segunda-feira, 31 de maio de 2010

Aconteceu no consultório (parte 3)

Se aquela terça não chegasse nunca, talvez ela tivesse se aquietado. Talvez não. O fato é que não conseguia deixar de imaginar o dr. Ronaldo desde a última consulta - maldita anestesia! E a proximidade do encontro a estava deixando febril, e ela pensara em cancelar o apontamento algumas vezes desde então - mas isso não resolveria a questão, apenas adiaria o problema.

Ronaldo também ficara perturbado desde a terça anterior. Encontrou o Emerson no fim de semana, e perguntou se ele podia terminar o serviço da Marion, assim, como se nada fosse. Emerson, cobra criada como era, sacou tudo num relance:

- Ela te virou a cabeça, né, meu chapa?
-Puta merda, Emerson! Aquela mulher é um desespero, meu amigo... Tô perdendo o juízo, aquela criatura ali, dormindo de boca aberta na minha cadeira, e eu imaginando coisas!
-E eu que pensei que a endodontia era a especialidade menos erótica da odontologia...
-Ah, não ferra, Emerson!
-Calma, cara, calma! Ela é minha amiga há muitos anos, e eu nunca pensei nela como mulher... Mas ela sempre foi muito bonita. Acho que a idade fez bem a ela, sei lá. Ela ficou mais completa, virou um mulherão! É claro que eu reparei, mas ela é como uma irmã para mim! Eu devia ter te dito isso...
-Não, Emerson. Você falou tudo. Disse que ela era muito bonita. Mas não disse que era tão inteligente, nem que era tão séria! Porra, cara! Ela sorri, faz um comentário qualquer, como se nada fosse, e de repente vira uma esfinge! Indecifrável! E na última consulta eu tive a impressão que ela tinha lido os meus pensamentos...
-Ela sempre foi assim, de dar essas tiradas...
-Mulher impossível!
-Está bem, eu termino.
-Não, deixa prá lá. Seria muito anti profissional...
-Você que sabe, Ronaldo...

A terça-feira tão temida e esperada acabou chegando rápida e atarefada para Marion, e, entre a escola dos filhos e a aula de Pilates a secretária do dentista ligou, confirmando a consulta.

-Claro, estarei aí, Renata.

Ronaldo estava indócil, era a última consulta daquele tratamento, a última vez que estaria sozinho com aquela mulher perturbadora. Pediu que Renata ficasse, sob o pretexto de aprender a instrumentar um tratamento endodôntico - e quando ela se recusou, ele não soube dizer se estava chateado ou aliviado. Ah, ele queria vê-la, queria estar com ela, mesmo que só mais aquela vez. Mas temia por seu pobre coração.

Marion não conseguia decidir que roupa vestir. Era ridículo! Afinal, o cara só iria mesmo ver a polpa do seu dente, agora já morto, de qualquer forma - e por sua perícia. Não, ela não ia mais sentir nada naquela parte de seu corpo. Mas todo o seu corpo reagia à mera referência ao apontamento do fim de tarde. 17h, no consultório do Emerson. Merda! 16:30h! Ela vestiu-se depressa, sem querer pensar no porque de ter escolhido aquele vestido. Ela sabia bem o porquê. Era o que ela estava vestindo no sonho erótico da última consulta...

Ela chegou junto com ele. Encontraram-se no elevador. Quando as portas se abriram no térreo, ele já estava lá dentro. Ela não sabia onde por as mãos. Baixou os olhos, engoliu em seco. E cumprimentou:

-Boa tarde, doutor.
-Olá! Pronta para a última sessão de tortura?
-Prontíssima.

O silêncio era mais constrangedor que a conversa, e ele se adensava a cada segundo. A vontade dela era pular sobre ele, e estava tão envergonhada... Parecia-lhe uma espécie de violência fantasiar com aquele homem que ela mal conhecia! A súbita consciência de seu corpo ali, ao alcance de suas mãos, era mais perturbadora que ter imaginado todas aquelas coisas.

Ele também estava tenso, sentia-se esticado como uma corda de violão que já estivesse sendo reutilizada, e que poderia se romper a qualquer momento. Ela tinha uma presença marcante, e aquilo estava um pouco além de sua capacidade de ignorar. Ainda assim parecia-lhe impossível entabelar uma conversa qualquer, e foram ficando em silêncio, os dois incapazes de falar - mas não por falta de assunto.

Ele abriu o consultório e ela entrou, dirigindo-se diretamente para a cadeira, na sala de atendimento. Nem sequer dirigiu o olhar para o sofá da ante sala, um móvel grande e confortável de três lugares, em couro branco, recém reformado. ela sempre adorou aquele sofá, e já tinha desejado comprá-lo do Emerson algumas vezes, mas agora ela nem podia olhar para ele. Os pensamentos que lhe passavam pela cabeça...

Ele foi até o banheiro, unicamente para jogar um pouco de água fria no rosto, e tentar desanuviar os pensamentos. Lavou-se bem e foi de encontro a ela. Separou os instrumentos concentrado, e nem trocaram palavra até que ele se sentou na banqueta, a anestesia em punho, e gracejou:

-Pronta para a soneca da tarde, Bela adormecida?
-Você não imagina o quanto... Acho que eu já venho para a consulta sonhando com a anestesia - consertou ela, corando ligeiramente. Ele percebeu, mas conteve-se - e na verdade tinha ficado assustado. Ela tinha baixado a guarda completamente, e ele sentiu que a oportunidade tinha passado.

Ela abriu a boca, ao seu comando, e ele começou o pequeno ritual da anestesia. Em poucos minutos, ela já não sentia nada, e o campo estéril impedia o contato visual entre eles. Ela esperou pelo momento do mergulho no sono, e ele entregou-se ao trabalho.

Mas ela não dormiu. Não daquela vez. Fechou os olhos e ficou alerta. Evitava fitá-lo, e sabia que, se o fizesse, talvez não pudesse negar seu próprio desejo. Ela sentia os olhos dele concentrados no trabalho, e sabia também quando ele interrompia-se por alguns segundos. Ela imaginava o que ele estava fazendo, mas não podia abrir os olhos, por medo. Ela tinha colocado um seu vestido abotoado na frente - totalmente composto, totalmente sugestivo. Tinha imaginado que ele abriria aquela roupa, botão por botão, e que cobriria sua pele alva de beijos incandescentes. Sentia-se uma devassa agora, ali, deitada naquela cadeira, esperando que aquele homem a tocasse.

Ele pensava que ela estivesse dormindo. Aquilo ajudava demais, que ela fosse tão sensível à anestesia. Se ela permanecesse de olhos abertos, se ela o estivesse encarando durante todo o tratamento aquilo seria impossível. Ela estava terrivelmente sedutora naquele vestido de frente única, todo abotoado na frente. Podia imaginar a pele alva se revelando lentamente sob a sua vontade, a vontade dela se curvando ante a dele, seus lábios entreabertos suplicando a ele que a tomasse nos braços... Talvez a imaginação não fosse o melhor instrumento para um dentista, afinal. Ele tinha que parar por alguns instantes, respirar fundo, retomar a concentração. Ele queria terminar o trabalho, logo. Queria afastar-se dela - mas não ainda.

Os minutos se passaram arrastados: ele concentrado no trabalho, ela em manter seus olhos serrados. Quando finalmente ele pousou o motor e finalizou o serviço, ela abriu os olhos, aliviada:

-Nossa, como demorou dessa vez!
-Ih, você não estava dormindo?
-Não... - "droga, ele percebeu! Ai, eu preferia que ele pensasse que eu estava dormindo..."
-É, pelo jeito até esse poder que eu tinha sobre você, de te pôr para dormir, me deixou, não é mesmo, querida?
-É... Dessa vez não pude dormir.
-Não pode...?

O silêncio era o refúgio que lhes restava. Por algum motivo, ele calou o desejo, e ela ficou agradecida. Aquilo não podia ser. E eles precisavam tocar a vida adiante.

-Terminou por hoje?
-Terminou mesmo, Marion. Essa foi nossa última consulta, lembra? Agora você já pode marcar a restauração com o Emerson.
-Ah, é mesmo. Acabei me distraindo... Desculpe, Ronaldo.
-Do quê, exatamente?
-Sei lá... De qualquer coisa.

Despediram-se friamente na ante sala do consultório, o sofá gritando o nome dela, os braços dele desejosos de segurá-la mais um minuto, ambos evitando o contato visual. Ele ainda acompanhou o ondular do seu corpo quando ela se virou para sair. Uma lágrima desceu pelo canto do olho esquerdo dela. Não, nunca mais. Nem em sonho anestésico, nem na vida real.

(to be continued)

terça-feira, 18 de maio de 2010

Aconteceu no consultório (parte 2)

Chegou mais cedo, e ele já estava lá.

-Não disse que não me atrasaria dessa vez?
-É, você disse.
-Sofreu muito esse fim de semana?
-Nem um pouco... Aliás, se a Renata não tivesse ligado ontem eu talvez até me esquecesse do tratamento!
-Eu é que não posso - nem consigo - esquecer de você.

Sorriram - e ela rumou para o consultório. Na verdade estava aflita, mas preferia pensar que era devido ao medo irracional que sentia de sentar-se na cadeira odontológica. No fundo ela sabia que era por causa dele. Aquele homem tinha a capacidade de deixá-la ao mesmo tempo desconfortável e excitada.

A atitude impulsiva dela, de dirigir-se direto para a sala de atendimento tinha sido inesperada para ele. Ele imaginava que ela já tivesse baixado a guarda e fosse se comportar menos na defensiva daquela vez. A verdade era que ela o deixava perturbado: muito séria, muito linda, muito inteligente. No fundo, era o muito inteligente que tornava a mistura muito atraente e perigosa para ele. Aquela mulher era algo de especial, e ele sabia disso desde que pusera os olhos nela, há uma semana daquele momento. E ela ainda provocava uma perturbação na superfície dele. Ele mal conseguia manter a compostura - era um esforço, contudo, necessário.

-Pronta?
-Eu já nasci pronta, doutor.
-Então vamos ao assassinato!
-O quê?
-O assassinato do último nervo, lembra?
-Ah... Acho que me distraí. - ela estivera olhando para ele de soslaio, enquanto preparava os apetrechos de trabalho. "E ele é mesmo uma delícia..." Para encaminhar a conversa, perguntou:

-Por que a Renata não fica aqui, no seu horário de trabalho? Eu pensei que ela fosse também sua assistente.
-Ah, não, a Renata não trabalha comigo por causa dos meus horários... Ela está estudando à noite. Terminando o curso técnico. Acho que é instrumentação cirúrgica...
-É, é sim. Conversei com ela da última consulta com o Emerson. Mas achei que o consultório de odonto servisse como estágio, ou algo do tipo.
-Talvez sim. Mas ela precisa ir às aulas.

Com um meneio da cabeça, pediu-lhe que abrisse a boca. Ela obedeceu prontamente. A anestesia local, depois a pontada sutil - e lá se foi sua mímica facial. E ele trabalhou mais uma vez, sem distrair-se, e mais uma vez ela dormiu. Dessa vez, à analgesia seguiu-se um sono conturbado, durante o qual ela sonhou...

Estava deitada naquela cadeira do consultório, e não conseguia mover-se. E ele a estava despindo, abrindo os botões de seu vestido lentamente, tocando seus seios por cima do sutiã, seu sexo por cima da calcinha de algodão modelito vovó que ela estava usando. E ela queria gritar "que merda, logo hoje eu fui colocar essa calcinha feiosa!" E ele sorria, e olhava para ela, e a acariciava sem reservas, e logo começava a beijá-la e a masturbá-la, e...

-Ahn?!
-Terminamos por hoje, Marion.

Ela estava sobressaltada! Tinha acordado com um orgasmo intenso - será que ele podia perceber? Ela sabia que nada daquilo tinha sido real - a roupa que estava usando não era a do sonho, e ele não teria conseguido despí-la sem ajuda - mas a excitação e o orgasmo estavam ali, presentes como se, ao invés de um tratamento endodôntico de canal tivessem transado por toda aquela hora.

-Você é uma dorminhoca! - Ele tentou gracejar. Percebeu que ela estava um tanto perturbada, e olhava para ele meio assustada, ruborizada e envergonhada ao mesmo tempo. "Será que ela consegue perceber o que se passa na minha cabeça, enquanto ela está aqui, dormindo nessa cadeira, sob o efeito desse anestésico?"
-É, parece que sim - ela respondeu, meio sem jeito. Ainda não conseguia olhar para ele.
-Semana que vem a gente finaliza, e então você pode marcar a consulta do Emerson, ok?
-Certo, certo... Posso usar o toilete antes de sair?
-Claro!

Ela estava totalmente molhada, e era a prova de que tinha tido o primeiro sonho erótico realista em anos. Estrelando, doutor Ronaldo...

(to be continued...)

sábado, 15 de maio de 2010

Aconteceu no consultório

Era a enésima vez que ela ia ao dentista para um tratamento de canal.

Tratamento de canal, não! Tratamento endodôntico de três condutos! No seu tempo, ela pensou, ainda havia dentistas que faziam todos os serviços - mas esses dias ficaram no passado. Se você trocou seu velho dentista, amigo do seu pai, por um amigo, seu contemporâneo, pai de um dos amigos do seu filho, na certa esse dentista é um especialista - e ele vai dividir o teu serviço de canal e restauração com algum colega.

No caso específico, ela tratava os dentes com um colega do segundo grau, que fez odonto e se especializou em ortodontia e restaurações. Como o caso era a substituição de um bloco de amálgama por outro de porcelana, bem mais caro, moderno e - por que não - bonito, ela foi direto procurar o tal colega.

O problema é que o bloco antigo estava infiltrado, e devido a esse infortúnio ela precisaria também de um tratamento endodôntico. E como o dente em questão era um molar, não era só um canal - mas três. Então, o colega perguntou se ela fazia tratamento endodôntico com alguém, ou se ele podia marcar uma consulta com o seu sócio, o especialista em questão.

-Claro, Emerson. Marca, vai. Pode marcar... Não dá prá você fazer, não, né?
-Não, Marion, já te disse! Esse negócio de dentista all in one é coisa do passado...
-Tudo bem. Fazer o quê?
-Tratar esse canal para eu poder fazer um on lay de porcelana lindo, lindo! Vai ficar perfeito, vai parecer que é teu dente mesmo! Você vai ficar super satisfeita com o atendimento do Ronaldo. Ele é o melhor endo da minha turma, sério.
-Ok, já tinha me convencido lá no "coisa do passado"...

Riram mais um pouco e ela foi embora, o apontamento marcado para a próxima terça-feira, às 15h. Horas depois, quando a anestesia passou, ela praguejou pela demora da consulta. "Como dói! Diabos... Maldita a hora em que me deixei levar pelo apelo da dentição artificial..." Era curioso que logo ela, provavelmente a mulher menos vaidosa do mundo, tivesse caído nessa esparrela de trocar os blocos feiosos por algo de aspecto mais natural. Era idéia do marido. Ele resolveu que precisava melhorar a aparência dela. Dizia que ela estava muito descuidada, que ainda era uma mulher jovem e atraente... "É claro", ela pensava sempre, "ele tem mesmo é que me achar atraente - ou continuar mentindo! Afinal, esse casamento é para sempre ou não é?" Agora o tratamento tinha começado e não podia mais parar. Estava doendo muito, muitíssimo. "Eu devia ter combinado de ele pagar o tratamento também..."

Depois de um final de semana a base de analgésicos - "Emerson, pelamordedeus! O que eu tomo? Tô pirando de dor!"- chegou finalmente o dia do tratamento endodôntico de três condutos. Ela chegou pontualmente às 15h, só para descobrir que o tal do dr. Ronaldo tinha ligado, avisando que ia se atrasar. Ela já estava praguejando baixinho, no melhor estilo preto velho:

-Puta que pariu! Essa porra doendo prá caralho e esse puto atrasadinho...
-Desculpe, querida. O puto aqui não vai se atrasar de novo. Não agora que pôs os olhos em você...

Ele estava entrando e ouviu tudo, enquanto ela resmungava para o vazio da sala de espera. Púrpura de vergonha, viu-se na obrigação de se desculpar:

-Desculpe, doutor. Eu estou sofrendo horrores com esse dente aqui, aberto. Posso declarar insanidade temporária causada por odontalgia incapacitante?
-Você deve saber. A advogada aqui é você...
-Estou vendo que o Emerson deu a minha ficha...
-É. Só não me avisou que você era tão linda. - "Um galanteador", ela pensou. "Puta merda, oh raça..." Não tinha o hábito de acreditar em elogios. O cara obviamente queria deixá-la embaraçada, para que ela esquecesse a dor por alguns instantes. Então ela apenas sorriu e disse:

-Podemos ir direto ao assunto?
-Claro! Pois não... Ele absorveu o corte dela sem demonstrar constrangimento algum. "Viu só? Conquistador barato por vocação, dentista por profissão." Ele indicou o caminho do consultório, abrindo espaço para que ela passasse pelo corredor que separa a sala de espera do consultório. Escoltou-a até a cadeira, mantendo a mão esquerda em suas costas - primeiro entre suas espáduas, depois deslizando-a até a parte mais baixa das costas, bem acima do quadril. "Maldito Emerson... Arrumou um colega tarado como ele para ser sócio no consultório..." O que o toque provocou não foi propriamente repulsa. Na verdade, ela sentiu um calafrio e um peso no peito - e isso era um sintoma claro de excitação sexual. Tentou manter a cabeça fria, mas era tarde: imediatamente, seus olhos começaram a medir o endodontista. E era um pedaço, o homem! Corpo trabalhado por horas de academia, um peitoral largo, ombros estruturados, quadril estreito, pernas fortes. O calafrio repetiu-se, e dessa vez ele teve início em seu sexo. "Maldito homem!" Ficou com um ódio terrível, mas era tarde demais. Ele já se encaminhava para a cadeira, munido de anestésicos potentes e mais uma bandeja de instrumentos. Ela sentiu-se aliviada na hora. Com certeza, não há no universo nada mais antagônico ao erotismo que um dente com canais imprestáveis. E estar boquiaberta naquela posição de vítima a deixava muito desconfortável, fosse com quem fosse.

Ele pediu que ela abrisse a boca. E iniciou o trabalho pela anestesia.

-Vamos ver o quanto essa belezinha vai melhorar o seu humor. - Ela não conseguiu evitar sorrir.
-Tenho certeza de que vai...

Ele aplicou o anestésico local e logo em seguida a anestesia propriamente dita. Ficou puxando small talk, para dar tempo ao anestésico. E ela descontraiu-se tão logo a medicação fez efeito. "Incrível como isso estava me incomodando." Ele pareceu ler seus pensamentos:

-Está vendo? Muito melhor agora, não é?
-Nossa... Só!
-Depois que a gente terminar você nunca mais vai sentir dor nesse dente... O que não deixa de ser melancólico.
-Melancólico? Por quê?
-Ora, meu bem, eu estou matando três nervos teus. De certa maneira, vamos diminuir a tua capacidade de sentir as coisas, mesmo que num nível bem local...
-Eu nunca tinha pensado nisso dessa forma...
-É o meu trabalho pensar nisso.
-Não. O teu trabalho é matar os nervos. Pensar nisso só dificulta as coisas para você, não é?
-Verdade.

Um silêncio grave se colocou entre eles. Ela não sabia como, mas precisava acabar com aquele momento.

-Acho que você já pode começar com o assassinato, Ronaldo. Já não sinto nada. Pense nisso como uma eutanásia. Eu te suplico que mate esses nervos - eles estão acabando com os meus nervos, falando figurativamente - e sorriu. Ele relaxou um pouco, e devolveu o sorriso.
-É, dito assim soa melhor. E você está definitivamente anestesiada. Posso ver na sua mímica facial...

Ele tocou seu rosto e ela, apesar de anestesiada, sentiu novamente o aperto no peito. Respirou fundo e engoliu em seco. Ele se afastou bruscamente e começou. Trabalhou por uma hora, incansável. O tempo passou sem que eles se olhassem: ele se concentrou no serviço, ela num ponto imaginário no teto. O campo asséptico mantinha sua boca completamente aberta, e ela nem percebeu quando adormeceu.

O anestésico teve um efeito inesperado. Enquanto anestesiava a boca alcançou um vaso sanguíneo e distribuiu-se por todo o corpo, causando um efeito curiosíssimo: analgesia geral. Ela não mais sentia o seu corpo, nem premeditava em seus pensamentos o que iria fazer quando saísse dali. Sentia uma imobilidade deliciosa. Deixou-se ficar, imersa como estava naquela sensação gostosa de abandono, de relaxamento. E sua mente vagou. Dormiu. Apagou mesmo.

-Prontinho, Marion!... Marion?
-Hã? Já terminou?

Ele sorriu, e ela pode ver seus dentes. Dentes perfeitos. "Pelo jeito, o efeito da analgesia já era..." Ela já estava reparando no dentista de novo. Melhor parar por ali.

-Isso foi tudo, dr. Ronaldo?
-Não, meu bem! Imagina se a gente trata três canais assim, de uma só vez... Eu fiz o tratamento inicial, limpei e matei dois dos três nervos. Agora você está com um curativo. E não deve sentir mais dor - pelo menos não dor como aquela. E vai tomar antibióticos, porque tinha uma infecção polpar no terceiro canal. Vamos tratar a infecção e terminar o assassinato na próxima consulta. Aí fica faltando fechar os condutos e o Emerson pode moldar o on lay. Daqui a uma semana quero você aqui novamente, ok?
-Combinado! - disse isso e ruborizou. "Merda! Ficou parecendo que a gente marcou um encontro..." Tratou de corrigir-se. -Quero dizer, claro, está agendado.
-Podemos manter o horário? Dessa vez prometo que já estarei aqui na hora que você chegar.
-Ok, doutor.

Ele estendeu a mão para ela - e ela retribuiu o gesto, cumprimentando-o de volta. Ela preferiu pensar que tinha imaginado a eletricidade que circulou entre eles, naquele aperto de mão. Sacudiu a cabeça instintivamente. Ele não percebeu - ou fingiu não ter percebido.

A semana passou rapidamente, e veio o fim de semana, e de repente já era segunda-feira. O telefone tocou por volta de 13h naquela tarde. Era a secretária do Emerson:

-Dona Marion? Estou ligando para confirmar a consulta com o dr. Ronaldo amanhã, às 15h.
-Ok, Renata. Estarei aí no horário combinado, amanhã.

Ficou nervosa o resto do dia, e acordou numa crise de ansiedade terrível. Tão incapacitante quanto a dor que tinha sentido na semana anterior. Nem pensar conseguia direito. "Arre, te aquieta, criatura! Por que isso agora? Tira os bíceps do cara da cabeça e te concentra no tratamento... Pensa na anestesia!"

(to be continued...)

Deep diving

Ah, sentimento sem nome!

Ah, ferida que não sara...

A vida escoa para o sumidouro do tempo -

e eu querendo estar nos teus braços.

E eu, querendo estar nos teus braços.

Eu - nos teus braços.

(Eu, morrendo de amor, nos teus braços.)


sexta-feira, 14 de maio de 2010

Quase lá...

Deixa eu contar como foi que acabei casando novamente. Foi assim:

Eu tinha saído bem cedo de casa naquele dia, e seria um dia bem cheio - muitos compromissos, coisa e tal. Mas sabe quando você dá um peteleco num dominó e as peças vão tombando, caindo uma após a outra - efeito dominó? Então!

O meu compromisso das sete era bem rápido: doação de sangue. É chato e dolorido, e às vezes eu sangro depois - da última vez isso tinha acontecido, e eu estava receosa de que ocorresse novamente. O banco de sangue estava vazio, e tudo correu bem. O questionário me fez rir um pouco: número de parceiros no último ano? Se comparado ao ano anterior, que festança este vinha sendo...

Então estaria livre até às nove, horário marcado da ultrassonografia. Arrisquei chegar mais cedo - vai que rola um atraso ou desistência? E não é que rolou? De repente, eu tinha conseguido estar livre até às dez e meia - e o relógio marcava oito e quinze na hora em que deixei a clínica.

O compromisso das onze era com a advogada que estava cuidando do espólio de meu pai - e seria uma reunião maçante e muitíssimo infeliz para mim. Vínhamos nos degladiando, eu e meus irmãos, há meses - e tudo por causa de uns trocados. De verdade, a única coisa que eu quero é meu pai de volta. E isso não vai acontecer... Por uma dessas coincidências estranhas, ela me ligou pouco depois das oito e meia, avisando do cancelamento da reunião. Nem acreditei!

Aquele dia - que seria o mais arrastado e triste da semana - tinha em dois tempos se resolvido! Eu só precisava agora me preocupar com o horário do dentista. E ele só iria me atender no fim da tarde.

Então saquei o celular da bolsa e fiquei matutando... Talvez não fosse uma boa idéia. Da última vez em que nos vimos, ele foi bem incisivo e resoluto: disse que só queria me ver novamente se eu tivesse uma resposta para ele, e quando eu tivesse uma resposta para ele. Sim ou não - e depois, era o resto da vida ou nunca mais.

Merda de sujeito mais cabeça dura! Nunca soube nem jamais saberia de divertir! Tudo bem que a nossa história nunca tinha sido exatamente uma frivolidade. Mas ele também não precisava fazer tanto drama... Quando a gente se conheceu eu era casada, e ele solteiro. A atração entre nós foi imediata, e, graças a uma tempestade de verão fortuita, extremamente prazerosa. Dali em diante, desenvolvemos um afeto crescente, um envolvimento profundo - e o assédio dele quase pôs a perder o meu casamento, naquele ponto. Chorei rios quando ele me deixou. Mas ele estava certo naquele momento - e eu errada.

Pouco depois ele casou, e eu separei. Por meses nos falamos por e-mail, e trocamos alguns telefonemas esporádicos, até que ele resolveu que devíamos nos ver. Fiquei toda contentinha, passei a tarde no salão, comprei um vestido novo, lindo - azul, porque ele sempre disse que adorava me ver de azul - e, é claro, lingerie novíssima, azul-marinho, lace and ribbons. Para nada. Nada não, muito pior! Ele só quis me ver para tripudiar de mim! Me disse coisas feias, terríveis de se ouvir mesmo... Me deixou arrasada. Chorei muitos outros rios - e dessa vez, o errado foi ele.

Agora, faz cinco semanas, nos esbarramos numa loja de departamento. Literalmente nos esbarramos! E olha que eu nunca vou àquela loja, acho feia, sei lá! Mas nesse dia entrei, só para esbarrar nele. Ficou viúvo. (É nisso que dá, casar com uma mulher tão mais velha.) Disse que foram muito felizes - olha só ele tripudiando de mim novamente - mas que infelizmente sua esposa tinha partido. Coincidentemente, ela faleceu no mesmo dia que meu pai. Tivemos assunto depois disso. Choramos muito - até que encontramos consolo nos braços um do outro.

Confesso que depois disso tenho tido tardes incríveis em seus braços - e que nunca nenhum outro homem jamais conseguiu me fazer gozar como ele faz. E foram muitos os que tentaram. Confesso que ele me entende num nível elevadíssimo. Confesso que ainda o amo, mais do jamais amei outro homem - antes ou depois. E confesso que não consigo mais confiar nele, desde aquela humilhação, dressed in blue.

Mas, como sempre, ele recebe uma drama queen e me põe contra a parede! Ele discursa tão bem, e é tão convincente... Com que facilidade diz que eu sou a mulher da sua vida, que jamais amou alguém como me ama, que não faz sentido continuarmos nossas vidas separadamente. Já eu - ah, eu sou a solteira incorrigível! Eu gosto da minha liberdade, e eu trabalho por ela, e eu gosto de não saber com quem vou dormir essa noite, e de não ter a quem dar satisfações da minha vida! E é isso que ele quer tirar de mim, porque ele é possessivo, e vai ficar no meu encalço, e as minhas tardes ébrias e dissolutas ficarão no passado.

E eu gosto de dar um perdido na vida once in a while...

Pensei bem uns dez minutos e resolvi: ligo e pronto. Diria a ele que tinha uma resposta - mesmo que não tivesse coisa nenhuma! E arrancaria dele uma última transa, um último momento de total e perfeita intimidade, e pela última vez sentiria o perfume da entrega absoluta. Afinal, ele já me humilhou tanto daquela vez que eu não tinha exatamente o que perder ainda.

Liguei. Ele atendeu, gélido:

-Alô.
-Oi, amor.
-Você já tem a minha resposta?
-Sim.
-Sim!
-Sim, tenho a resposta.
-...
-César?
-Então a resposta é não.
-Não.
-...
-César?
-Você pode ser um pouco mais clara, querida?
-Você me disse que só me encontraria novamente se eu tivesse uma resposta para você. Eu tenho a resposta.
-E?
-E você precisa vir me ver para saber qual é.
-Bem bolado... Touchè! Você, sempre espertinha...
-Então?
-Certo, está certo. Onde e quando?
-Aqui. E agora.
-Livre? Mas eu achei que você tinha uma daquelas reuniões do inventário hoje...
-Tinha. Não tenho mais. Take it or leave it.
-Ok. Onde te busco?
-Estou aqui, na cafeteria da deli, do outro lado da rua do teu escritório.

Ele desligou, bem seco. Eu já imaginava que ele faria aquilo. Devia estar tão ansioso quanto eu para me ver, já fazia três dias desde nosso último encontro e o meu corpo já dava sinais de saudade. Só devia ter atentado para um infame detalhe: eu estava de azul. Isso podia ser um péssimo presságio. Desde o dia terrível em que ele me destratou eu não uso azul com freqüência...

Levantei os olhos instintivamente e olhei para o lado oposto da calçada: hallelluia, here he comes! Ele sempre será um colírio, mesmo depois de todos esses anos. E o meu coração disparado no peito quase não me deixa falar quando ele se aproxima:

-E então? - Duro, inflexível. Será que ele é o único cara que eu não posso prever?
-Bom dia, mon chère. - Tento parecer blasè, mas falho terrivelmente. O meu nervosismo tem cor e cheiro. É rubro em minhas faces e perfumado de desejo. O meu corpo o quer - e ele sabe. Merda, ia me fazer pagar o preço.
-E então?
-Caramba, César! Puxa a cadeira, vai, senta aqui comigo e toma uma café, pelo menos! Assim fica parecendo que você sente repulsa pela mulher com quem diz querer passar o resto da tua vida.
-Ok. - Sentado, ele parece menor, mas também fica muito mais perto, e isso me perturba enormemente. Ele sabe.
-Eu pensei muito esses dias...
-Pensei que fosse levar mais tempo.
-Mas não levou.
-E o que você me diz?
-Digo isso: não digo mais nada aqui, nessa mesa, neste café. Quero sair daqui com você e ir até o teu apartamento, e fazer amor com você a tarde inteira.
-E pelo resto da vida?
-Isso só te digo depois.
-Então pode desistir, meu amor. Tudo, ou nada.
-Você é e sempre foi um tremendo desmancha-prazeres! - E faço aquela minha careta de que sei que ele gosta. Mas não pareço convencê-lo.
-Pode ser. Você tem mesmo uma resposta para mim?
-Tenho. - Bem nesse momento percebi a verdade dessa afirmação. Eu já sabia o que queria. E nunca imaginei que pudesse tê-la, a tal resposta, aqui, dentro de mim.
-Então vamos acabar com isso, não é?
-Sim, amor. Definifivamente. No more fooling around, no more fun. Você nunca foi exatamente diversão para mim.

Ele sorriu. E me lembrei do dentista. Dentista às 17h.

-Eu tenho uma consulta médica às 17h, querido.
-Acho que temos tempo. - Ele riu de novo, olhando o relógio - e eu fiquei bem feliz. Talvez fosse tempo de mudar de estado civil novamente, after all...

Passamos a tarde fazendo amor de inúmeras maneiras, e ele sempre me satisfaz. Entre um orgasmo e outro disse que sim, que seria sua, sempre e só sua. E ele esmerou-se ainda mais em me satisfazer. Nossa, que tarde!

E de repente já eram 16h, e eu precisei correr para o dentista. Deixei meu amor em casa, feliz e satisfeito - colhendo os louros de seu xeque-mate - e corri para não perder a hora do compromisso.

O dentista é uma delícia. E não se pode abrir mão de uma bela despedida de solteira...

terça-feira, 11 de maio de 2010

Adivinhação

É o cheiro do hálito dele - menta extra-forte ou pastilha de hortelã - que me tenta, acima de todas as coisas.

Mais que aquele sorriso brilhante como o Sol de manhãzinha. Mais que os olhos escuros que me assombram quando olham a minha alma como se ela estivesse na superfície da pele. Mais que a forma terna como me toma nos braços - se estendo os meus para ele, em saudação. Mais do que o não sei quê ele tem que me atiça e aguça.

É seu hálito quente e perfumado - que pede o beijo que me recuso a dar.

domingo, 9 de maio de 2010

Germinação

Os minutos teimavam em não passar, enquanto ela olhava fixamente para a haste plástica a sua frente. Na bula dizia que o teste levava cinco minutos para dar o resultado.

Lenta e definitivamente, uma segunda linha rósea se formava ali, do lado da haste oposto ao ponto onde ela tinha feito xixi. "Ai, meu Deus, meu Deus... Tô grávida."

Ela já sabia, mesmo que não admitisse para si mesma, ou para quem quer que fosse. Afinal, nas duas últimas semanas vinha enjoando sistematicamente pela manhã, e vomitava tudo o que comesse no café. Seus peitos mal cabiam no sutiã, e a menstruação estava atrasada uns cinco dias, já.

Alguma coisa havia mudado dentro dela. Uma nova existência tinha começado bem ali, em seu baixo ventre - e não pedira autorização a ninguém. Ela se olhou no espelho e por pouco não se reconheceu. Era uma mulher nova ali, diferente daquela que estivera refletida antes, ainda naquela tarde. Em sua fisionomia, a decisão do que fazer suavizava as linhas de expressão que antes endureciam seu semblante. Não estava sozinha.

Ela precisava contar ao namorado. Ele não ia gostar. Ia dizer que ela devia tirar a criança, que ele não podia assumir esse filho, que isso iria acabar com o casamento dele. E ela nunca mais o veria - porque isso ela não ia fazer.

Aquele filho ou filha estava chegando. Faltavam 38 semanas.

Ela abriu o armário. Respirou fundo. Começou a livrar-se de algumas coisas. Precisava de espaço para recebê-lo...

(Pelo dia das mães - e das que ainda serão...)

As regras do rolê

As regras do rolê são bastantes simples: Fode, mas não se apaixona. Se apaixonar, não fode mais, pra não se foder depois. Tudo o que te ...