em que decido continuá-la. De onde o outro parou, sem nenhum artifício além de meus pincéis e tintas. As pinturas falam comigo, e eu lhes dou voz.
Com você não foi diferente, e eu fiquei encantado quando te encontrei. Você parecia tão frágil, tão simples, e ainda assim tão cheia de nuances! Não pude dormir ou comer até que me dissesse que viria comigo. Abri as portas de minha casa e de meu coração para que fizesse deles sua morada, e dali em diante, passei a reinterpretá-la, como a uma de minhas obras. Levei muito tempo pensando em como destacar a profundidade dos teus olhos, as pequenas linhas de expressão em torno deles como molduras delicadas, a linha perfeitamente arqueada das suas pálpebras curiosas, o brilho intenso dos teus olhares misteriosos, tão inocentes quanto sábios, as ondas revoltas de seus cabelos longos, negros como a noite. Trabalhei determinado, sem descanso, e construí todas as minhas decisões artísticas sobre o que julgava ser um esboço em construção.
Precisei de 10 anos irrecuperáveis de minha vida para reunir a coragem de te dizer aquilo que eu já desconfiava, mas nunca ousara enunciar: você era um trabalho desbotado, mais que completo, já tão castigado pelos anos e maus cuidados que seria impossível fazer qualquer reinterpretação.
Você nunca precisou de reintérprete, querida. Você precisa desesperadamente de restaurador. Essa não é a minha área de atuação. E você devia ter a decência de avisar aos poucos incautos que ainda tiverem coragem para investir em você - para poupar-lhes o tempo.
Então eu desenvolvi essa habilidade: eu encontro pinturas incompletas, passo dias a observá-las, e de repente chega o momento em que decido continuá-la. De onde o outro parou, sem nenhum artifício além de meus pincéis e tintas. As pinturas falam comigo, e eu lhes dou voz.
Com você não foi diferente, e eu fiquei encantado quando te encontrei. Você parecia tão frágil, tão simples, e ainda assim tão cheia de nuances! Não pude dormir ou comer até que me dissesse que viria comigo. Abri as portas de minha casa e de meu coração para que fizesse deles sua morada, e dali em diante, passei a reinterpretá-la, como a uma de minhas obras. Levei muito tempo pensando em como destacar a profundidade dos teus olhos, as pequenas linhas de expressão em torno deles como molduras delicadas, a linha perfeitamente arqueada das suas pálpebras curiosas, o brilho intenso dos teus olhares misteriosos, tão inocentes quanto sábios, as ondas revoltas de seus cabelos longos, negros como a noite. Trabalhei determinado, sem descanso, e construí todas as minhas decisões artísticas sobre o que julgava ser um esboço em construção.
Precisei de 10 anos irrecuperáveis de minha vida para reunir a coragem de te dizer aquilo que eu já desconfiava, mas nunca ousara enunciar: você era um trabalho desbotado, mais que completo, já tão castigado pelos anos e maus cuidados que seria impossível fazer qualquer reinterpretação.
Você nunca precisou de reintérprete, querida. Você precisa desesperadamente de restaurador. Essa não é a minha área de atuação. E você devia ter a decência de avisar aos poucos incautos que ainda tiverem coragem para investir em você - para poupar-lhes o tempo.
quinta-feira, 29 de março de 2012
Once upon a time...
Era um sapo comum. Não era príncipe nem poderia transformar-se em outra coisa. Uma vez já fora larva, nos tempos idos antes de sua metamorfose. Mas nem disso se lembrava. Talvez o tivessem chamado girino, e ele de nada saberia. Vivia à beira daquele lago, onde fora gerado, e onde tinha a possibilidade de, quem sabe, encontrar uma sua irmã disposta a parear cromossomos consigo, e depositar na mesma margem os ovos de sua descendência.
Contudo, a vida das criaturas é joguete nas mãos do destino, e naquela gloriosa manhã de outono a vida do sapo iria sofrer um golpe fatal.
Ele comia seus insetos matinais sentado sobre uma pedra da margem do lago, esquentando ao Sol, totalmente alheio à estrada que cortava os vales por detrás daquela clareira. Enquanto isso, dois caminhões amarelos seguiam pela estrada, transportando azeite português. O motorista do primeiro carro vinha distraído, conversando ao rádio com Cleonice, a dona do posto de gasolina. Mal se concentrava na direção, tão interessado estava em conquistar as atenções daquela mulata de parar o trânsito. Ele ria forçadamente de suas piadas quando engasgou-se, e estendeu a mão direita para pegar um copo d'água, no momento em que a estrada fazia uma curva fechada para a esquerda. Perdendo o controle da direção, ele livrou-se do cinto de segurança e pulou para fora rapidamente, deixando que o veículo saísse da pista e invadisse a clareira. O segundo motorista, com presença de espírito, conseguiu evitar a situação e parou seu caminhão mais adiante para ajudar seu colega imprudente.
Por sorte deles, e azar do sapo, o caminhão ficou quase intacto. Caiu dentro do lago, arrastando terra e pedras junto com ele - e esmagando o corpo do infeliz animal contra o fundo, debaixo da roda dianteira direita.
Contudo, a vida das criaturas é joguete nas mãos do destino, e naquela gloriosa manhã de outono a vida do sapo iria sofrer um golpe fatal.
Ele comia seus insetos matinais sentado sobre uma pedra da margem do lago, esquentando ao Sol, totalmente alheio à estrada que cortava os vales por detrás daquela clareira. Enquanto isso, dois caminhões amarelos seguiam pela estrada, transportando azeite português. O motorista do primeiro carro vinha distraído, conversando ao rádio com Cleonice, a dona do posto de gasolina. Mal se concentrava na direção, tão interessado estava em conquistar as atenções daquela mulata de parar o trânsito. Ele ria forçadamente de suas piadas quando engasgou-se, e estendeu a mão direita para pegar um copo d'água, no momento em que a estrada fazia uma curva fechada para a esquerda. Perdendo o controle da direção, ele livrou-se do cinto de segurança e pulou para fora rapidamente, deixando que o veículo saísse da pista e invadisse a clareira. O segundo motorista, com presença de espírito, conseguiu evitar a situação e parou seu caminhão mais adiante para ajudar seu colega imprudente.
Por sorte deles, e azar do sapo, o caminhão ficou quase intacto. Caiu dentro do lago, arrastando terra e pedras junto com ele - e esmagando o corpo do infeliz animal contra o fundo, debaixo da roda dianteira direita.
sexta-feira, 9 de março de 2012
Ingenuidades
Sempre acreditara ser aquele tipo de mulher de quem os homens fazem gato e sapato. Jamais em toda sua vida soubera dizer não a quem quer que fosse, quanto mais a um homem por quem sentisse amor. E desta forma, seguiu sendo pilhada por toda a sua existência: ora o marido, ora o filho, ora o chefe, todos, sem exceção, conseguiram dela tudo o que desejaram.
Era assim que ela enxergava o mundo, e talvez sua mãe tivesse alguma culpa, por ter ela mesma sido sempre submissa e subordinada ao marido, seu padrasto. Ela nunca soubera que mulheres pudessem ser fortes, donas de si, ter desejos próprios e e até mesmo decidir o que fazer da sua vida.
Havia chegado o dia do casamento de seu único filho, Adalberto - conhecido por todos como Júnior, uma vez que fora nomeado como seu pai. Ela achava de uma falta de imaginação sem precedentes, nomear crianças como a seus pais, mas não pudera dizer que não ao marido, e chamara ao menino Jr toda a vida, a única insubordinação de que fora capaz. Estava vestida, penteada e maquiada de forma impecável, e via refletida no espelho uma bela mulher, jovem para seus 53 anos. Estava emocionadíssima, e esperava o momento de entrar na igreja com o filho, enquanto a família de sua nora corria de um lado para o outro, todos extremamente nervosos. Imaginou ser essa a atribuição da mãe da noiva, esse preocupar-se excessivo. Olhava curiosa toda aquela aflição reinante, mas desistira de oferecer-lhes alguma ajuda. Para Dona Yolanda, mãe da Narinha, era quase uma competição entre elas, para descobrir quem era a melhor mãe, e ela já lamentava por seu filho, genro daquele trator humano! Ria-se de tudo internamente, porque sabia que, apesar de toda a histeria, eram todos muito boas pessoas, e seu netinho ou netinha seria muito feliz por viver no meio de todos eles. Estava assim, absorta em seus pensamentos, quando ouviu a voz de Adalberto, o pai, chamando-a:
- Ezilda, venha cá, mulher! Está fazendo o quê aí?
- Já vou, meu bem!
- Por que você estava ali, criatura? - Adalberto lhe perguntou, exaltado. Ele sempre ficava indignado quando ela ficava à toa. Era quase uma afronta a ele, era como ela percebia, se ela ficasse sem o que fazer, nem que fosse por cinco minutos.
- Ora, Beto! Haja paciência... Você não viu que eu ofereci ajuda a D. Yolanda? Ela insistiu que não precisava, então, fiquei olhando.
- Ora, mulher... Acha-se logo o que fazer! Vai lá ver se o Betinho não está precisando de alguma coisa, vai.
Ela apenas meneou a cabeça, e foi ter com o filho. Para o marido ela era como uma emissária, a quem ele enviava onde queria, para fins de sua representação. Nunca pensava nisso, mas achava muito chato ter que servi-lo todas as vezes, com um sorriso no rosto. E ele, o que teria que dar-lhe em troca por tanta dedicação? Ah, isso ela bem sabia: todas aquelas amantes, o filho da Outra que ele se recusara a registrar, a quem ela reconhecera e amadrinhara desde pequerrucho, o risco de bancarrota por suas dívidas de jogo, e um sem número de eventos em que se metera. Essa era a paga que ela merecia...
Percebendo a nuvem escura que se colocava sobre seus olhos enquanto lembrava desdes incidentes, sacudiu a cabeça como quem espantava um mosquito inconveniente e sorriu para o Jr. Seu filhote estava lindo, um homem feito com olhos de menino... apavorado! Ela ficou alarmada imediatamente, e correu em sua direção, solícita.
- O que houve, Jr?
- Mamãe, eu acho que a Narinha desistiu do casamento.
- Agora, meu filho? Na hora de cerimônia?
- É, mãe, agora, agorinha! - retrucou Jr exasperado. Eu escutei o que não devia, D. Yolanda aos berros com ela no telefone, dizendo que parasse com a criancice, saísse daquele quarto e viesse já - mas eu ouvi ela dizendo que não viria, que não queria nem me ver, que o nosso filho teria pai, mas ela não queria marido de jeito nenhum. É o fim, mamãe. Ela não quer viver comigo. Ela prefere ficar sozinha do que viver comigo...
Ezilda abraçou o filho, enquanto tentava inutilmente compreender o que ele dissera. "O que ele quis dizer com não quer casar comigo? Então Narinha enlouqueceu? Será possível uma mulher ter um filho sem pai, por Deus?" Esses pensamentos passavam rapidamente por sua cabeça, ela ficou zonza e não soube a princípio que juízo fazer do que lhe fora dito. Limitou-se a olhar seu filho nos olhos e garantir que tudo daria certo. Alguma coisa estava acontecendo na sua cabeça, mas não daria atenção àquilo naquele momento. Foi até onde estava D. Yolanda e disse:
- Querida, eu preciso falar com a Narinha.
- Está tudo sob controle, Ezilda, eu lhe asseguro. - Então Ezilda foi mais assertiva.
- Yolanda, meu amor, eu vou falar com a Narinha agora, ok? Onde ela está?
Dona Yolanda parecia petrificada, e como nunca tinha visto "Ezildinha" falar daquela maneira, aquiesceu. Deu um suspiro profundo, e dando de ombros, ofereceu-se para acompanhá-la até o quarto da casa de festas onde a noiva estava se arrumando. Por todo o caminho foi oferecendo explicações, entre muxoxos, justificando que esses jovens eram assim, inconsequentes, que essas coisas de medo eram assim mesmo, que no final tudo daria certo, mas Ezilda não estava escutando. Ela sabia o que tinha que dizer a quase-futura-ex-nora, e o faria. Quando chegaram na porta do quarto, Yolanda fez que ia bater na porta para chamar a filha, mas Ezilda cortou seu gesto, imperativa.
- Eu assumo daqui, obrigada, Yolanda. Vai dar tudo certo, de alguma forma. - Diante do silêncio perplexo da outra, Ezilda bateu na porta, anunciando-se:
- Narinha, sou eu, Ezilda. Vou entrar, querida. - ela não estava ali para brincadeiras, era a felicidade do filho e do neto que estavam em jogo, e não ouviria nenhuma negativa da noiva. Virou a maçaneta e entrou no quarto, decidida. Encontrou a menina jogada sobre a cama, os cabelos desalinhados, a maquiagem borrada, em prantos. Abraçou a Nara e permitiu que a pobrezinha terminasse de se lamentar em seu ombro. Entre soluços, ela desabafou:
- Dona Ezilda, a senhora me perdoa? Será que seu Adalberto vai me perdoar também? Ah, dona Ezilda, eu não sei mais de nada, eu não sei o que fazer! A senhora já imaginou o que vai acontecer quando o Júnior perceber a merda que fez e me abandonar? - e dito isso, desabou novamente em lágrimas. Ezilda sorriu e apertou a menina em seus braços. "Quanta bobagem a gente pensa quando está grávida..."
- Minha filha... você atinou na quantidade de asneiras que você me disse nesse minutinho desde que eu entrei aqui? - e continuou, sob o olhar atônito de Nara - Minha criança, o Jr é completamente apaixonado por você! Você acha que ele não se casaria com você se não fosse pela gravidez? Ora, Narinha... deixe de ingenuidade, esses são outros tempos! Meu filho casaria com você de qualquer maneira. Talvez não tão logo, talvez mais um ano, ou dois - mas tenho certeza de que, no coração dele, você é a escolhida! Para que tantas inseguranças, meu anjinho? Você ama o meu filho?
- Ai, dona Ezilda... a senhora sabe que eu sou louca pelo Júnior.
- E você duvida no seu coração que possa ser feliz com ele, ou que ele possa ser feliz do seu lado?
- Não, minha sogra! Eu não posso imaginar a minha vida sem o Júnior...
- Eu sei disso, minha filha. Ninguém se casa com um homem que se chame Adalberto sem ter certeza absoluta de que é isso que deseja. Agora, vamos dar um jeitinho em você, e eu te garanto que quando você chegar naquele salão ele nem vai se lembrar que você está esperando criança!
A menina sorriu, meio envergonhada, e permitiu que a sogra lhe penteasse os cabelos, refizesse sua maquiagem e ajeitasse o véu e o vestido. Quando Ezilda deixou aquele quarto, Narinha estava pronta para dizer sim ao Jr, e até Yolanda, embora não gostasse de dar-se por vencida, estava agradecida àquela mulher intrometida que salvara a situação. Ezilda foi até seu filho, deixou que ele tomasse seu braço e a conduzisse ao altar montado no meio do salão, para tomar seu lugar ao lado de Adalberto, o pai. A cerimônia foi lindíssima, os noivos muito emocionados, o filho feliz como nunca tinha visto, a nora radiante, toda a felicidade do casal transbordando sobre os convidados. Ezilda não se lembrava de ter presenciado um casamento mais bonito - nem mesmo o seu. Até que ela fixou o olhar na fileira do fundo, e sentiu um arrepio subir-lhe a espinha. Sentada ali, assistindo a cerimônia, estava a Outra - a amante do marido, mãe de seu afilhado! Ela olhou novamente, não sem antes piscar, num esforço para certificar-se de que era real. O rapazote, irmão de Jr, estava agora com dezesseis anos, e era a cópia esculpida de seu pai, o marido dela. Ela gostava muito do Anselmo, mas vê-lo ali, no casamento do Jr, e ainda por cima acompanhado de sua mãe, aquilo foi um pouco demais para ela. Coisa do marido, tinha certeza. E nunca uma decisão dele pareceu-lhe tão audaciosa!
Aquela zonzeira que ela experimentara antes, quando o filho lhe falou da desistência da noiva, aqueles pensamentos que não concatenavam, agora formavam uma imagem muito clara em sua mente. Ela entendeu num relance porque tinha ficado tão incomodada com a ideia louca da Nara. "Eu tenho escolha", ela pensou, e viu tudo claramente. Todas aquelas humilhações que sofrera, nunca mais. O medo do abandono, nunca mais. A dor da perda iminente, nunca mais.
A festa se desenrolou suave e deslumbrante, todos dançando e se divertindo até a madrugada. Ela mesma foi pessoalmente cumprimentar o afilhado e sua mãe, sorrindo e muito cordial. O próprio Anselmo lembrou-se depois que sua madrinha nunca tinha sido tão gentil com sua mãe antes, e o marido ficou encantado, imaginando todos os possíveis desdobramentos positivos dessa nova atitude de Ezilda para consigo. Quando os esposos resolveram deixar a festa, ela abraçou os dois ternamente, e desejou-lhes uma vida inteira de cuidados mútuos e muita gentileza. Recomendou ao filho que fosse sempre bom companheiro para a esposa, e que nunca, nunca a decepcionasse. Sorriu para a nora, abençoou a ela e ao seu ventre, onde o minúsculo embrião repousava, imperceptível, e deixou que seguissem.
Esperou até a hora em que Adalberto veio a seu encontro, depois de ter dançado quase a noite toda com a Outra, já meio alto e aos gritos.
- Ei, Ezilda, minha filha! Venha cá, vamos para casa.
- Não.
- O quê?
- Não, Adalberto. Você não vai para casa comigo.
- Como assim, mulher? O que você pensa que vai fazer, criatura?
- Eu vou ser feliz sozinha, porque com você já faz muitos anos não sou. Nem sei se fui, um dia.
- E quem te disse que você pode fazer uma coisa dessas, falar assim comigo?! Eu sou teu marido, criatura!
- Mas não é meu dono, e eu não sou obrigada a ficar do teu lado, nunca mais. Olha só, nós já criamos nosso filho, ele já é dono de seu nariz e logo será pai. Não existe motivo na face da Terra para que eu durma sequer mais uma noite ao teu lado, estrupício! Eu deixo as tuas coisas na porta da frente amanhã. - deu-lhe as costas, resoluta.
- Mas mulher, pelo amor de Deus, para onde eu vou?
- Não me interessa.
- Mas o que houve, criatura?
- Ah, Adalberto, eu descobri uma coisa hoje. E o tempo da minha ingenuidade acabou.
Ela seguiu em frente, deixando para trás um Adalberto perplexo e descrente, a Outra lívida e assustada, e Anselmo, seu afilhado, às gargalhadas.
- Ô, dinda!
- Diga, meu querido?
- A que horas eu posso passar lá na sua casa para pegar as coisas do papai, amanhã?
- Passe depois das 11h, meu filho, e almoce comigo, sim?
- Tá combinado, dinda!
E enquanto ela seguia em frente, acenando bem alto um adeusinho a Anselmo, ele virou-se para o pai e disse, assim entre dentes:
- Perdeu, playboy!
Era assim que ela enxergava o mundo, e talvez sua mãe tivesse alguma culpa, por ter ela mesma sido sempre submissa e subordinada ao marido, seu padrasto. Ela nunca soubera que mulheres pudessem ser fortes, donas de si, ter desejos próprios e e até mesmo decidir o que fazer da sua vida.
Havia chegado o dia do casamento de seu único filho, Adalberto - conhecido por todos como Júnior, uma vez que fora nomeado como seu pai. Ela achava de uma falta de imaginação sem precedentes, nomear crianças como a seus pais, mas não pudera dizer que não ao marido, e chamara ao menino Jr toda a vida, a única insubordinação de que fora capaz. Estava vestida, penteada e maquiada de forma impecável, e via refletida no espelho uma bela mulher, jovem para seus 53 anos. Estava emocionadíssima, e esperava o momento de entrar na igreja com o filho, enquanto a família de sua nora corria de um lado para o outro, todos extremamente nervosos. Imaginou ser essa a atribuição da mãe da noiva, esse preocupar-se excessivo. Olhava curiosa toda aquela aflição reinante, mas desistira de oferecer-lhes alguma ajuda. Para Dona Yolanda, mãe da Narinha, era quase uma competição entre elas, para descobrir quem era a melhor mãe, e ela já lamentava por seu filho, genro daquele trator humano! Ria-se de tudo internamente, porque sabia que, apesar de toda a histeria, eram todos muito boas pessoas, e seu netinho ou netinha seria muito feliz por viver no meio de todos eles. Estava assim, absorta em seus pensamentos, quando ouviu a voz de Adalberto, o pai, chamando-a:
- Ezilda, venha cá, mulher! Está fazendo o quê aí?
- Já vou, meu bem!
- Por que você estava ali, criatura? - Adalberto lhe perguntou, exaltado. Ele sempre ficava indignado quando ela ficava à toa. Era quase uma afronta a ele, era como ela percebia, se ela ficasse sem o que fazer, nem que fosse por cinco minutos.
- Ora, Beto! Haja paciência... Você não viu que eu ofereci ajuda a D. Yolanda? Ela insistiu que não precisava, então, fiquei olhando.
- Ora, mulher... Acha-se logo o que fazer! Vai lá ver se o Betinho não está precisando de alguma coisa, vai.
Ela apenas meneou a cabeça, e foi ter com o filho. Para o marido ela era como uma emissária, a quem ele enviava onde queria, para fins de sua representação. Nunca pensava nisso, mas achava muito chato ter que servi-lo todas as vezes, com um sorriso no rosto. E ele, o que teria que dar-lhe em troca por tanta dedicação? Ah, isso ela bem sabia: todas aquelas amantes, o filho da Outra que ele se recusara a registrar, a quem ela reconhecera e amadrinhara desde pequerrucho, o risco de bancarrota por suas dívidas de jogo, e um sem número de eventos em que se metera. Essa era a paga que ela merecia...
Percebendo a nuvem escura que se colocava sobre seus olhos enquanto lembrava desdes incidentes, sacudiu a cabeça como quem espantava um mosquito inconveniente e sorriu para o Jr. Seu filhote estava lindo, um homem feito com olhos de menino... apavorado! Ela ficou alarmada imediatamente, e correu em sua direção, solícita.
- O que houve, Jr?
- Mamãe, eu acho que a Narinha desistiu do casamento.
- Agora, meu filho? Na hora de cerimônia?
- É, mãe, agora, agorinha! - retrucou Jr exasperado. Eu escutei o que não devia, D. Yolanda aos berros com ela no telefone, dizendo que parasse com a criancice, saísse daquele quarto e viesse já - mas eu ouvi ela dizendo que não viria, que não queria nem me ver, que o nosso filho teria pai, mas ela não queria marido de jeito nenhum. É o fim, mamãe. Ela não quer viver comigo. Ela prefere ficar sozinha do que viver comigo...
Ezilda abraçou o filho, enquanto tentava inutilmente compreender o que ele dissera. "O que ele quis dizer com não quer casar comigo? Então Narinha enlouqueceu? Será possível uma mulher ter um filho sem pai, por Deus?" Esses pensamentos passavam rapidamente por sua cabeça, ela ficou zonza e não soube a princípio que juízo fazer do que lhe fora dito. Limitou-se a olhar seu filho nos olhos e garantir que tudo daria certo. Alguma coisa estava acontecendo na sua cabeça, mas não daria atenção àquilo naquele momento. Foi até onde estava D. Yolanda e disse:
- Querida, eu preciso falar com a Narinha.
- Está tudo sob controle, Ezilda, eu lhe asseguro. - Então Ezilda foi mais assertiva.
- Yolanda, meu amor, eu vou falar com a Narinha agora, ok? Onde ela está?
Dona Yolanda parecia petrificada, e como nunca tinha visto "Ezildinha" falar daquela maneira, aquiesceu. Deu um suspiro profundo, e dando de ombros, ofereceu-se para acompanhá-la até o quarto da casa de festas onde a noiva estava se arrumando. Por todo o caminho foi oferecendo explicações, entre muxoxos, justificando que esses jovens eram assim, inconsequentes, que essas coisas de medo eram assim mesmo, que no final tudo daria certo, mas Ezilda não estava escutando. Ela sabia o que tinha que dizer a quase-futura-ex-nora, e o faria. Quando chegaram na porta do quarto, Yolanda fez que ia bater na porta para chamar a filha, mas Ezilda cortou seu gesto, imperativa.
- Eu assumo daqui, obrigada, Yolanda. Vai dar tudo certo, de alguma forma. - Diante do silêncio perplexo da outra, Ezilda bateu na porta, anunciando-se:
- Narinha, sou eu, Ezilda. Vou entrar, querida. - ela não estava ali para brincadeiras, era a felicidade do filho e do neto que estavam em jogo, e não ouviria nenhuma negativa da noiva. Virou a maçaneta e entrou no quarto, decidida. Encontrou a menina jogada sobre a cama, os cabelos desalinhados, a maquiagem borrada, em prantos. Abraçou a Nara e permitiu que a pobrezinha terminasse de se lamentar em seu ombro. Entre soluços, ela desabafou:
- Dona Ezilda, a senhora me perdoa? Será que seu Adalberto vai me perdoar também? Ah, dona Ezilda, eu não sei mais de nada, eu não sei o que fazer! A senhora já imaginou o que vai acontecer quando o Júnior perceber a merda que fez e me abandonar? - e dito isso, desabou novamente em lágrimas. Ezilda sorriu e apertou a menina em seus braços. "Quanta bobagem a gente pensa quando está grávida..."
- Minha filha... você atinou na quantidade de asneiras que você me disse nesse minutinho desde que eu entrei aqui? - e continuou, sob o olhar atônito de Nara - Minha criança, o Jr é completamente apaixonado por você! Você acha que ele não se casaria com você se não fosse pela gravidez? Ora, Narinha... deixe de ingenuidade, esses são outros tempos! Meu filho casaria com você de qualquer maneira. Talvez não tão logo, talvez mais um ano, ou dois - mas tenho certeza de que, no coração dele, você é a escolhida! Para que tantas inseguranças, meu anjinho? Você ama o meu filho?
- Ai, dona Ezilda... a senhora sabe que eu sou louca pelo Júnior.
- E você duvida no seu coração que possa ser feliz com ele, ou que ele possa ser feliz do seu lado?
- Não, minha sogra! Eu não posso imaginar a minha vida sem o Júnior...
- Eu sei disso, minha filha. Ninguém se casa com um homem que se chame Adalberto sem ter certeza absoluta de que é isso que deseja. Agora, vamos dar um jeitinho em você, e eu te garanto que quando você chegar naquele salão ele nem vai se lembrar que você está esperando criança!
A menina sorriu, meio envergonhada, e permitiu que a sogra lhe penteasse os cabelos, refizesse sua maquiagem e ajeitasse o véu e o vestido. Quando Ezilda deixou aquele quarto, Narinha estava pronta para dizer sim ao Jr, e até Yolanda, embora não gostasse de dar-se por vencida, estava agradecida àquela mulher intrometida que salvara a situação. Ezilda foi até seu filho, deixou que ele tomasse seu braço e a conduzisse ao altar montado no meio do salão, para tomar seu lugar ao lado de Adalberto, o pai. A cerimônia foi lindíssima, os noivos muito emocionados, o filho feliz como nunca tinha visto, a nora radiante, toda a felicidade do casal transbordando sobre os convidados. Ezilda não se lembrava de ter presenciado um casamento mais bonito - nem mesmo o seu. Até que ela fixou o olhar na fileira do fundo, e sentiu um arrepio subir-lhe a espinha. Sentada ali, assistindo a cerimônia, estava a Outra - a amante do marido, mãe de seu afilhado! Ela olhou novamente, não sem antes piscar, num esforço para certificar-se de que era real. O rapazote, irmão de Jr, estava agora com dezesseis anos, e era a cópia esculpida de seu pai, o marido dela. Ela gostava muito do Anselmo, mas vê-lo ali, no casamento do Jr, e ainda por cima acompanhado de sua mãe, aquilo foi um pouco demais para ela. Coisa do marido, tinha certeza. E nunca uma decisão dele pareceu-lhe tão audaciosa!
Aquela zonzeira que ela experimentara antes, quando o filho lhe falou da desistência da noiva, aqueles pensamentos que não concatenavam, agora formavam uma imagem muito clara em sua mente. Ela entendeu num relance porque tinha ficado tão incomodada com a ideia louca da Nara. "Eu tenho escolha", ela pensou, e viu tudo claramente. Todas aquelas humilhações que sofrera, nunca mais. O medo do abandono, nunca mais. A dor da perda iminente, nunca mais.
A festa se desenrolou suave e deslumbrante, todos dançando e se divertindo até a madrugada. Ela mesma foi pessoalmente cumprimentar o afilhado e sua mãe, sorrindo e muito cordial. O próprio Anselmo lembrou-se depois que sua madrinha nunca tinha sido tão gentil com sua mãe antes, e o marido ficou encantado, imaginando todos os possíveis desdobramentos positivos dessa nova atitude de Ezilda para consigo. Quando os esposos resolveram deixar a festa, ela abraçou os dois ternamente, e desejou-lhes uma vida inteira de cuidados mútuos e muita gentileza. Recomendou ao filho que fosse sempre bom companheiro para a esposa, e que nunca, nunca a decepcionasse. Sorriu para a nora, abençoou a ela e ao seu ventre, onde o minúsculo embrião repousava, imperceptível, e deixou que seguissem.
Esperou até a hora em que Adalberto veio a seu encontro, depois de ter dançado quase a noite toda com a Outra, já meio alto e aos gritos.
- Ei, Ezilda, minha filha! Venha cá, vamos para casa.
- Não.
- O quê?
- Não, Adalberto. Você não vai para casa comigo.
- Como assim, mulher? O que você pensa que vai fazer, criatura?
- Eu vou ser feliz sozinha, porque com você já faz muitos anos não sou. Nem sei se fui, um dia.
- E quem te disse que você pode fazer uma coisa dessas, falar assim comigo?! Eu sou teu marido, criatura!
- Mas não é meu dono, e eu não sou obrigada a ficar do teu lado, nunca mais. Olha só, nós já criamos nosso filho, ele já é dono de seu nariz e logo será pai. Não existe motivo na face da Terra para que eu durma sequer mais uma noite ao teu lado, estrupício! Eu deixo as tuas coisas na porta da frente amanhã. - deu-lhe as costas, resoluta.
- Mas mulher, pelo amor de Deus, para onde eu vou?
- Não me interessa.
- Mas o que houve, criatura?
- Ah, Adalberto, eu descobri uma coisa hoje. E o tempo da minha ingenuidade acabou.
Ela seguiu em frente, deixando para trás um Adalberto perplexo e descrente, a Outra lívida e assustada, e Anselmo, seu afilhado, às gargalhadas.
- Ô, dinda!
- Diga, meu querido?
- A que horas eu posso passar lá na sua casa para pegar as coisas do papai, amanhã?
- Passe depois das 11h, meu filho, e almoce comigo, sim?
- Tá combinado, dinda!
E enquanto ela seguia em frente, acenando bem alto um adeusinho a Anselmo, ele virou-se para o pai e disse, assim entre dentes:
- Perdeu, playboy!
domingo, 12 de fevereiro de 2012
A quem interessar possa
Estou organizando minha vida de modo que haja tempo para este blog. Agradeço a todos que me visitam pela paciência, e peço desculpas pela ausência. Acredito que daqui para frente vocês voltarão a encontrar de tudo um pouco por aqui, com alguma freqüência, como dantes.
Muitos beijinhos, grandes e pequenininhos... :)
Muitos beijinhos, grandes e pequenininhos... :)
Isso é só uma carta
Paloma, minha pequenina flor de laranjeira:
Desde a manhã em que a deixei sozinha neste enorme apartamento onde nós vivemos juntos por lindos e mágicos 10 meses, tenho pensado em vão nas melhores palavras, aquelas que não deixariam dúvidas a respeito dos meus motivos - e como um bônus, te trariam alguma paz. Agora eu sei, tais palavras não existem, e ainda assim estou te escrevendo, e por um único motivo, somente: tenho algumas coisas a dizer.
Sim, eu te amo. Ainda, e muito, e sempre. Um amor como esse que eu sinto não é coisa passageira, e não seriam as dificuldades do cotidiano que teriam a capacidade de arrefecê-lo. Encontro-me no maior dos dilemas, porque construí minhas hipóteses sobre uma premissa simples, elementar até. E, infelizmente, tão frágil quanto simples. Entenda, meu doce anjo: eu imaginei que o tempo poderia fazê-la me amar como eu a amo. E sei que me diria, se estivesse aqui, o quão ingênuo eu fui, e quão arriscado é basear toda uma argumentação sobre as vontades de outro. Não estou me queixando. Pudesse, faria tudo de novo. O amor pode até não ser cego, mas é louco, e essa falha é um tanto pior que a primeira, não acha?
Se houve os momentos em que quase acreditei que de fato havia conseguido o meu intento, em outros, como no dia de nossa última discussão, todas as minhas ilusões perdiam o colorido e caíam por terra. Como é triste amar sozinho... A tua indiferença, o teu desinteresse por qualquer coisa que me diga respeito é tão eloquente que me deixou surdo e mudo - e me fez voltar a enxergar com clareza. Hoje, quase um mês depois daquele dia, posso novamente usar a minha voz para dar-te uma satisfação que não pediste, e sinto que nem te interessa. Mas não posso negar a mim mesmo.
Não te preocupes com nada, cuidei para que nunca mais tivesses que me encontrar. Tudo o que está no apartamento é teu, disponha como entender. Eu jamais poderia pedir-lhe nada, uma vez que nem o essencial te pedi. Podes vendê-lo, doar todas as minhas coisas para alguma caridade, não importa. Se nem toda a minha atenção, toda a minha disponibilidade, o meu afeto, meus elogios e declarações de amor foram capazes de te sensibilizar, não te apegues a uns poucos cacarecos. Não estarei mais ao teu lado, é certo - meu coração segue te amando, por mais algum tempo ainda - mas nem toda a distância do mundo pode me fazer te esquecer. Não preserve nem mesmo minha coleção de mangás ou o velho Atari. Deixei para trás esses velhos apegos quando me lancei nesta aventura desconhecida rumo ao teu coração. E me perdi.
Perdoe-me por tanto amor. Ele é a única explicação que existe. Tenho certeza que alguém tão articulada pode encontrar respostas diferentes, muito melhores que estas que te dou aqui. Mas isso é só uma carta, podes desfazer-se dela de tantas maneiras... Incinere, jogue no lixo, passe pela picotadora, recicle, use-a para acender a lareira da casa de Itatiaia. Pouco importa. Embora conte a verdade, é só a minha verdade, querida. Sinta-se livre para compôr a tua.
Recebi um convite para ir a Londres pelo aniversário de Otaviano. De lá, parto em busca de novos horizontes. Mesmo amando demais essa terra, há um laço misterioso que me ata ao Velho Continente. Estreitarei esta ligação o quanto puder, buscarei outras histórias para viver, e eventualmente esquecerei de ti. Provavelmente estarei decrépito demais para voltar para casa, esquecido demais para saber sequer onde ela fica.
Espero que leias tudo, até aqui. E desejo-te toda a felicidade que desejei para nós dois.
Com todo o meu amor,
Cristiano.
Desde a manhã em que a deixei sozinha neste enorme apartamento onde nós vivemos juntos por lindos e mágicos 10 meses, tenho pensado em vão nas melhores palavras, aquelas que não deixariam dúvidas a respeito dos meus motivos - e como um bônus, te trariam alguma paz. Agora eu sei, tais palavras não existem, e ainda assim estou te escrevendo, e por um único motivo, somente: tenho algumas coisas a dizer.
Sim, eu te amo. Ainda, e muito, e sempre. Um amor como esse que eu sinto não é coisa passageira, e não seriam as dificuldades do cotidiano que teriam a capacidade de arrefecê-lo. Encontro-me no maior dos dilemas, porque construí minhas hipóteses sobre uma premissa simples, elementar até. E, infelizmente, tão frágil quanto simples. Entenda, meu doce anjo: eu imaginei que o tempo poderia fazê-la me amar como eu a amo. E sei que me diria, se estivesse aqui, o quão ingênuo eu fui, e quão arriscado é basear toda uma argumentação sobre as vontades de outro. Não estou me queixando. Pudesse, faria tudo de novo. O amor pode até não ser cego, mas é louco, e essa falha é um tanto pior que a primeira, não acha?
Se houve os momentos em que quase acreditei que de fato havia conseguido o meu intento, em outros, como no dia de nossa última discussão, todas as minhas ilusões perdiam o colorido e caíam por terra. Como é triste amar sozinho... A tua indiferença, o teu desinteresse por qualquer coisa que me diga respeito é tão eloquente que me deixou surdo e mudo - e me fez voltar a enxergar com clareza. Hoje, quase um mês depois daquele dia, posso novamente usar a minha voz para dar-te uma satisfação que não pediste, e sinto que nem te interessa. Mas não posso negar a mim mesmo.
Não te preocupes com nada, cuidei para que nunca mais tivesses que me encontrar. Tudo o que está no apartamento é teu, disponha como entender. Eu jamais poderia pedir-lhe nada, uma vez que nem o essencial te pedi. Podes vendê-lo, doar todas as minhas coisas para alguma caridade, não importa. Se nem toda a minha atenção, toda a minha disponibilidade, o meu afeto, meus elogios e declarações de amor foram capazes de te sensibilizar, não te apegues a uns poucos cacarecos. Não estarei mais ao teu lado, é certo - meu coração segue te amando, por mais algum tempo ainda - mas nem toda a distância do mundo pode me fazer te esquecer. Não preserve nem mesmo minha coleção de mangás ou o velho Atari. Deixei para trás esses velhos apegos quando me lancei nesta aventura desconhecida rumo ao teu coração. E me perdi.
Perdoe-me por tanto amor. Ele é a única explicação que existe. Tenho certeza que alguém tão articulada pode encontrar respostas diferentes, muito melhores que estas que te dou aqui. Mas isso é só uma carta, podes desfazer-se dela de tantas maneiras... Incinere, jogue no lixo, passe pela picotadora, recicle, use-a para acender a lareira da casa de Itatiaia. Pouco importa. Embora conte a verdade, é só a minha verdade, querida. Sinta-se livre para compôr a tua.
Recebi um convite para ir a Londres pelo aniversário de Otaviano. De lá, parto em busca de novos horizontes. Mesmo amando demais essa terra, há um laço misterioso que me ata ao Velho Continente. Estreitarei esta ligação o quanto puder, buscarei outras histórias para viver, e eventualmente esquecerei de ti. Provavelmente estarei decrépito demais para voltar para casa, esquecido demais para saber sequer onde ela fica.
Espero que leias tudo, até aqui. E desejo-te toda a felicidade que desejei para nós dois.
Com todo o meu amor,
Cristiano.
sábado, 4 de fevereiro de 2012
Ela dorme em meus braços - e eu sonho. O sonho é a luz dos olhos dela, seu sorriso sem dentes e a alegria contagiante que dela emana.
Ela não sabe dormir sem acalantos - e disso eu cuido. Todos nós buscamos para sempre a mãe que nos embala, que afasta nossas penas e preocupações. Deixo que durma - cuidarei para que o bicho-papão não se aproxime esta noite...
Ela não sabe dormir sem acalantos - e disso eu cuido. Todos nós buscamos para sempre a mãe que nos embala, que afasta nossas penas e preocupações. Deixo que durma - cuidarei para que o bicho-papão não se aproxime esta noite...
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