quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Imagine us as one...

Como um só.

Enquanto meus olhos puderem percorrer os caminhos
que me levam até você, até a lembrança
de teus olhos nos meus, e do toque de teus dedos grossos,
da tua áspera língua nos meus lábios.

Como um só.

Mesmo à distância, mesmo o espaço
entre nossos corpos, entre nossas vidas reais.
Mesmo no escuro, onde não te posso ver.
Mesmo noutro tempo, onde não há espaço
para te amar...

Como um só.

No hiato entre os infinitos universos de Pullmann,
na eternidade das vidas noturnas e secretas dos
vampiros de Rice, na voz rouca e nas palavras sedosas
da poesia de Cohen - ontem, hoje, sempre.

Como um só.

E não há argumento que me convença
de que não sou tua, de que não podes ser meu.
Somos um. Ambos.
Sob o mesmo Sol - e na escuridão dos céus nublados.

... uma! (revisado em 04/01/2010)

Carina chegou em casa bem cedo, pão e leite para o café da manhã como um regalinho para o namorado. Ela sabia que ele estaria lá, esperando para levá-la ao trabalho. E é claro que sua disposição para ir trabalhar era mínima - para não dizer nula - e ele ficaria furioso se ela dissesse que não iria à livraria hoje. Afinal, ele estava esperando por ela fazia meia hora, e ela poderia ter tido a consideração de avisá-lo antes, assim ele não teria perdido a manhã quase toda de trabalho, blábláblá... e ela resolveu evitar o sermão dele e ir logo - sem abrir mão do desjejum! Depois de balada com XTC ela ficava faminta...

Ele olhou para ela intensamente. Ao invés de inquirir a respeito de seus whereabouts da véspera, ele simplesmente olhou para ela. Isso a enervava, porque ele era verdadeiramente imprevisível. Carina gostaria de poder decifrar aquele olhar profundo - e retribuí-lo dignamente. Mas não poderia fazê-lo naquele momento, e desistiu antes de tentar, abaixando os olhos enquanto sentia que ele a prescrutava em silêncio.

- Boa, a balada?
- É, não dá prá reclamar. Tá esperando a muito tempo?
- Não importa, querida. (Tá, até parece... ela pensou e não disse). De quanto tempo precisa para se arrumar?
- Uns 40 minutos... Se você estiver com pressa eu vou entender, Chris.
- Não, absolutamente! Eu espero. Por que você não toma um banho enquanto eu preparo o café? A gente ganha tempo. Que tal?
- Tá...

Foi para o banho incrédula. Não era do feitio dele ser tão gentil. Provavelmente queria pedir-lhe algum favor - e sabia o quanto aquelas pequenas delicadezas arrancariam dela whatever he wanted. Ela não tinha contado nada a ele dos sonhos de morte, e sabia que ele caçoaria dela por estar tão preocupada com isso. Eram somente sonhos, for Christ sake! Ele tinha essa mania de meter expressões em inglês no meio do discurso, era sua língua materna se intrometendo na conversa - e ela tinha absorvido essa mania bem rápido. Gostava de como soava, era charming... E de qualquer forma, ele era pragmático e não seria compreensivo se ela contasse os sonhos, e como se sentira, e sobre o que acontecera naquela noite, durante uma soneca no Íris. Deixaria passar. E resolvida, terminou o banho, vestiu-se e foi para o trabalho acompanhada dele.

A viagem de carro até a livraria foi bem demorada, o engarrafamento dava tempo para uma conversa, e Chris nunca enrolava. Straight to the point, ele pediu que ela posasse para ele. Era o trabalho final de seu curso de pintura.

- Você sabe, eu preciso amenizar o stress, e isso me relaxa, darling. Você faz isso por mim, will you?
- Sure, babe. Quando?
- Ah, semana que vem, sexta, how about it?
- Ok. Next friday it is.

A semana seguinte passou a galope, e de repente já era sexta. Dormiu sem muito cuidado todo esse tempo - ela esteve tão ocupada, foi a tantas festas, coquetéis de lançamento na livraria e estréias no cinema que nem sequer pensou nos sonhos-morte. Na noite de quinta foi ao shopping com as amigas, tomar um choppinho e falar da vida, chegou em casa tarde e foi logo dormir. Precisava estar bem disposta no dia seguinte - a pedido de Chris, o gerente da livraria lhe dera o dia seguinte de folga, para que ela pudesse posar para ele. Só acordou espontaneamente por volta das 10h, e foi tomar um longo banho de banheira. Estava sentada na cozinha, tomando café bem forte, quando ele chegou. Estava carregando o cavalete e uma maleta com as tintas e pincéis. Ela estava vestindo somente o roupão de banho, e Chris pediu-lhe que tirasse. Ela não imaginava que seria um nu, e aquilo a deixou muito excitada. Virou-se de costas para ele e deixou que o roupão escorregasse por seus ombros e costas, desnudando seu corpo roliço e macio em câmera lenta. A sessão de pintura começou com uma sessão de sexo selvagem, e só depois de satisfazer seu desejo ela deitou-se no sofá do terraço, na posição que ele determinara.

Então bateu aquele sono pós sexo, e ela permitiu-se deslizar para os braços de Morfeu...

Ele não vai me deixar olhar o quadro antes que termine. A maneira como franze a testa, concentrado no trabalho, é tão sexy... Me dá vontade de levantar daqui e atacá-lo novamente. Enquanto ele pinta, o mundo entra em colapso lá fora: vem da rua o barulho de tiros e bombas, eu quero levantar daqui e ir até a janela olhar o que está acontecendo - mas ele não me deixa mexer um músculo! Diz que o mundo pode até acabar que ele não dá a mínima, que vai acabar enquanto ele pinta. Eu peço 5 minutos para descansar da pose, ele é ríspido e nega. Então, ele caminha em minha direção, começa a pintar em meu corpo. No princípio faz cócegas, eu me retraio e acho graça. Ele sorri sem mostrar os dentes, e por um instante nos olhamos em silêncio. Mas de repente a brincadeira perde a graça, e sinto dor. Percebo apavorada que cada desenho feito por ele em meu corpo torna-se real. Ele desenhou uma fratura exposta em meu braço esquerdo, e agora estou sangrando e gritando, tão alto que até parece que o som não vem de mim... Os meus gritos se misturam aos da multidão em fúria na rua, e eu quero descer até eles para fugir de Christopher... Ele segura meu braço direito e lava com aguarrás a fratura, que desaparece como mágica.

Ele então desenha uma corda em volta do meu pulso, e do outro, e estou presa, as mãos amarradas às costas, impossibilitada de fugir porque amarrada a ele também. Ele desenha em meu rosto uma flor e uma abelha, e em torno de meu pescoço um colar de pérolas naturais - tudo se materializa. Estou assustada, e ele diz que eu posso ter tudo, ser o que eu quiser, mas que preciso mudar, me transformar em outra. Eu lhe digo que isso é impossível, que o que eu sou é mais forte que a minha vontade e seus feitiços. Ele mostra os dentes num sorriso sádico, e dessa vez não parece conciliador. Seus modos bruscos, suas mãos pesadas, ele procura na maleta um tubo de tinta vermelha, intensa. Jorra seu conteúdo sobre meu peito, e num instante o ar me falta, é meu sangue jorrando agora, me restam talvez uns minutos... Ele chora, e suas lágrimas são o solvente capaz de curar aquela ferida, mas ele se afasta de mim, o bálsamo de suas lágrimas molhando o avental de lona crua, o tapete de retalhos... Perco o controle de meus músculos, as forças me faltam, minhas pernas dobram sob o peso do meu próprio corpo. É o fim, é meu momento derradeiro. Eu lhe sopro um beijo, eu o amo - loucamente, apaixonadamente - mas não posso deixar de ser eu mesma para ser o que ele quer de mim.

Sinto que estou flutuando, sei que o sangue já não flui para o cérebro, meu rubro sangue, salgado e fértil, sangue coagulado sobre o acolchoado do sofá...

- Carina, você dormiu, meu anjo. Acorde, linda... Você escorregou no acolchoado, está arruinando a pose.
- O quê? Nossa, Chris, essa foi por pouco...
- De que está falando? It's nonsense, love. Come, deite-se aqui. Tenho uma pintura para terminar...
- É, você tem mesmo, mas precisa me despertar primeiro...

E durante todo o tempo em que fizeram amor, ela pensou, aliviada, que ele a tinha salvo. Mas nunca saberia direito de que. Sabia somente que gatos tem sete vidas, e que dessa maneira onírica e maldita sua natureza felina tinha chegado ao fim. Ela podia voltar a dormir tranqüila...



(Im)possibilidades

Vou vestir a roupa nova, vou ao mar! Se tanto, encontro a multidão. Quero estar sozinha, vazia de amigos e intenções, de família e de amores. Quero estar repleta de mim. Em algum lugar nessa areia toda pretendo encontrar-me, nem que seja preciso cavar profundamente!

Do buraco que faço na areia, à procura de mim, mina água salgada e sonho. Não emerjo, só mergulho, cada vez mais fundo, em busca do segredo que fiz de mim mesma. Este segredo é também meu presente ao mundo. Segredo na água salgada é pérola, doença de ostra, jóia rara para nós, os mortais. Se porventura tiver valor para os deuses, talvez eles a recolham...

Eu - a menina ostra.

Talvez fure algumas ondas. E mergulhe no oceano, com nunca antes. Quero me distanciar da praia, ficar em silêncio, ser tragada pelo oceano e tornar-me parte sua. Deixar-me ficar, flutuando sem pressa, até que os tentáculos do Kraken me envolvam e eu encontre o fim dos meus dias. Se nunca mais retornar à costa, meus compatriotas talvez percebam a ausência de algo, e passem a questionar: o quê?

Eu - a mulher invisível.

E, no final das contas, descobrirei o que já sei: que o meu tesouro é só meu, só a mim interessa riqueza que eu penso trazer aqui dentro, que já se passou muito tempo nessa existência sem que a totalidade do que eu sou fosse descoberta por alguém. E que provavelmente eu sou só uma pseudopessoa, envolta na minha solidão, entregue à certeza de minha desimportância. Não totalmente real, mais um fantasma que um vivente de verdade. E talvez todos já tenham percebido que sou uma fraude, e seja por isso que vivo tão ao largo, tão separada de tudo, de todos. E a verdade é que já fui engolida pelo Kraken, e o Kraken é a realidade - e é também o portal para um outro lugar. Um lugar onde eu sou.

Eu - uma in(ade)equação de mim.



terça-feira, 29 de dezembro de 2009

What if?

O não poder-te me consome...

E já que este é o nosso tema

(eu radical, você vogal temática)

Voltamos ao nosso problema:

E se você estivesse aqui, junto?

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

The strangest thing

Todos aqui, à minha volta

- eu sozinha.

Só, na multidão.

Aí, vem você - na imaginação.

E eu te vejo,

E você sorri,

E o mundo inteiro se abre num desabrochar de primavera.

Eu sei. Você sabe.

Enough...

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Sublim(e)inar

As horas nos teus braços são tão breves,

O perfume do teu sim tão sutil,

Que sinto o cheiro do não, exalando forte da caçamba lá na esquina,

Subindo pelo vão do elevador,

Invadindo o apartamento pelas frestas da porta...

E te levando embora - bem na hora do bis.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

- 3...

Nas noites em que sonhava com a própria morte, sentia tal diminuição de sua energia vital que era como se deveras morresse. E temia agora o próximo sonho, como se estivesse perdendo algo imaterial e seu a cada momento do sono. Ela vinha sentindo um sono anormal desde que sonhara com três episódios de morte - um mais disparatado que o outro - e arrastava-se pelo dia como uma sonâmbula, lutando como uma leoa para manter-se acordada.

Justo ela, sempre tão ativa e animada, presente em todos os embalos de sábado a sábado - dia e noite - sempre ligada, andava agora caindo pelas tabelas, o olhar perdido no espaço, sempre sonolenta. Já havia recusado três convites para sair só naquela semana! E as pessoas iam acabar desistindo de convidá-la, e acabaria esquecida, no limbo das listas de convidados das festinhas VIP a que havia se acostumado frequentar.

O namorado - se é que ela ainda podia chamá-lo assim, tão distante ultimamente, sempre dedicando sua total atenção ao trabalho, aos amigos, pouco tempo para ela - já tinha reclamado de sua ausência. E isso vindo dele era um sinal alarmante de que alguma coisa não estava bem. A mãe estava uma alegria só - toda empolgadinha - só porque tinha conseguido falar-lhe ao telefone por duas noites seguidas. E todas as suas energias dedicadas a impedir seus olhos de se fecharem... "Eu preciso ir ao médico, tomar uns complementos vitamínicos e umas anfetaminas... Ah, sei lá! Eu preciso é de balada!" Passou a mão no telefone e descobriu que tinha uma rave no Íris. Foi!

Dançou a noite inteira, dançou o namorado (ele que fique com os amigos), dançou a mãe (hoje a gente não bate papinho, mamãe!), dançou a sobriedade (hoje não!), dançou o fim do mundo - porque não estava morta. E cansou. Já devia ser quase dia - e o efeito do XTC se esvaía, e ela nem conseguia mais ficar de pé. Arrastou-se até o sofá do lounge, e lá caiu, adormecida quase que instantaneamente.

"Saímos do Íris, eu, minha amiga e mais três carinhas. Vamos até o apê de um deles, logo ali, na Saúde, ficar de bobeira - e claro que vai rolar alguma sacanagem. O lugar é escuro - fica na sombra de um prédio bem alto do outro lado da rua - e abafado. Essas características conferem uma qualidade angustiante ao espaço - e eu não me sinto confortável aqui. Um dos caras trouxe LSD, e ofereceu. Ela logo quis, eu passo, e num instante o cara e ela estão atracados num canto do sofá. Os outros dois vem sentar do meu lado, assistindo a pegação - e lá vem eles, para cima de mim. No início até que estava gostoso, eles são bem competentes na pegação - mas estou desconfortável, mais uma vez. Eu aqui, podia estar curtindo uma sacanagem bacana, e fico pensando no cretino... Ai, sei lá, estremeci e travei. Digo que não quero mais, que não estou mais a fim. E os caras piram! Começam a me bater de verdade, sinto o sangue escorrendo do meu nariz, na minha boca, no fundo da garganta - gosto e textura de sangue, meu sangue descendo do supercílio esquerdo turvando minha visão. Sinto o calor da pisada de um deles na minha barriga... E a minha amiga da onça lá, atracada com o cara. Eles me arrastam para o quarto e me barbarizam, cara... Eu nem sinto, acho que vou morrer, acho que eles estouraram uma artéria abdominal me espancando... A consciência está apagando, como uma vela dentro de uma cúpula fechada - estou indo, e ninguém vem se despedir... Eles só vão perceber quando estiverem satisfeitos. E provavelmente vão me jogar num lixão, numa caçamba qualquer...

Desperto aflita. Nem um arranhão. Provavelmente estou morta, e a mente continua. Não. Estou amarrada numa cadeira, amordaçada. Não posso pedir socorro. Os caras que aparecem não são os mesmos de antes, não sei onde estou. Eles me perguntam coisas das quais não sei. Onde está a droga? - que droga? Eu já parei faz tempos, agora só uso XTC, e mesmo assim na balada! - Eles me batem mais um pouco. Merda! Não sei de nada, não sei que história de droga é essa! Merda, onde está minha amiga? Ela me largou sozinha, e agora eu estou literalmente na merda! Só saio dessa bem machucada, ou morta. Esses caras vão me matar de tanta pancada... O inchaço no olho esquerdo me impede de enxergar direito, se alguém me achar viva nem vou poder descrevê-los precisamente... O que é aquele emblema na camisa dele? Merda, polícia civil! Agora ferrou de vez... Esses caras são piores que muito traficante - aliás, foi por isso que eu parei com a herô. Vou desmaiar, vou perder os sentidos. Acho que não aguento apanhar muito mais... Eles já me quebraram algumas costelas, eu tenho dificuldade para respirar - é, deve ter perfurado um pulmão. Porra, mãe, eu devia ter ficado em casa e papeado com você essa noite... Olha só o que eu fui arrumar para mim... É o fim da linha, mãe, tô partindo... E dessa viagem eu não volto, não posso te trazer souvenir...

Sinto o Sol morno do amanhecer no rosto. Abro os olhos. Estou deitada no gramado do jardim do pátio de entrada do prédio dele. Ele - deitado do meu lado - ri como criança, enquanto eu conto para ele o quanto eu apanhei dos caras por ter travado bem na hora H. Nós dois rimos muito. Eu digo que a culpa é dele, e mostro os hematomas. Nossa, como estão doloridos! E como foi que eu vim parar aqui? Faço força para ignorar essa indagação - sacudo a cabeça, mais uma vez. Eu quero me deixar ficar aqui, no teu abraço, amor. Tão gostoso, tão aconchegante... De repente, uma sombra entre mim e o Sol. E sinto a pancada dura e seca bem na têmpora direita. Caramba, quanto sangue! De onde saiu essa louca, amor? Você já a deixou faz o quê, dois anos? O que essa louca está fazendo aqui? Ai, porque você não faz nada, porque ela continua investindo contra mim? Olho para o lado: ele está inerte, caído do meu lado. Amor, amor, olha para mim, amor! Ele não pode abrir os olhos porque não está mais ali. E eu me esforço para continuar - mas ela não para de me surrar - e eu vejo tua mão estendida para mim. Eu aperto tua mão na minha. Fecho os olhos. Vou com você aonde você for..."

- "Carina, acorda Carina! CARINA!!!"

Ela abre os olhos. Está novamente desperta. Está de volta ao sofá do lounge. Morreu novamente, mais três mortes. "Agora só falta uma", ela pensa alto - e ninguém entende.

- "E ai, vamos ao apê desse carinha? Tô super a fim de uma pegação..."

Não, ela responde muda, balançando a cabeça. Precisa ir para casa, tomar um longo banho, pôr suas coisas em ordem. Não sabia quando chegaria a próxima morte onírica. Mas dormiria com mais cuidado dali para frente...

As regras do rolê

As regras do rolê são bastantes simples: Fode, mas não se apaixona. Se apaixonar, não fode mais, pra não se foder depois. Tudo o que te ...